As aventuras malucas do Barretão em LA! Te Cuida, Charlie Harper!
Constado dia 22/02/08 às 0h35 em Pessoal | 
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Hoje tenho certeza, nasci para escrever. Tentei outras coisas, outras profissões, esportes, paixões. Mas há apenas uma coisa que me faz completo e realizado profissionalmente: escrever. Foi escrevendo que conquistei minhas asas, conheci minha esposa, meus ídolos e homenageei aquelas que amo. E é escrevendo que quero compartilhar uma história recente, triste, mas ainda assim, uma história. Que preciso escrever para assim, da melhor maneira que posso, honrar seus participantes e, em especial, ela.
Ela é minha avó. Elza.

Elza nasceu de família italiana, no coração da Mooca, nos tempos do bondinho, da chegada da Fábrica da União e de quando os galpões de tecelagens e outras indústrias tomavam conta do bairro mais gostoso de São Paulo. Casou cedo com meu avô, André. Tiveram três filhas: Ana Lúcia, Elizabeth e Elenice. Vovô e tia Elenice partiram há muito tempo, mas deixaram grandes saudades em todos da família. Elizabeth é minha mãe querida. Mas aqui falo de minha avó.

Na tarde de uma quinta-feira de janeiro o telefone tocou. Era ela, minha avó. Triste por saber que minha viagem se aproximava e que eu não a veria mais com tanta freqüência, ela ligou para saber se eu viria para Los Angeles mesmo e como estava me sentindo. Sempre preocupada. Sempre carinhosa.

Conversei bastante com ela, mas estava meio triste. Reclamei barbaridade da minha mãe, mas ela me fez ver que era bobeira ficar irritado, ainda mais tão perto da viagem. Faltavam apenas 5 dias para me distanciar de todos que amo.

E continuamos conversando, por uma meia hora. Ela me disse que estava cansada, sentindo um mal estar, mas que descansaria para se recompor. Durante a conversa, eu prometi que não descansaria até fazer a viagem valer a pena e que, em alguns meses, eu voltaria para levá-la para conhecer os Estados Unidos. De uns anos para cá, aprendi que a melhor coisa que pode ser dita àqueles que amamos é: eu te amo. E assim me despedi dela. “Vó, eu te amo, tá? Já estou morrendo de saudades. Te amo”. Meio insegura, como sempre para responder à minha devoção a ela, ela respondeu: Eu também te amo.

Foram as últimas palavras que ouvi da boca da minha avó. No dia seguinte, ela passou mal, foi para o hospital e, dois dias depois, tinha partido. Tive ainda uma última chance de ir vê-la, mas, atendendo a uma última “ordem”, fiquei com meus pais, irmãos, tios e primos no churrasco de despedida. Única demonstração de afeto que tive antes da minha partida, aliás. Nada de bota-fora com amigos. Nada. Apenas minha família. Minha mãe disse que ela deu uma bronca quando ficou sabendo que eu sairia no meio do churrasco para ir visitá-la no domingo.

Segunda pela manhã, enquanto negociava matérias e contatos, preparando as últimas coisas para embarcar, minha esposa entrou chorando no quarto. De algum modo eu já sabia, mas não queria acreditar. Era a notícia. A maldita notícia que temi por tantos anos e que simplesmente me derrubou. Até hoje não sei como não caí de cara no chão, mas a reação foi a da não reação. Ausência de emoção, já que meu ceticismo proíbe qualquer tentativa válida de negação ou algo do tipo para algo tão definitivo. A morte. Ali estava ela. Na minha frente, nua e crua, sem roteiro de cinema, sem trilha sonora. Ela apenas é. E a gente sem poder fazer nada.

Ainda não chorei o suficiente. Aliás, ainda não chorei direito por ela. Iniciei essa viagem maluca para salvar minha família, minha dignidade e reencontrar o Fábio lutador, que saiu do subúrbio da Zona Leste de São Paulo para disputar espaço na grande imprensa do Brasil, que hoje mora em Los Angeles, mas vai dormir todos os dias lembrando de tudo que já passou e por quem faz todo esse esforço.

Aqui estou construindo uma nova vida e vivendo um sonho, mas triste por não ter fugido do churrasco e falado com ela uma vez mais. Abraçado uma vez mais. Dado um último beijo delicado em seus lábios. E ter dito, sem ser pelo telefone, uma vez mais, “Te amo, vovó”.

Tenho visto pessoas preocupadas com picuinhas, intrigas, gente desmoralizando meu trabalho, duvidando da minha dignidade, desacreditando na minha promessa e nada disso faz sentido. Trocaria cada momento aqui, cada notícia apurada, cada entrevista feita por um reles minuto ao lado da minha avó. Um minuto. Uma frase. Um simples carinho.

A vida ganha mais valor quando algo assim acontece. Gostaria muito que a gente percebesse isso antes de acontecer que, assim como eu, as pessoas aprendessem a dizer “te amo” e não se preocupar com quem não merece seu amor. Mas cada um tem seu momento de aprendizado. Felizmente, o meu chegou antes e hoje seguro a barra de ficar longe da minha esposa amada e da minha filha, pois sei que vai valer a pena e que elas voltarão a viver comigo muito em breve. Felizes, numa nova realidade, numa nova chance que o Brasil me nega, infelizmente.

Carreguei o caixão de minha avó em seu último passeio. Fiquei junto dela o quanto pude até que a tristeza e o sono me afastaram do duro velório. Olhei para ela e, mesmo triste, pude me sentir orgulhoso por saber que a última coisa que dissemos um para o outro foi “Eu te amo”.

Já faz um mês que tudo isso aconteceu. E ainda não chorei. Mas o amor permanece. Uma parte da promessa eu não posso cumprir, a outra, eu não abro mão. Mesmo com as lágrimas lavando o rosto e tentando apagar a dor, que ainda é latente e imensurável.

vo-e-ariel.jpg

Obrigado por tudo!

11 comentários sobre "Uma Simples Homenagem"

Silvia Penhalbel

22 de February de 2008
5h33

Linda homenagem meu querido.

Tenho certeza de que vovó está orgulhosa de você e olhando por sua família.

Honrar a memória dela vencendo mais esta batalha, é tudo o que ela gostaria que você fizesse.

Beijo

Ren4n

22 de February de 2008
5h42

Bom, de certa forma eu sei um pouco como você se sente. Trocaria tantas coisas por outras que não tive a oportunidade. Saudades de pessoas que já se foram…
Sei lá, é foda falar qualquer coisa agora, mas tenha certeza que ela está aí contigo e vai te dar força pra lutar pelo que você deseja. Ela sabe da sua luta, do seu esforço. É isso que importa, não?
Acho que escrevi muito e ia escrever mais, mas deixa quieto. É que realmente sei como essas coisas são complicadas.
Abraços!

Poderoso Porco

22 de February de 2008
7h46

Mais um texto sensacional, Barretão.
Emocinante pra mim porque eu passei por coisa muito parecida, com a minha avó também. Uma pessoa maravilhosa, que contribuiu absurdamente pro sujeito que eu sou hoje, que me ensinou a subir em árvore e a gostar de doce feito na pedra da pia da cozinha. Que me puxou a orelha muitas e muitas vezes.
Assim como você, eu também não pude me despedir. Ela teve um AVC numa noite de terça-feira e faleceu na quarta, antes d’eu poder vê-la. Fora algumas raras ocasiões nestes dez anos, eu poucas vezes chorei a partida da Dona Celita. Poucas. O seu texto acabou de gerar mais uma.
De trazer de volta aquela saudade grande, aquele aperto igual agulha no peito.
Cara, infelizmente (ou felizmente) essa falta nunca passa. Mas um dia a gente aprende a fazer dela corrimão pra subir e seguir em frente. Nós somos o que ficou delas.

Vamos em frente.

Carolina

22 de February de 2008
8h41

Escorreu uma lagriminha aqui no rosto viu…

Rodrigo

22 de February de 2008
8h46

Pode ter certeza que eu sei o que você sente. Fui criado pela minha avó e vivi 17 anos ao lado dela até que ela se foi…até hoje a dor é enorme. E eu também não chorei nem a metade do que um dia eu sei que vou chorar

Lu Costa

22 de February de 2008
10h41

Fá… você já é um vencedor e sei que seja onde a D. Elza estiver ela está olhando por nós. Sei que não tenho que ficar falando aqui algumas coisas, mas neste comentário vou falar, eu te amo, meu marido e desejo a cada minuto estar ao seu lado e poder compartilhar novamente com você todos os momentos de nossa vida.
Tenho muito orgulho de você e sei que a D. Elza também tinha e está muito feliz olhando você lá de cima e vendo o quanto você está se esforçando.
Desculpe, amigos do Judão, mas neste comentário, eu tinha que ser um pouco mais sentimental.
Eu te amo, Fábio e você sabe que estarei sempre ao seu lado, seja onde for e como for!
Beijos da sua esposa Luíza

walter chede domingos

22 de February de 2008
13h37

Ei, cara!

Não vale ficar tão longe e fazer a gente chorar por aqui. Fibra, meu velho! A vida é longa e bela. É pra ser vivida intensamente. Como diria o profeta, feliz é aquele que tem como companhia uma mulher e uma filha esmagadoramente lindas. Vê, você é feliz. Continue em frente que você é vencedor. Todos nós confiamos em você.

Veronica

22 de February de 2008
15h15

Nossa Fabio prendi o choro aqui (to no trabalho).

Eu sei o que vc passou e passa. Perdi minha mae em 1998 e mesmo depois de 10 anos, parece que foi ontem. A saudade e absurda ainda, mas como o tempo cura tudo, parece que “aceitei” a partida dela um pouco mais.

E como vc, tb estou longe da minha familia que tanto amo. E’ dose, mas a vida e assim. Se tudo fosse facil, nao teria nenhuma emocao. Seria tudo boring demais.

Forca pra vc. Sempre.

Bjao.

* Sua vozinha era linda e sua filhinha e fofa demais.

Rafael

22 de February de 2008
21h10

Barretão, se você quiser chorar, chora, brother.
Eu não chorei quando o meu avô morreu e, hoje, sei como isso me faz sentir. Sempre que lembro dele, por mais que seja alguma recordação maravilhosa, vem aquela saudade e a vontade de chorar…
Assim como com a sua avó, a última coisa que eu disse p/ ele foi “eu te amo” e ele, que já tinha poucos momentos de lucidez, me reconheceu e disse: “eu sei, meu neto”.
Tenha força, cara, pq, infelizmente, por mais que encaremos a morte como algo natural, nunca estamos preparados para dizer adeus para os nossos queridos. Mas, pode ter certeza que eles estão nos olhando e cuidanda da gente. Sempre.
Um abraço,
Rafael

Lu Costa

22 de February de 2008
23h45

@Veronica
A D. Elza era uma pessoa linda mesmo.. alias.. a nossa pequena Ariel faz as mesmas “caretas” dela.. ela tem muito da D. Elza… se você quiser ver mais fotos da pequena, manda um e-mail pra mim.
Ela é uma fofa.. e faz cada careta em foto!
Valeu pela força para o Fábio por aí.
Beijo
Lu

Barretão

23 de February de 2008
0h31

Pô, gente!

Obrigado pelo apoio. Confesso a vocês que só agora percebi que os comentários ficaram abertos. Eu juro que fechei a caixinha na hora de postar, mas eu estava num estado meio afetado, então passou.

Bom, especialmente por ser inesperado, fiquei muito emocionado com o apoi. Obrigado mesmo! Descobri que até a minha mãe leu esse texto. Putz.

Um abraço carinhoso a todos vocês,
Fábio

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