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Hoje tenho certeza, nasci para escrever. Tentei outras coisas, outras profissões, esportes, paixões. Mas há apenas uma coisa que me faz completo e realizado profissionalmente: escrever. Foi escrevendo que conquistei minhas asas, conheci minha esposa, meus ídolos e homenageei aquelas que amo. E é escrevendo que quero compartilhar uma história recente, triste, mas ainda assim, uma história. Que preciso escrever para assim, da melhor maneira que posso, honrar seus participantes e, em especial, ela. Elza nasceu de família italiana, no coração da Mooca, nos tempos do bondinho, da chegada da Fábrica da União e de quando os galpões de tecelagens e outras indústrias tomavam conta do bairro mais gostoso de São Paulo. Casou cedo com meu avô, André. Tiveram três filhas: Ana Lúcia, Elizabeth e Elenice. Vovô e tia Elenice partiram há muito tempo, mas deixaram grandes saudades em todos da família. Elizabeth é minha mãe querida. Mas aqui falo de minha avó. Na tarde de uma quinta-feira de janeiro o telefone tocou. Era ela, minha avó. Triste por saber que minha viagem se aproximava e que eu não a veria mais com tanta freqüência, ela ligou para saber se eu viria para Los Angeles mesmo e como estava me sentindo. Sempre preocupada. Sempre carinhosa. Conversei bastante com ela, mas estava meio triste. Reclamei barbaridade da minha mãe, mas ela me fez ver que era bobeira ficar irritado, ainda mais tão perto da viagem. Faltavam apenas 5 dias para me distanciar de todos que amo. E continuamos conversando, por uma meia hora. Ela me disse que estava cansada, sentindo um mal estar, mas que descansaria para se recompor. Durante a conversa, eu prometi que não descansaria até fazer a viagem valer a pena e que, em alguns meses, eu voltaria para levá-la para conhecer os Estados Unidos. De uns anos para cá, aprendi que a melhor coisa que pode ser dita àqueles que amamos é: eu te amo. E assim me despedi dela. “Vó, eu te amo, tá? Já estou morrendo de saudades. Te amo”. Meio insegura, como sempre para responder à minha devoção a ela, ela respondeu: Eu também te amo. Foram as últimas palavras que ouvi da boca da minha avó. No dia seguinte, ela passou mal, foi para o hospital e, dois dias depois, tinha partido. Tive ainda uma última chance de ir vê-la, mas, atendendo a uma última “ordem”, fiquei com meus pais, irmãos, tios e primos no churrasco de despedida. Única demonstração de afeto que tive antes da minha partida, aliás. Nada de bota-fora com amigos. Nada. Apenas minha família. Minha mãe disse que ela deu uma bronca quando ficou sabendo que eu sairia no meio do churrasco para ir visitá-la no domingo. Segunda pela manhã, enquanto negociava matérias e contatos, preparando as últimas coisas para embarcar, minha esposa entrou chorando no quarto. De algum modo eu já sabia, mas não queria acreditar. Era a notícia. A maldita notícia que temi por tantos anos e que simplesmente me derrubou. Até hoje não sei como não caí de cara no chão, mas a reação foi a da não reação. Ausência de emoção, já que meu ceticismo proíbe qualquer tentativa válida de negação ou algo do tipo para algo tão definitivo. A morte. Ali estava ela. Na minha frente, nua e crua, sem roteiro de cinema, sem trilha sonora. Ela apenas é. E a gente sem poder fazer nada. Ainda não chorei o suficiente. Aliás, ainda não chorei direito por ela. Iniciei essa viagem maluca para salvar minha família, minha dignidade e reencontrar o Fábio lutador, que saiu do subúrbio da Zona Leste de São Paulo para disputar espaço na grande imprensa do Brasil, que hoje mora em Los Angeles, mas vai dormir todos os dias lembrando de tudo que já passou e por quem faz todo esse esforço. Aqui estou construindo uma nova vida e vivendo um sonho, mas triste por não ter fugido do churrasco e falado com ela uma vez mais. Abraçado uma vez mais. Dado um último beijo delicado em seus lábios. E ter dito, sem ser pelo telefone, uma vez mais, “Te amo, vovó”. Tenho visto pessoas preocupadas com picuinhas, intrigas, gente desmoralizando meu trabalho, duvidando da minha dignidade, desacreditando na minha promessa e nada disso faz sentido. Trocaria cada momento aqui, cada notícia apurada, cada entrevista feita por um reles minuto ao lado da minha avó. Um minuto. Uma frase. Um simples carinho. A vida ganha mais valor quando algo assim acontece. Gostaria muito que a gente percebesse isso antes de acontecer que, assim como eu, as pessoas aprendessem a dizer “te amo” e não se preocupar com quem não merece seu amor. Mas cada um tem seu momento de aprendizado. Felizmente, o meu chegou antes e hoje seguro a barra de ficar longe da minha esposa amada e da minha filha, pois sei que vai valer a pena e que elas voltarão a viver comigo muito em breve. Felizes, numa nova realidade, numa nova chance que o Brasil me nega, infelizmente. Carreguei o caixão de minha avó em seu último passeio. Fiquei junto dela o quanto pude até que a tristeza e o sono me afastaram do duro velório. Olhei para ela e, mesmo triste, pude me sentir orgulhoso por saber que a última coisa que dissemos um para o outro foi “Eu te amo”. Já faz um mês que tudo isso aconteceu. E ainda não chorei. Mas o amor permanece. Uma parte da promessa eu não posso cumprir, a outra, eu não abro mão. Mesmo com as lágrimas lavando o rosto e tentando apagar a dor, que ainda é latente e imensurável.
Obrigado por tudo!
11 comentários sobre "Uma Simples Homenagem"
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