As aventuras malucas do Barretão em LA! Te Cuida, Charlie Harper!

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Constado às 20:55 em Artigos, Cinema, Cobertura, Críticas | 34 Comentários | 

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Introduce a little anarchy… Upset the established order… Well, then everyone loses their minds!

LOS ANGELES - Um dia ou um ano. Tanto faz o tempo disponível para escrever essa análise de Batman – O Cavaleiro das Trevas. A tarefa não se torna mais fácil ou menos complexa, não por ser um filme de difícil compreensão ou repleto de mensagens subliminares, muito pelo contrário, justamente por se tratar de um longa-metragem extremamente direto e agressivo. Que deixa o público sem saber como agir depois que o filme acaba. E isso assusta, transtorna e marca o espectador. O personagem pode ter nascido nos quadrinhos, mas pouco resta do herói arquétipo e da estrutura do formato impresso. Tim Burton que me perdoe, continuo adorando seus filmes, mas a história de Batman nos cinemas começa agora!

Mas…e Batman Begins? Christopher Nolan e Christian Bale definiram os novos parâmetros no primeiro filme, sem dúvida, mas ainda restavam traços das HQs. Vilões que precisam ser derrotados em prol do bem maior, um herói definia seus caminhos, tudo ainda era preto e branco. O que não tira os méritos do filme, mas deixa claro que foi uma preparação para a realização de O Cavaleiro das Trevas. É fato. E um filme que precise de um preâmbulo grandioso como Batman Begins não pode ser um produto qualquer. E não é.

Desde Sangue Negro não me deparava com uma trilha sonora tão presente e ameaçadora. Praticamente um personagem independente que apóia o elenco e tem seus momentos de grandeza, mas, como todo grande “astroâ€, sabe quando se retrair e desaparecer completamente. James Newton Howard e Hans Zimmer realizaram algo memorável com a trilha.

Se as composições ameaçam, o que dizer sobre o vilão mais antecipado do ano? O Coringa chamou a atenção desde a escalação de Heath Ledger e dividiu a opinião pública (por pouco tempo, diga-se de passagem) quando suas primeiras imagens foram divulgadas. O estúdio já começava a notar que tinha algo único nas mãos, mas, de repente, Ledger morreu em janeiro, e vários “especialistas†culparam a intensidade do Coringa no incidente. O mito estava criado.

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Sem dúvida, esse vai ser o principal chamariz para a maioria das críticas, pois a morte de Heath Ledger ofusca. Entretanto é inegável o fato de que, vivo ou morto, ele entraria para a história com a interpretação desse Coringa. Ele foi capaz de realizar em apenas um filme o que 90% dos atores de Hollywood gastam a vida inteira tentando: originalidade e transformação total. O ator desapareceu e, em seu lugar, surgiu uma figura que inspira medo e pavor, não apenas por suas próprias ações, mas por conta de uma sociedade que o criou e o tolera.

Diferente de todos os demais filmes sobre o Batman, O Cavaleiro das Trevas não foca no personagem de Bob Kane. Toda a campanha de marketing e o início do filme levam a crer que o elemento principal dessa trama é o Coringa, um assassino maníaco que desconhece limites para suas maquinações. No entanto há Harvey Dent, o novo promotor público de Gotham City. Num trabalho primoroso de Aaron Eckhart (Obrigado por Fumar!), ele destoa como verdadeira esperança para uma cidade aterrorizada pelo crime e, mesmo durante o rompante de violência promovido pelo Coringa, se mantém firme e desafiador.

É nele que os olhos do espectador devem ficar atentos. Um bastião mais importante que o próprio Batman e ideal o suficiente para inspirar gerações. Algo próximo do verdadeiro modelo do herói, sem capa ou superpoderes, apenas um homem comum aceitando a responsabilidade de agir no momento de necessidade. A campanha de marketing sabiamente focou no Coringa para despistar quem resolveu seguir os passos da “incansável caçada do Tenente Gordon ao criminoso†e utilizou Dent como elemento secundário. Ele, ou melhor, a cidade que representa é a verdadeira chave de O Cavaleiro das Trevas.

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Os elementos dos quadrinhos estão lá. Batman, Coringa, Gordon, batsinal e por aí vai. Porém Christopher Nolan fez algo que seus competidores da Marvel não ousaram (Homem de Ferro construiu um herói para a nova geração, cheio de tecnologia, bom-humor e adrenalina; Hulk esmagou, falou, esmagou mais um pouco e ponto). Ele criou um tratado social com seu novo filme, fazendo uma incisão sem anestesia num paciente apático que se vê acuado pela violência retratada no longa-metragem e pouco faz para combatê-la. Ou seja, o filme fala sobre nós. Pessoas. Até mesmo Gordon (em mais um grande trabalho de Gary Oldman) recebe seu quinhão da mazela ao se ver cercado por pessoas corrompidas e paga caro por isso. Não há escapatória se não esboçarmos uma reação.

O Coringa inspira medo e o trabalho de Ledger assusta. É algo visceral e cruel. Diferente da versão memorável de Jack Nicholson, que exibia certo charme e sutileza. Ledger é cru, mais próximo da realidade. Mas nada disso supera suas conquistas perante a população, que comprova sua tese: mesmo os mais nobres podem ser corrompidos. E vai além. Ele corrompe, manobra e entrega o “novo tipo de criminoso†que prometeu nos trailers. O que é mais sintomático: o psicopata assassino ou uma massa gigantesca de pessoas que teme um único homem?

Essa é a tônica de O Cavaleiro das Trevas. Um mergulho em direção aos medos de cada espectador, que é obrigado a imaginar como reagiria às situações extremas provocadas pelo Coringa. Essencialmente, é a jornada do próprio Batman, desde a traumática morte dos pais até a seqüência de relacionamentos infrutíferos. Agora, o Homem-Morcego coloca sua moral e seus conceitos em xeque por conta de seu novo inimigo. Como enfrentar alguém sem limites e manter sua própria sanidade? Christopher Nolan disse ter ficado receoso ao conceber o filme. Agora é possível entender. Fazer algo desse tipo requer muita coragem e causa calafrios em qualquer um.

E o pior de tudo: como tentar dormir em paz depois de ser confrontado com tamanha perturbação e veracidade? Esse é o legado de Heath Ledger, o legado do Coringa, o legado do medo e da genialidade.

Leia crítica do Judão aqui.

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(Por Fábio M. Barreto)

Constado às 22:52 em Artigos, Cinema, Críticas | 8 Comentários | 

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There’s no charge for awesomeness! E ele é DEMAIS! Mesmo! É ele! O Panda!

LOS ANGELES - A briga pela liderança qualitativa da animação se desenrola pesadamente há anos. Pixar batendo de um lado, DreamWorks respondendo do outro, e, vez ou outra, uma terceira aventureira pinta na área e acerta um hit. A franca vantagem da Pixar, porém, é latente e fica a cargo das demais companhias correrem atrás do prejuízo. Shrek tinha sido, até agora, a maior afronta à hegemonia, porém, Kung Fu Panda define um novo padrão na briga pelo segundo lugar. Com bom-humor e excelência técnica, a nova animação que chega aos cinemas brasileiros amanhã já arrepiou nas bilheterias norte-americanas e deve repetir a dose no Brasil!

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Constado às 23:51 em Animação, Artigos, Cinema, Cobertura, Exclusivo, Imprensa | 10 Comentários | 

Los Angeles é a capital mundial do puxa-saquismo cinematográfico. Chega a dar medo!

Essa coisa de bater palmas sempre me levava às noites de Oscar, com tudo mundo aclamando o Scorsese, o Clint, o Nicholson, sei lá, algum desses caras formidáveis. Cheguei aqui e tudo foi pelo ralo. Foi na exibição restaurada de 101 Dálmatas – a versão do DVD bacana da Disney. O povo começou a bater palmas depois que o representante da companhia apresentou o filme! É, ele deu boa noite, falou do que se tratava e pediu para começar a exibição. Bateram palmas!!!

Fiquei passado! Máquêêêê?! Beberam?!

Bom, logo alguém me disse. “É o pessoal de TVâ€, eles são aparecidos e puxam o saco descaradamente. Pensei comigo, bem, cada um com seus interesses. Só esperava que não fizessem isso durante o filme. E não fizeram. Mas foi só a primeira linha de crédito subir e pimba: mais palmas! Filme super novo, o diretor e o estúdio precisam de força para se firmarem, sabe. Ah vá!

Isso continuou acontecendo nas grandes junkets, mas como o pessoal de TV sempre estava lá, desconsiderei e coloquei a culpa neles. Beleza. Mas aí veio O Incrível Hulk. Mega evento dentro do Universal Studios, como relatei aqui, celebridades e o pacote completo. Mais de mil pessoas no anfiteatro. Filme começa. Palmas. Mas que diabos?!

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Constado às 13:32 em Animação, Artigos, Cinema, Críticas, Disney, Exclusivo | 52 Comentários | 

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Novo longa de animação fruto da parceria entre Disney e Pixar é genial! E é Oscar garantido, pode apostar!

LOS ANGELES – Os trailers fizeram o trabalho duro e poucos consumidores de cinema não foram afetados pelo carisma e personalidade atrapalhada do robozinho Wall-E. E tanta expectativa é superada pelo resultado final do longa-metragem, que, novamente, força as barreiras do que é, ou não, capaz a animação. Com pouco diálogo, muita expressão – especialmente quando dois robôs que não falam são personagens principais – e maestria na direção, Wall-E estréia como clássico instantâneo, mundialmente, na próxima sexta-feira. Há tempos que a Disney não emplacava um personagem infantil tão cativante e poderoso como esse. (Spoilers a partir deste ponto)

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Constado às 09:41 em Artigos, Cinema, Literatura, Pessoal | 23 Comentários | 

Vou falar de Tolkien e Lewis por causa de um comentário curioso, mas antes tenho algo a esclarecer. Este blog não é um daqueles fenômenos de internet que atraem gente de todo canto e entope os comentários com um monte de “adorei seu blog, parabéns, ou blabláâ€. O pessoal que chega aqui chega por uma razão, quer saber e falar sobre cinema hollywoodiano – que é onde eu moro, então falar do que não é feito ou lançado por aqui é secundário, embora eu goste de filmes de outros lugares, especialmente da Inglaterra – ou é amigo, membro da família, coisas assim. O que acontece é que sempre tem gente conhecida e, quando alguém novo surge, algumas explicações podem, ou não, ser necessárias, afinal, leva um tempo para conhecer alguém e algumas “opiniões†podem não transmitir aquilo que realmente penso, especialmente pelo fato de eu tirar barato de muitas situações aqui. Afinal, estamos no Judão, certo?
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Constado às 09:56 em Artigos, Astros, Cinema, Comportamento, Exclusivo | 4 Comentários | 

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Até mesmo pessoas inteligentes têm seus momentos “Magdaâ€. Sharon Stone falou bobagem da China e levou uma invertida poderosa e financeira. Entretanto, esse caso nem se compara ao cala-boca que Spike Lee levou do Clint Eastwood outro dia. Bom, o sujeito também foi mexer com o Clint? Putz, com Dirty Harry não se brinca, filhote! Mas ele foi pregar aquela palhaçada racial dele (direitos são uma coisa, usar como arma política ou de publicidade é outra totalmente diferente, e foi isso que ele fez) e se esqueceu de pensar se seu argumento era válido ou não.

Vou explicar por que Spike Lee se demonstrou um tapado, nesse caso. Gosto dele, mas perdeu vários pontos depois dessa. Vamos aos fatos:

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“Clint Eastwood fez dois filmes sobre Iwo Jima que duram mais de quatro horas no total e nos quais não aparece nenhum ator negro. Caso vocês, repórteres, tivessem coragem, perguntariam por que agi desta forma”, declarou Spike Lee, em Cannes.

E eles perguntaram.

“O que quer que eu faça? Uma campanha em defesa da igualdade de oportunidades, por exemplo? Minha missão não é esta, mas faço uma leitura histórica. Quando faço um filme baseado em uma história na qual 90% das pessoas envolvidas eram negras, como ‘Birdie’ - sobre o músico Charlie Parker -, uso 90% de atores negros”, devolveu Clint Eastwood.

Com os dois lados expostos, vou amarrar essa coisa toda. Como alguns de vocês sabem, eu escrevo contos e, no momento, estou trabalhando no meu primeiro livro. Mês passado, porém, escrevi um roteiro em inglês da minha primeira tentativa de curta-metragem. O assunto: Segunda Guerra Mundial. Curiosamente, eu queria escalar um ator negro para o papel, mais especificamente John Adams (Dead Zone), colega meu aqui , gente boa pacas e que arranha no português.

Diferente do Spike Lee, eu pesquisei a presença e a participação de soldados negros no conflito, especialmente no Teatro de Operações Europeu. Como fã e estudioso do tema, achei estranho também, assim como o Lee, que não houvesse negros em produções como Band of Brothers, O Resgate do Soldado Ryan, Além da Linha Vermelha, e por aí vai. Demorou um pouco para chegar ao resultado, mas o próprio John me colocou em contato com um veterano que, além de indicar um material distribuído na comunidade negra aqui, deu a resposta: não haviam negros na linha de frente norte-americana no início da guerra, especialmente no Dia-D.

O Teatro do Pacífico, porém, apresentou a utilização de combatentes negros bem mais rápido e, realmente, havia um contingente afro-americano na invasão às ilhas japonesas como Iwo Jima, mas um número ínfimo se comparado aos caucasianos. O comentário de Lee soa fora de contexto, uma vez que os filmes de Eastwood tem por objetivo retratar a história dos soldados que levantaram a bandeira, em A Conquista da Honra, e dos japoneses, em Cartas de Iwo Jima. Spike Lee vem tocando nesse tema há um tempo, diz que é provocação de Eastwood e promete fazer seu próprio filme de guerra para “corrigir†esses erros. Ótimo, mas que o faça num intervalo histórico onde a participação negra foi verídica. É realmente necessário mostrar esse aspecto da guerra.

Os Estados Unidos ainda viviam um sistema social segregado durante Segunda Guerra Mundial, que continuou a ter seus efeitos inclusive durante o Vietnã – aí sim uma guerra onde os negros foram enviados ao front sem pensar duas vezes. Quem assistiu a Fomos Heróis pode notar a integração entre os soldados, mas o detalhe da segregação surge quando uma das esposas recém-chegadas fica surpresa com a lavanderia “withes only†(ela pensou que só podia lavar roupa branca, mas, na verdade era que só “gente†branca poderia entrar no estabelecimento).

Não havia nenhum pára-quedista negro no ataque aéreo e tampouco dentro das barcaças de desembarque. O primeiro negro a colocar os pés na Normandia foi um motorista de caminhão, que levava suprimentos para os combatentes. As unidades do Exército formadas por negros eram não-combatentes, no início da guerra, mas isso foi mudando ao longo do conflito. O personagem de Cuba Godding Jr. em Pearl Harbor, por exemplo, deixa claro que “lugar de negro era na cozinha”, sob a ótica das Forças Armadas, pelo menos até a briga começar e as estúpidas barreiras raciais começaram a esmorecer, afinal, muito branquelo foi salvo pela coragem e bravura dos soldados negros.

Voltando a Spike Lee. Como membro ativo da comunidade negra e, sem dúvida, em contato com todo esse material que um recém-chegado como eu conseguiu, soa apenas como jogada de marketing criticar Clint abertamente. A resposta de Eastwood foi perfeita e dentro da realidade do conflito. Para que escalar negros num lugar onde não haviam negros lutando? Seria o mesmo que George Lucas escalar atores brancos para estrelar Red Tails, que vai contar a história do melhor esquadrão de caça da WWII e que era totalmente formado por pilotos negros. Se o Lucas estragar esse, eu juro que ele perde meu respeito!

O “ataque†de Lee tem uma razão, porém. O próximo projeto de Clint Eastwood envolve a história de Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da Ãfrica do Sul. Entendo a postura do cineasta desafiante como um aviso: “estamos de olho no que você fazâ€. Mas o golpe não funcionou, e o detentor do título devolveu com um nocaute: “Não vou transformar Nelson Mandela em um brancoâ€, disse sorrindo.

Portanto, Spike, meu caro: calaaaaaaaaaaaaaaada!

Constado às 20:57 em Artigos, Comportamento, Pessoal | 21 Comentários | 

A bíblia relata as mais celebres história dos linchamentos públicos da religiosidade cristã, porém, os últimos casos de destruição pública de imagem que presenciamos não chegam nem aos pés do apedrejamento de Maria Madalena ou do antigo costume de “queimar o judasâ€. Embora não goste de falar a respeito, é impossível deixar o chamado “caso Isabella†de lado. Mas, leia e entenda um lado curioso, e diferente, dessa coisa toda.

Estava fora do país quando a menina morreu, não recebi o impacto inicial da notícia. Aliás, essa tragédia aconteceu bem perto do anúncio de um vídeo no qual uma colegial era espancada por “amigas†só por ter falado mal delas no MySpace. A garota ficou desfigurada. Fiquei sabendo pouco depois da morte da garotinha em São Paulo. Sou pai, portanto, esse tipo de coisa revolta um pouco mais. A partir daí fiquei alguns dias sem ouvir no assunto. Até que cheguei ao Brasil.

Época trazia a matéria na capa: Até quando?. Veja julgou e condenou: Foram Eles! Os jornais diários dedicavam páginas e mais páginas todos os dias às novas “descobertas†e, claro, os canais de televisão surtavam com a mais nova oportunidade de conseguir audiência. É assim que eles vêem, não se enganem. Apresentadores podem ficar indignados, podem se emocionar, mas tudo isso faz parte do trabalho deles e do interesse da emissora/veículo: vender mais. E ponto.

Por que digo isso? Conseguir meu pedaço na polêmica? Antes fosse, é que fiquei mais indignado como que vi do que com o caso em si. Sem dúvida a morte da garota foi trágica e não pode passar impune, porém, o circo que a imprensa montou e a quantidade de pessoas desocupadas que resolveram cobrar por “justiça†em delegacias, cemitérios e plantões das emissoras de TV chegou a ser assustador.

Claro que, em maior parte, tudo isso aconteceu por culpa única e exclusiva da imprensa. Qual o papel dos jornalistas e meios de comunicação num caso como esse? Difícil resposta, mas não consigo concordar com minha classe quando os jornalistas decidem brincar de investigadores ou detetives. O público é volúvel – em qualquer parte do mundo – e em sua ânsia por altos índices de audiência, especialmente a TV, define o que é certo e o que é errado, culpado e inocente.

Não quero opinar sobre o papel do pai e da madrasta nisso tudo. Não fui convocado para o júri popular – que acontecerá, de acordo com o sistema judiciário brasileiro, e terá um grupo de pessoas que assistiu ao mesmo exagero que todo o resto da população – e entendo que a função da minha profissão seja a de reportar as informações disponíveis. Por intermédio das fontes oficiais, de preferência.

Comecei a escrever esse artigo antes de ver, no último domingo, o Fantástico crivar sua opinião sobre o assunto, em dois blocos, e abriu espaço para uma entrevista “exclusiva†do casal indiciado. Curioso, não? Os sujeitos são as pessoas mais odiadas do momento no país e concedem “exclusividade†à Rede Globo. Meu amigo Igor comentou isso muito bem aqui, portanto, deixo isso com ele. Mas esse episódio só reforça o que estou pensando, porém, tecnicamente falando, a Globo acabou fazendo a única coisa “ética†no meio desse bombardeio de teorias e “novidades†sobre o caso durante todo o dia. No dia seguinte, porém, o Jornal Nacional arrepiou a entrevista ao esmiuçar o comportamento do casal durante o depoimento em rede nacional. Dar a mão e depois descer o facão no braço? Bela tática!

O distanciamento jornalístico simplesmente não existe. Excetuando-se um ou outro repórter de veículo impresso, os novos “âncoras de TV†transformaram-se em verdadeiros especialistas em direito, investigação forense e em psicologia. Seria cômico, não fosse pela absurda realidade que isso significa. A Rede Record tem um sujeito que surgiu das fileiras da Igreja Universal e é daqueles tipos que compra a briga indignada da população, mas não passa de um papagaio de pirata transformando tudo em notícia exagerada. Os programas de fofoca da tarde só falam em Isabella, mostrando N especialistas analisando descobertas, perfis psicológicos, mas, de efetivo, só fazem repetir ininterruptamente as imagens de arquivo do edifício onde morava a garota e das cenas da delegacia.

A população, por sua vez, responde da forma mais inadequada possível: pessoas fazendo plantão na frente da delegacia, gente cantando parabéns, visitando o túmulo da menina, e por aí vai. Entendo que mobilização popular seja um caminho para exigir justiça, mas o espetáculo grotesco que assisti não é justificável. Aquelas pessoas já tinham um veredicto claro em suas mentes, assim como a maioria da população.

Foi um festival do bizarro e do exagero. Para sorte da Rede Globo, o show anual da inutilidade brasileira havia acabado. Acho que nem mesmo os índices do Ibope para o Big Brother resistiriam à avalanche Isabella. Ninguém reclamou, porém, do latente aumento em nos números de todos os canais. Todo mundo soube aproveitar, até demais, da situação. Nem mesmo o Terremoto em São Paulo foi capaz de amenizar esse ímpeto. O tremor dividiu a cobertura por cerca de 3 dias e, logo depois, voltaram à carga com Isabella. Voltar à cobertura é obrigação, porém, as “investigações†paralelas voltaram juntos. A Band News chegou a cúmulo de mostrar as “fotos exclusivas das comparações feitas reconstituiçãoâ€. Uma delas era de um par de chinelos e a âncora dizia com voz séria: essas são as sandálias idênticas às que Alexandre Nardoni usou no dia da morte de Isabella. Realmente, informação que mudou a vida de muita gente!

Ficar reclamando da vida e dizer que “estamos indo para o buraco†é muito fácil, mas inevitável. Mais gritante que isso é meu medo em relação aos rumos que o jornalismo tem tomado. Não guinamos para o investigativo modelo norte-americano e nem descambamos abertamente para os tablóides ingleses, pois estamos num meio termo perigoso. Seguimos com a maré, porém, o ritmo das ondas muda repentinamente e, quando menos esperarmos, podemos ser sugados por elas e nunca mais encontrarmos o caminho de casa. Sempre me pergunto: pode haver justiça caso, por alguma virada repentina na situação, o casal acusado apresente um álibi ou algo do gênero? Eles já estão julgados e condenados. Pela imprensa e pelo povo. Não há mais volta. Culpados ou não, essas duas pessoas são piores que Hitler ou o Bandido da Luz Vermelha sob a ótica da população brasileira, famosa por sua memória curta e carente pelo assunto da vez para discutir na festinha de família, no buteco ou na mesa de jantar. Ótimo tópico, aliás, para quem tem filhos. Já vi crianças com medo de janelas. Será que algum desses grandes “jornalistas investigativos†pensa nesse efeito do que eles têm feito?

Só o futuro vai dizer. Uma coisa pode ser dita com certeza. Os Judas modernos não queimam em postes numa brincadeira de criança, eles são linchados publicamente, por qualquer um que escute uma história ou “descubra” algo novo. Na Escola de Base todo mundo descobriu algo novo também. E era tudo mentira.

Constado às 16:14 em Artigos, Cinema, Comportamento | 4 Comentários | 

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Por Fábio M. Barreto, correspondente em Los Angeles.

“Pais orgulhosos do sargento (…), em seu segundo período no Iraque 

… diz uma discreta faixa frente de uma casa nas abastadas redondezas do Griffith Park, em Los Angeles. Uma bandeira dos Estados Unidos, mais volumosa e vistosa, completa a cena patriótica, digna de filme, não fosse a inegável realidade que afeta o país: há uma guerra em andamento e jovens como o sargento em questão podem, enquanto escrevo esse artigo, estar sob fogo da resistência iraquiana, feridos ou até mesmo mortos. O estado de guerra, porém, só é sentido por conta desses pequenos detalhes, que passam despercebidos aos sempre apressados moradores da cidade, sempre ocupado demais na direção de seus carros para notar situações como essa.

Diferente de Nova Iorque, que ostenta um posto de recrutamento no meio de Times Square – recém-vitimado por um pequeno atentado a bomba –, Los Angeles é mais discreta. Novos recrutas podem se voluntariar em plena Hollywood Boulevard, mas num prédio menos chamativo, com alguns cartazes de incentivo, mas nada parecido com o espetáculo high tech promovido em Manhattan. E é ali, em frente às estrelas da Calçada da Fama, fica a única lembrança clara e direta de que esse país encontra-se em guerra. Entretanto, os noticiários e o cinema ajudam a população a se lembrar disso.

Os ativistas aqui surgem com roupas politicamente corretas e pedem assinaturas contra a Kleenex, que não usa produtos recicláveis; postulam em favor dos pobres animais; e fazem blitzes para “abrir os olhos†para os males que a exploração do petróleo causam; mas nada de movimento contra a guerra, pelo menos nada organizado ou com o mínimo de vulto social.

Com sua população majoritariamente formada por imigrantes de origem latina – em sua maioria vindos do México –, Los Angeles é celeiro certeiro para soldados hoje em dia. O motivo? Estabilidade financeira, educação e, claro, o green card. Vivo ou morto, diga-se de passagem. Desde os atentados de 11 de setembro, o presidente George W. Bush determinou que pedidos de cidadania feitos por soldados não-americanos fossem acelerados e não passassem por tanta burocracia. Duas razões: aumentar a quantidade de voluntários e assegurar a moral dos já alistados. Por outro lado, Bush também decretou uma espécie de realistamento compulsório para soldados que já cumpriram sua carga obrigatória no exterior, chamado de stop-loss, algo como, evitar perda de contingente.

Estima-se que cerca de 20.500 soldados na ativa atualmente não sejam cidadãos norte-americanos, possuindo apenas green card ou outros laços com o país. Conhecidos como “green card warriorsâ€, esses militares buscam estabilidade social para suas famílias por conta da aceleração do processo legal ou, em último caso, pela fatalidade. Em caso de morte em serviço militar, é praxe que a família do soldado falecido receba a cidadania como reparação pela perda e como forma de reconhecimento do país pelos serviços prestados.

Para não deixar dúvidas: o green card dá direito de residente e uma série de benefícios a seu portador; porém, apenas com a cidadania – processo mais complicado e demorado – é que o indivíduo passa a ter direito ao voto ou elegibilidade, por exemplo.

Por vias legais, desde 2001, cerca de 37 mil pedidos de nacionalidade foram processados e autorizados pelo departamento de Imigração em conjunto com o setor jurídico do gabinete das Forças Armadas. Cerca de 7 mil pedidos são feitos anualmente. Todo o processo leva dez meses para ser concluído. Os números, tanto de recrutas quanto de novos pedidos de cidadania, só aumentam e nem mesmo o crescimento dos ataques no Iraque impede essas cruzadas pessoais.

Vários desses aspectos são tratados no filme Stop-Loss, estrelado por Ryan Phillippe, uma produção da MTV Movies. A trama conta pelo que passam os soldados que lutam atualmente no Iraque e Afeganistão quando retornam para casa e, em muitos casos, são reenviados para a linha de frente mesmo depois do término de seu período obrigatório em serviço para evitar a “perda de contingente†a qual se refere o título. Cerca de 80 mil soldados já foram realistados sob a égide dessa ordem presidencial.

Indignado por essa situação e a perspectiva de retornar e morrer, o personagem principal tenta lutar contra o sistema, mas é barrado pelo desinteresse de políticos e juízes em tratar do assunto que, inegavelmente, contraria uma ordem direta do Comandante Supremo das Forças Armadas, o presidente. Sua única alternativa é deixar a identidade e a vida para trás e fugir para outro país. Por outro lado, o personagem latino da história, Rodriguez, rapaz de origem mexicana, cuja família mora ilegalmente no Texas, fica mutilado e cego ao ser atingido por uma explosão, mas, mesmo assim, diz que pretende voltar ao combate “pois se morrer, a família toda ganha green cardsâ€.

Entretanto, a perspectiva de conquistar a cidadania por vias militares não é exclusividade de mexicanos. Os noticiários estão cheios de matérias e referências a alemães, asiáticos e até mesmo brasileiros servindo no Iraque e entrando com pedidos legais de cidadania. Essa realidade, curiosamente, deixa de ser apenas parte do drama das famílias envolvidas para ganharem as manchetes e também o cinema, dentro da volumosa quantidade de filmes que tratam sobre o assunto.

Diferente de suas outras guerras, os Estados Unidos tem a oportunidade única de avaliar suas ações e repercussões durante o conflito por meio do cinema e da TV, com produções como a série Over There, No Vale das Sombras, O Suspeito e Stop-Loss. A maioria dessas obras traz um conceito em comum: a desumanização sofrida pelos soldados na guerra moderna. Muitos deles filhos de veteranos do Vietnã, os novos GIs – transformados em verdadeiras máquinas de matar – enfrenta cada vez mais problemas quando voltam para casa. A readaptação é difícil, o próprio Exército prepara as famílias para situações que podem acontecer, mas cada indivíduo responde de um jeito. Todos têm algo em comum: a dificuldade de aliviar a mente do constante estado de alerta vivido durante o serviço.

Sem suporte e constantemente acometidos por disfunções de personalidade e acessos de violência, os novos veteranos encontram pouco auxílio por parte do Exército, desconfiança de amigos e parentes e, em muitos casos, o suicídio acaba sendo a solução. Há inúmeros relatos de ex-soldados que tiram a própria vida por não conseguirem se livrar dos pesadelos, do medo e da inabilidade de voltarem ao convívio social depois de vivenciarem a realidade da guerra. O grande número de casos de problemas psicológicos sobrecarrega os hospitais militares e outros locais capazes de tratar tais problemas, o que sujeita os pacientes a uma longa lista de espera. Muitos não esperam pela vaga e perdem totalmente o controle. Casos de suicídio são mais que comuns nas estatísticas que envolvem os veteranos.

Entretanto, mesmo com toda essa análise proposta pela indústria – que não polpa críticas à condução da guerra e seus efeitos – pouco acontece efetivamente. Durante uma exibição de Stop-Loss, quando o personagem de Ryan Phillippe perde o controle e grita um sonoro “f…-se o Presidenteâ€, um início de manifestação de apoio foi sentido, com palmas, assovios e gritos, mas logo o silêncio retornou à sala. É hora de refletir, defendem muitos locais, não de gritar. O argumento faz sentido quando confrontado com a hora de agir: as eleições presidenciais. Os republicanos de John McCain defendem a continuidade e a validade da guerra, enquanto a massa que transforma Barack Obama no candidato natural dos democratas tem uma idéia bem fixa em mente: ele foi contra a guerra desde o início, o único, aliás.

Pelo menos para o povo norte-americano, é hora de escolher um lado. Ou não. As pessoas sabem, mas, mesmo assim, preferem permanecer fechadas em seus carros para não ver os pequenos dramas pessoas que compõem um país constantemente em conflito e fazer de conta que o problema não é delas. E aqui é assim que a coisa funciona. Cartazes de políticos? Nas janelas das casas, colocados internamente, deixa claro que o interesse político é bem delimitado. Propagandas coladas nas ruas amanhecem rasgadas e qualquer outro tipo de manifestação pública é vista com descaso. O número assustadoramente baixo de votantes registrados comprova isso. Mais assustador, porém, é o número oficial de mortos até agora: 4.005 soldados norte-americanos (dados anteriores à nova onda de ataques à chamada Zona de Segurança, em Bagdá, no final de março). Outros 30 mil foram feridos em combate.

E, ao que tudo indica, esse cenário – e suas diversas faces – só muda com uma eventual nomeação e vitória de Barak Obama nas eleições presidenciais. Mesmo assim, muita gente vai fazer vista grossa e só se preocupar com a economia e o preço da gasolina. Nada mal para a “população votante†que decide o destino de vidas e, mesmo sem ligar, do mundo. Por enquanto.

(as opiniões desse artigo são baseadas na mera observação de acontecimentos e situações cotidianas, e na cobertura nacional da ocupação norte-americana no Iraque. Excetuando-se os dados numéricos, nenhuma pesquisa norteia esse texto)

Constado às 22:58 em Artigos, Cinema, Comportamento | 17 Comentários | 

Crusada

Ao tentar transformar grandes lendas em filmes repletos de ação e batalhas, os estúdios de Hollywood deixam de lado antigos mitos para mostrar heróis desprovidos da magia e da espiritualidade de suas épocas.

Em todo o mundo, crianças ouvem suas primeiras histórias sobre grandes heróis, façanhas inacreditáveis e lugares maravilhosos por meio da grande mitologia e espiritualidade existente nas culturas européias e asiáticas nos últimos milênios, porém, nos últimos anos, temos vivenciado um movimento no qual os grandes estúdios decidiram abandonar o lado mítico destas histórias para, por exemplo, transformar o mais poderoso dos semi-deuses em um simples guerreiro.

É o que vemos, por exemplo, em Tróia - que poderia se chamar apenas BRAD, afinal de contas, né?. Sob o comando de Wolfgang Petersen (Air Force One) e roteiro de David Benioff (A Última Noite), uma quantidade enorme de recursos, elenco estelar e um grande esforço de pesquisa foram colocados à disposição para recriar a, até hoje incerta, Guerra de Tróia. Exércitos grandiosos, uma história de amor como motivação, interesses políticos como agentes do conflito, um herói imbatível, etc, etc. Tudo muito bonito e certinho para o público, porém, o que a equipe de Petersen deliberadamente tirou do caminho foi toda a mitologia grega, que regia, por muitas vezes, as vontades de reis, motivava soldados e protegia heróis como Aquiles. Basta lembrar da força do Conselho dos Éforos no recente 300. Se os deuses mandavam, era bom obedecer. Ainda bem que Frank Miller inseriu esses elementos e Zack Snyder manteve tudo no filme.

Numa breve passagem de Tróia, Aquiles fala com sua mãe, que profetiza sua morte caso ele vá à guerra. Entretanto, nada se fala sobre ela ser a ninfa marinha Tétis e sobre o fato de que ela, na tentativa de o tornar invencível, mergulhou-o no rio da Estige segurando-o pelo calcanhar. Como esta única parte não foi banhada pelas águas protetoras criou-se ali seu ponto fraco. O calcanhar de Aquiles. Outro guerreiro com um ponto fraco similar é o nórdico Ziegfrid, que tinha uma pequena falha em formato de folha em sua proteção mítica ao ser banhado pelos deuses. Mesmo sem manjar de mitologia, é só assistir Cavaleiros do Zodíaco e lembrar como um dos cavaleiros de Hilda dança por ter o mesmo ponto fraco de seu predecessor.

Vários fatores míticos são atribuídos a Aquiles: sua armadura foi feita por Hefesto, o ferreiro dos deuses, filho de Zeus e Hera; seu destino havia sido decidido anos antes de seu nascimento pelo próprio Zeus e por Poseidon; e foi descrito como um deus por Homero, na Ilíada. Em várias versões da história, também vemos a intervenção direta de alguns deuses nos combates da Guerra de Tróia. Mas, no filme, tudo é muito humano e apenas o templo da praia - destruído e profanado por Aquiles - lembra de que existiam forças “maiores” naqueles tempos. Saudades do tempo em que filmes como Fúria de Titãs ainda podiam mostrar a interação entre a Humanidade e suas crenças mais antigas. Com direito a Lawrence Olivier interpretando Zeus e efeitos visuais e produção executiva de Ray Harryhausen.

Zeus

Se os deuses do Olímpo puderam ser ignorados em prol da ação e de batalhas grandiosas, o que dizer então da versão crua e puramente militar do lendário Arthur Pendragon?. O filme Rei Arthur, dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), que muitos esperavam ser uma adaptação da trilogia Rei do Inverno, de Bernard Cornwell, acabou mostrando um Arthur romano, basicamente um líder militar atuando contra os “bárbaros†bretões e apoiado por leais e letais cavaleiros vindos de uma terra distante. Mesmo com a presença do competente autor e estudioso John Matthews - autor de diversos livros sobre religiosidade antiga, em especial, na Grã-Bretanha - como consultor histórico, o diretor e o estúdio preferiram inserir elementos mais “ligados†a sua concepção para o personagem do que se apoiar na história mítica.

Em uma conversa logo após o filme, Matthews disse que a ordem da produção era clara: “nada de magia, é um filme de açãoâ€. Ou seja, logo de cara, o filme perdeu a chance de ser o mais próximo possível do até hoje pesquisado sobre o personagem justamente por ter alguém como Matthews envolvido, porém, relegado ao segundo plano. Com isso, Excalibur transformou-se na espada do pai de Arthur, Merlin tornou-se líder dos “bárbaros†woads (nome dado aos bretões), a existência de Avalon e da Dama do Lago sequer é cogitada, e Arthur apresenta-se apenas como um bom líder militar interpretado por Clive Owen. Um homem comum, muito longe do mito que o mantém na mente das pessoas e é referenciado até hoje. Pobres das crianças que assistem aos desenhos e ouvem à versão da história de um jovem destinado a ser rei retirando a espada mágica da pedra ou a recebendo do espírito da água.

Por mais que a premissa do filme seja “apresentar uma versão desmistificada sobre o personagemâ€, séculos de histórias e crenças envolvendo o Rei Arthur e seus cavaleiros não poderiam ser simplesmente ignorados assim. Não que alguma versão seja mais acurada que a outra, mas o ponto latente nesta discussão é o fato de Hollywood estar rotulando de forma pesada e clara a magia, a espiritualidade não-cristã, e as crenças antigas como elementos para filmes puramente ficcionais como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, etc.

A sociedade moderna pode não ter mais espaço para a crença no antigo poder dos druidas, nos feitiços de grandes bruxos, na magia da natureza, porém, desvincular os grandes mitos e heróis da ligação com os deuses e a magia que muitas vezes os auxiliavam acaba por enfraquecer o poder do mito em si. E não vivemos uma era propícia ao surgimento de novos arquétipos sociais, culturais e militares. Cada vez mais, torna-se necessária a existência de modelos a serem seguidos e enfraquecer os elementos clássicos pode não ser o melhor caminho. Quando tiramos as referências clássicas da frente, em quem as futuras gerações vão se inspirar? Sujeitos como Stallone ou Capitão Nascimento? Em heróis meramente fictícios como Aragorn?

Engana-se, entretanto, quem entende este argumento como um estandarte a favor do antigo paganismo ou da existência da magia, uma vez que o próprio cristianismo sofre do mesmo mal. Em Cruzada, cujo título original é Kingdom of Heaven – o Reino dos Céus – a trama que aparentava ser focada no aspecto espiritual da jornada até Jerusalém não passou de um filme de ação, com batalhas eletrizantes, um herói cativante, porém, frustrado com a política envolvendo a crença em Cristo e a própria descrença dos religiosos envolvidos e da ausência real de ideais na manutenção da posse da cidade. Riddley Scott andou apostando em obras críticas como em Falcão Negro em Perigo (provavelmente a razão por ter perdido o Oscar por direção em Gladiador) e não poupou a Igreja Católica em Cruzada.

Especialmente no cerco de Saladino a Jerusalém, a fé dos religiosos é abalada pela iminente derrota e a perspectiva de massacre, sobrando para Balian (Orlando Bloom), que viajou à cidade em busca de redenção – a verdadeira razão de sua cruzada pessoal –, oferecer a esperança outrora ofertada ali mesmo por Jesus séculos atrás. O que deveria ser uma jornada baseada no sagrado e na fé acabou se transformando numa trama política e num jogo de poder. Afinal de contas, o domínio da Terra Santa nada mais era do que uma situação política para os verdadeiros governantes daquele tempo. De qualquer forma, o elemento religioso era, sim, fundamental para a maioria dos homens que lutaram aquela guerra.

É uma pena notar que esta tendência existe na indústria e que sob o argumento de mostrar “a visão real†sobre vários personagens fundamentais na construção do pensamento moderno e dos arquétipos que até hoje guiam os homens e seus sonhos, deixemos de lado a simples crença num mundo em que a fé, literalmente, pode mover montanhas e que uma simples espada antiga pode reunir os homens sob um objetivo comum. Ação pode render boas bilheterias, batalhas podem inspirar diretores a superarem Peter Jackson - até hoje ninguém conseguiu -, mas é de ideais e modelos admiráveis que nossos sonhos são criados e é sobre eles que novas gerações serão ensinadas e baseadas.

Hollywood quer nos vender um mundo sério demais e deixar tudo que pode dar tempero a nossa vida com cara de faz de conta. Hoje, pode ser, mas há muito tempo, no meio de povos muito distantes, a coisa era bem diferente e, quer diretores e roteiristas queriam ou não, eles são nossos ancestrais e seus pensamentos de decisões, de certa forma, definiram o mundo em que vivemos hoje. Que a magia resista à tendência financeira e que a Fênix consiga se reerguer das cinzas dos grandes estúdios e suas fórmulas de sucesso.

uv