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A discussão não é nova, mas volta com força por conta da aventura Viagem ao Centro da Terra 3D. Afinal de contas, o que é cinema hoje em dia? Muito mais do que discutir a técnica utilizada em sua realização, deve-se analisar a influência que o formato exerce sobre elementos vitais como roteiro, interpretação e edição. Filmes em 3D são impressionantes? Sim, mas seu custo pode ser artisticamente muito alto. E o longa-metragem estrelado por Brendan Fraser paga caro por sujeitar o conteúdo às demandas de seu formato.
A proposta de uma releitura moderna para um dos clássicos de Júlio Verne soava arriscada desde o princÃpio. Adaptada à exaustão, Viagem ao Centro da Terra ganhou uma sigla que chamou a atenção do mercado: 3D. Seria o primeiro filme da New Line – ainda bem das pernas – no novo formato. Antes de sua estréia, porém, o público pode conferir o deslumbre visual e os personagens estrábicos de A Lenda de Beowulf, do inovador Robert Zemeckis (que vem testando novos formatos de animação há um bom tempo). Mais vÃdeo game do que filme, Beowulf encontrou seu maior defensor nos donos de cinemas 3D, especialmente no Brasil, que registraram aumentos consideráveis em suas bilheterias por conta do filme. Sem entrar no mérito dos problemas que a animação causou tecnicamente, o espectador presenciou um grande número de cenas feitas propositalmente para utilizar o recurso do 3D. Espadas apontadas na direção do público, tomadas impossÃveis para levar o espectador ao delÃrio e diversas outras coisas sendo lançadas de encontro à platéia. Não consigo deixar de pensar na primeira vez que me deparei com essa técnica: turnê Psycho Circus, do Kiss, em São Paulo. Era um exagero permitido para milhares de roqueiros com óculos de celofane. Soaria infantil não fosse a seriedade e culto envolvida no processo. Foi “bacana” ver a guitarra de Ace Frehley pairar sobre o Autódromo de Interlagos ou Paul Stanley estender seus braços até seus fãs, mas era um elemento de um grande show. Um diferencial, por assim dizer. Voltando ao cinema, depois Hannah Montana tomou o circuito de assalto e foi recorde por onde passou. Aqui, porém, a técnica foi usada de maneira inteligente pela Disney. Questão de objetivo: a tarefa era colocar o espectador na platéia do show de Miley Cyrus. E funcionou exemplarmente. O 3D funcionou em prol do espectador que foi convidado a vivenciar a experiência, sem exageros e apenas duas situações de “objetos lançados†em direção ao público. Os dois justificáveis, aliás. Agora chega a vez de Viagem ao Centro da Terra. Ficou divertido? Sim, ficou. Mas cansa rapidamente, pois o roteiro se rendeu ao formato e cada cena contém algum elemento de interação com o público. Seja um ioiô que é arremessado contra o público diversas vezes seja o personagem principal urinando numa privada que, por acaso, é a tela. O filme é um festival de seqüências totalmente pensadas para 3D o que, invariavelmente, banaliza seu status de novidade.
O argumento da história é bom. Trevor Anderson (Brendan Fraser) é um geólogo cujo irmão desapareceu numa expedição. Atrapalhado e à s vésperas de ter seu projeto cancelado, precisa tomar conta do sobrinho, Sean (Josh Hutcherson). A chegada do garoto provada uma mudança na vida do pesquisador, pois eles encontram uma cópia de Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, cheia de anotações que, eventualmente, vão levá-los à Islândia, onde conhecem a belÃssima islandesa Anita Briem, sua guia, que vai acompanhá-los na jornada de suas vidas. Entretanto, sintomática dos últimos filmes grandes da New Line, a falta de foco e uma sensação de pressa – assim como em A Bússola de Ouro – prejudicam o filme, que é rico em exageros. Brendan é carismático – mostrou isso na première do filme em Los Angeles – mas passa mais tempo interagindo com a tela do que atuando. Para azar do galã, seu personagem foi o que mais sofreu com o roteiro, que o torna repetitivo – no intuito de ser engraçado, já que até os outros personagens percebem – mas erra o tom. E quem também sofre com isso são as boas referências a Lindenbrok (o explorador original do romance de Verne) e a todas as “descobertas” propostas pelo escritor, pois perdem força perante a velocidade da obra e seu visual. Os efeitos visuais são realmente impressionantes. O passeio no trem da mina é eletrizante e o 3D mostra a que veio, assim como as criaturas e cenários do centro da Terra. Tudo muito belÃssimo. E é justamente aà que o filme peca: individualmente, suas cenas são impactantes e enchem os olhos, mas um filme precisa de coesão e de boas escolhas para manter seu ritmo. E, por pressa ou não, a New Line errou até mesmo em seu último suspiro. Não adianta ter várias coisas bonitas e boas juntas e simplesmente despejar, literalmente, na cara do espectador. Criar algo memorável e criativo com isso tudo é, até agora, uma das funções do cinema. Ou até mesmo isso mudou? Os dois lados estão expostos. O filme pode ganhar com o 3D (Hannah Montana) ou pode ser um Cine2000, do PlayCenter, como é o caso de Viagem. Estimar o tempo necessário para que o bom senso equilibre esse novo formato é impossÃvel e quem vai sofrer com o processo de aprendizado é o público. Sem dúvida, o espectador enfrentaraá novas “casas malucas” similares a essa de Brendan Fraser por um bom tempo. Será que vale tudo em prol do experimentalismo e da evolução? Sou do tempo em que essas coisas eram feitas em laboratórios e sem envolver o mercado comercial. Imaginaram se a DreamWorks tivesse feito um filme cada vez que subissem um degrau na escada que levou à qualidade de Shrek? Paciência é uma virtude. A New Line não teve. E pagou o preço. Mas, a questão permanece, o que é cinema? Até mesmo Hollywood está em dúvida. Eles sabem o que faz dinheiro, mas, conceitualmente, a nau está à deriva.
7 comentários sobre "Viagem ao Centro da Terra: nau à deriva"
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