Comportamento
Hoje foi o último dia da maratona que começou na semana passada com a viagem para o Brasil e esse pequeno período de “férias”. Mas embora tenha encerrado o ciclo, não quer dizer que foi fácil. Mas, sem dúvida, foi altamente divertido, afinal, foi minha segunda visita ao Consulado dos Estados Unidos em São Paulo em menos de 5 meses, o que mantém a memória bem viva sobre algumas características daquele lugar e de como nossos coleguinhas se comportam para conseguir o visto. Tem brasileiro que faz cada presepada. Tudo começou às 5 da madruga. Minha entrevista estava marcada para as 7h40, ou seja, precisava estar lá às 6h. Felizmente, Sampa foi boa comigo e não encontrei transito na Marginal Pinheiros e cheguei bem rápido. Claro, ter feito o caminho no dia anterior e decorar ajudou E MUITO (como eu sempre digo, quem é amigo do Master, é amigo do Master! Valeu, Nando!). Bom, cheguei no horário e passei logo pela pequena fila formada na parte de fora, mas é ali que a graça começa. Vem gente de todo canto de São Paulo, muita gente de Minas Gerais e, agora com dificuldades de agendamento no Rio, vários cariocas se infiltram nas fileiras. O primeiro aspecto que pode ser notado é a falta de informação sobre os procedimentos e como as coisas funcionam lá dentro, na temida entrevista com a equipe consular. O mais engraçado são as pessoas, ou melhor, os pavões que vão tirar o visto. Grupos reviram formulários e discutem as “melhores respostas” para garantir a aprovação. Todo mundo tem uma teoria, uma história que alguém contou ou que leram na internet. Aí os primeiros pavões aparecem. Quem são esses pavões? Normalmente famílias, cujas mulheres se perfazem facilmente com a idéia de viajar “pros States”. Enquanto o maridão fica meio que preocupado com a eventual negação do visto, a patroa comporta-se como se já estivesse DENTRO de um shopping na Florida. O filho(a) sempre é o must: só faltam as orelhas do Mickey! A camiseta com a bandeira americana, a jaqueta importada e o boné de algum time ou mesmo da Disney completam o figurino. Esse povo é deslumbradão. Acha que demonstrar “proximidade” com o país vai gerar alguma facilidade lá na frente, mas não é bem por aí. Hoje vi um gordinho que eu podia jurar ser a encarnação de Eric Cartman na terra, se ele abrisse a boca sairia alguma frase do desenho. Aposto! O moleque tinha tanto logotipo e coisas Disney que parecia uma árvore de natal na manha nublada em Sampa. Será que o pessoal acha que tem loja do Mickey lá dentro? Algum tutorial sobre NBA? Lavagem cerebral? Humm, pensando bem, lavagem cerebral não precisa para quem entra no clima. A mãe do coitado ficava explicando como ele deveria responder as perguntas de acordo com a “estratégia” da família e etc. Detalhe: quando famílias fazem a entrevista, apenas um dos pais responde as perguntas e pronto. A cada nova explicação da mãe, o gordinho suava e tentava disfarçar, mas as perninhas tremendo mostravam que o “terrorismo” materno estava funcionando. O moleque não olhava para o lado de medo das câmeras e dos microfones que escutavam tudo que a gente falava. Hilário de tão absurdo! Aliás, se você já foi, precebeu que muita gente não conversa enquanto está ali dentro? Ficam ali, compenetrados, pensando na entrevista. Com medo de terem o pedido rejeitado. E não conversam, afinal de contas, “se aquele cara tiver o pedido negado, não quero ser visto falando com ele”. Rola um medo coletivo no lugar, o que faz pouco sentido se pararmos para pensar na principal razão das pessoas ali: tirar férias. Tudo começa com estresse? Ali é o de menos se comparado ao risco da entrevista da Imigração, quando você pisa em território gringo. No Consulado você tem documentos, pode conversar e se explicar, na imigração a coisa é muito mais simples e rápida. Sim ou não. Se o cara não gostou da justificativa, mesmo com o visto aprovado, nada feito. E lá o agente não fala português. Enfim, o povo pira nessa história. Enfim, depois deles, vêm os engravatados fakes. É fácil descobrir se um sujeito trabalha mesmo como executivo ou se está fazendo onda para impressionar. Sabiam que tem gente que viaja de termo para tentar ser mais bem tratado? É um barato! Voltando, o sujeito aparece todo engomado, pasta 007 que só falta ter controle de voz, mas faz tudo errado, tenta botar banca pra cima do pessoal da triagem e já solta aquele inglês macarrônico na hora da entrevista. Detalhe: tem cônsul que faz a entrevista em português, afinal, eles decidem, ou seja, nego já começa errado. Outro grupo distinto são os “caras do congresso”. Das três vezes que fui tirar o visto, encontrei um grupo de pessoas que não faz muita idéia do que está fazendo ali, não tem nada preenchido e é acompanhado por uma funcionária do Consulado. Esses não estressam, eles simplesmente vão fazendo o que pedem e nem percebem quando a coisa toda acaba. Hoje fiquei curioso e perguntei a razão do tratamento especial: são grupos de pessoas com habilitação técnica, mas sem muita noção de línguas ou procedimentos burocrácitos, que grandes empresas envolvem em congressos internacionais para demonstrar equipamentos ou outras técnicas no exterior. Ou seja, o Brasil manda um monte de Hommers apertar botões nos States, enquanto o palestrante mostra as maravilhas do nosso know-how. Biito, né? Todo esse processo é chato mesmo. Eles não deixam nem I-Pod entrar na área do consulado, metem a faca nos custos burocráticos e ainda ficam com o passaporte – que só vai pelo Sedex, sem chance querer ir retirar. Agora, tentar ser o que não é e inventar história? É por isso que muita gente tem o pedido negado, tenta dar cambau no processo e cai em contradição. Que nem a mãe explicando a estratégia para o filho. Tem estratégia melhor do que entrar lá, contar a razão pura e simples da solicitação de visto e pronto? Se contando a verdade já existe o risco de fecharem a porta, imagine enrolando? E, para isso, ninguém precisa se perfazer de “americano”, engravatado ou ricaço. E um cara ainda veio me perguntar se eu era doido de ir pedir o visto de calça jeans e camiseta. Bom, eu trabalho assim em LA, para que seria diferente no meu País? Gente doidaaaaaaaaa!
Por Fábio M. Barreto, correspondente em Los Angeles.
… diz uma discreta faixa frente de uma casa nas abastadas redondezas do Griffith Park, em Los Angeles. Uma bandeira dos Estados Unidos, mais volumosa e vistosa, completa a cena patriótica, digna de filme, não fosse a inegável realidade que afeta o país: há uma guerra em andamento e jovens como o sargento em questão podem, enquanto escrevo esse artigo, estar sob fogo da resistência iraquiana, feridos ou até mesmo mortos. O estado de guerra, porém, só é sentido por conta desses pequenos detalhes, que passam despercebidos aos sempre apressados moradores da cidade, sempre ocupado demais na direção de seus carros para notar situações como essa. Diferente de Nova Iorque, que ostenta um posto de recrutamento no meio de Times Square – recém-vitimado por um pequeno atentado a bomba –, Los Angeles é mais discreta. Novos recrutas podem se voluntariar em plena Hollywood Boulevard, mas num prédio menos chamativo, com alguns cartazes de incentivo, mas nada parecido com o espetáculo high tech promovido em Manhattan. E é ali, em frente às estrelas da Calçada da Fama, fica a única lembrança clara e direta de que esse país encontra-se em guerra. Entretanto, os noticiários e o cinema ajudam a população a se lembrar disso. Os ativistas aqui surgem com roupas politicamente corretas e pedem assinaturas contra a Kleenex, que não usa produtos recicláveis; postulam em favor dos pobres animais; e fazem blitzes para “abrir os olhos” para os males que a exploração do petróleo causam; mas nada de movimento contra a guerra, pelo menos nada organizado ou com o mínimo de vulto social. Com sua população majoritariamente formada por imigrantes de origem latina – em sua maioria vindos do México –, Los Angeles é celeiro certeiro para soldados hoje em dia. O motivo? Estabilidade financeira, educação e, claro, o green card. Vivo ou morto, diga-se de passagem. Desde os atentados de 11 de setembro, o presidente George W. Bush determinou que pedidos de cidadania feitos por soldados não-americanos fossem acelerados e não passassem por tanta burocracia. Duas razões: aumentar a quantidade de voluntários e assegurar a moral dos já alistados. Por outro lado, Bush também decretou uma espécie de realistamento compulsório para soldados que já cumpriram sua carga obrigatória no exterior, chamado de stop-loss, algo como, evitar perda de contingente. Estima-se que cerca de 20.500 soldados na ativa atualmente não sejam cidadãos norte-americanos, possuindo apenas green card ou outros laços com o país. Conhecidos como “green card warriors”, esses militares buscam estabilidade social para suas famílias por conta da aceleração do processo legal ou, em último caso, pela fatalidade. Em caso de morte em serviço militar, é praxe que a família do soldado falecido receba a cidadania como reparação pela perda e como forma de reconhecimento do país pelos serviços prestados. Para não deixar dúvidas: o green card dá direito de residente e uma série de benefícios a seu portador; porém, apenas com a cidadania – processo mais complicado e demorado – é que o indivíduo passa a ter direito ao voto ou elegibilidade, por exemplo. Por vias legais, desde 2001, cerca de 37 mil pedidos de nacionalidade foram processados e autorizados pelo departamento de Imigração em conjunto com o setor jurídico do gabinete das Forças Armadas. Cerca de 7 mil pedidos são feitos anualmente. Todo o processo leva dez meses para ser concluído. Os números, tanto de recrutas quanto de novos pedidos de cidadania, só aumentam e nem mesmo o crescimento dos ataques no Iraque impede essas cruzadas pessoais. Vários desses aspectos são tratados no filme Stop-Loss, estrelado por Ryan Phillippe, uma produção da MTV Movies. A trama conta pelo que passam os soldados que lutam atualmente no Iraque e Afeganistão quando retornam para casa e, em muitos casos, são reenviados para a linha de frente mesmo depois do término de seu período obrigatório em serviço para evitar a “perda de contingente” a qual se refere o título. Cerca de 80 mil soldados já foram realistados sob a égide dessa ordem presidencial. Indignado por essa situação e a perspectiva de retornar e morrer, o personagem principal tenta lutar contra o sistema, mas é barrado pelo desinteresse de políticos e juízes em tratar do assunto que, inegavelmente, contraria uma ordem direta do Comandante Supremo das Forças Armadas, o presidente. Sua única alternativa é deixar a identidade e a vida para trás e fugir para outro país. Por outro lado, o personagem latino da história, Rodriguez, rapaz de origem mexicana, cuja família mora ilegalmente no Texas, fica mutilado e cego ao ser atingido por uma explosão, mas, mesmo assim, diz que pretende voltar ao combate “pois se morrer, a família toda ganha green cards”. Entretanto, a perspectiva de conquistar a cidadania por vias militares não é exclusividade de mexicanos. Os noticiários estão cheios de matérias e referências a alemães, asiáticos e até mesmo brasileiros servindo no Iraque e entrando com pedidos legais de cidadania. Essa realidade, curiosamente, deixa de ser apenas parte do drama das famílias envolvidas para ganharem as manchetes e também o cinema, dentro da volumosa quantidade de filmes que tratam sobre o assunto. Diferente de suas outras guerras, os Estados Unidos tem a oportunidade única de avaliar suas ações e repercussões durante o conflito por meio do cinema e da TV, com produções como a série Over There, No Vale das Sombras, O Suspeito e Stop-Loss. A maioria dessas obras traz um conceito em comum: a desumanização sofrida pelos soldados na guerra moderna. Muitos deles filhos de veteranos do Vietnã, os novos GIs – transformados em verdadeiras máquinas de matar – enfrenta cada vez mais problemas quando voltam para casa. A readaptação é difícil, o próprio Exército prepara as famílias para situações que podem acontecer, mas cada indivíduo responde de um jeito. Todos têm algo em comum: a dificuldade de aliviar a mente do constante estado de alerta vivido durante o serviço. Sem suporte e constantemente acometidos por disfunções de personalidade e acessos de violência, os novos veteranos encontram pouco auxílio por parte do Exército, desconfiança de amigos e parentes e, em muitos casos, o suicídio acaba sendo a solução. Há inúmeros relatos de ex-soldados que tiram a própria vida por não conseguirem se livrar dos pesadelos, do medo e da inabilidade de voltarem ao convívio social depois de vivenciarem a realidade da guerra. O grande número de casos de problemas psicológicos sobrecarrega os hospitais militares e outros locais capazes de tratar tais problemas, o que sujeita os pacientes a uma longa lista de espera. Muitos não esperam pela vaga e perdem totalmente o controle. Casos de suicídio são mais que comuns nas estatísticas que envolvem os veteranos. Entretanto, mesmo com toda essa análise proposta pela indústria – que não polpa críticas à condução da guerra e seus efeitos – pouco acontece efetivamente. Durante uma exibição de Stop-Loss, quando o personagem de Ryan Phillippe perde o controle e grita um sonoro “f…-se o Presidente”, um início de manifestação de apoio foi sentido, com palmas, assovios e gritos, mas logo o silêncio retornou à sala. É hora de refletir, defendem muitos locais, não de gritar. O argumento faz sentido quando confrontado com a hora de agir: as eleições presidenciais. Os republicanos de John McCain defendem a continuidade e a validade da guerra, enquanto a massa que transforma Barack Obama no candidato natural dos democratas tem uma idéia bem fixa em mente: ele foi contra a guerra desde o início, o único, aliás. Pelo menos para o povo norte-americano, é hora de escolher um lado. Ou não. As pessoas sabem, mas, mesmo assim, preferem permanecer fechadas em seus carros para não ver os pequenos dramas pessoas que compõem um país constantemente em conflito e fazer de conta que o problema não é delas. E aqui é assim que a coisa funciona. Cartazes de políticos? Nas janelas das casas, colocados internamente, deixa claro que o interesse político é bem delimitado. Propagandas coladas nas ruas amanhecem rasgadas e qualquer outro tipo de manifestação pública é vista com descaso. O número assustadoramente baixo de votantes registrados comprova isso. Mais assustador, porém, é o número oficial de mortos até agora: 4.005 soldados norte-americanos (dados anteriores à nova onda de ataques à chamada Zona de Segurança, em Bagdá, no final de março). Outros 30 mil foram feridos em combate. E, ao que tudo indica, esse cenário – e suas diversas faces – só muda com uma eventual nomeação e vitória de Barak Obama nas eleições presidenciais. Mesmo assim, muita gente vai fazer vista grossa e só se preocupar com a economia e o preço da gasolina. Nada mal para a “população votante” que decide o destino de vidas e, mesmo sem ligar, do mundo. Por enquanto. (as opiniões desse artigo são baseadas na mera observação de acontecimentos e situações cotidianas, e na cobertura nacional da ocupação norte-americana no Iraque. Excetuando-se os dados numéricos, nenhuma pesquisa norteia esse texto)
Em todo o mundo, crianças ouvem suas primeiras histórias sobre grandes heróis, façanhas inacreditáveis e lugares maravilhosos por meio da grande mitologia e espiritualidade existente nas culturas européias e asiáticas nos últimos milênios, porém, nos últimos anos, temos vivenciado um movimento no qual os grandes estúdios decidiram abandonar o lado mítico destas histórias para, por exemplo, transformar o mais poderoso dos semi-deuses em um simples guerreiro. É o que vemos, por exemplo, em Tróia - que poderia se chamar apenas BRAD, afinal de contas, né?. Sob o comando de Wolfgang Petersen (Air Force One) e roteiro de David Benioff (A Última Noite), uma quantidade enorme de recursos, elenco estelar e um grande esforço de pesquisa foram colocados à disposição para recriar a, até hoje incerta, Guerra de Tróia. Exércitos grandiosos, uma história de amor como motivação, interesses políticos como agentes do conflito, um herói imbatível, etc, etc. Tudo muito bonito e certinho para o público, porém, o que a equipe de Petersen deliberadamente tirou do caminho foi toda a mitologia grega, que regia, por muitas vezes, as vontades de reis, motivava soldados e protegia heróis como Aquiles. Basta lembrar da força do Conselho dos Éforos no recente 300. Se os deuses mandavam, era bom obedecer. Ainda bem que Frank Miller inseriu esses elementos e Zack Snyder manteve tudo no filme. Numa breve passagem de Tróia, Aquiles fala com sua mãe, que profetiza sua morte caso ele vá à guerra. Entretanto, nada se fala sobre ela ser a ninfa marinha Tétis e sobre o fato de que ela, na tentativa de o tornar invencível, mergulhou-o no rio da Estige segurando-o pelo calcanhar. Como esta única parte não foi banhada pelas águas protetoras criou-se ali seu ponto fraco. O calcanhar de Aquiles. Outro guerreiro com um ponto fraco similar é o nórdico Ziegfrid, que tinha uma pequena falha em formato de folha em sua proteção mítica ao ser banhado pelos deuses. Mesmo sem manjar de mitologia, é só assistir Cavaleiros do Zodíaco e lembrar como um dos cavaleiros de Hilda dança por ter o mesmo ponto fraco de seu predecessor. Vários fatores míticos são atribuídos a Aquiles: sua armadura foi feita por Hefesto, o ferreiro dos deuses, filho de Zeus e Hera; seu destino havia sido decidido anos antes de seu nascimento pelo próprio Zeus e por Poseidon; e foi descrito como um deus por Homero, na Ilíada. Em várias versões da história, também vemos a intervenção direta de alguns deuses nos combates da Guerra de Tróia. Mas, no filme, tudo é muito humano e apenas o templo da praia - destruído e profanado por Aquiles - lembra de que existiam forças “maiores” naqueles tempos. Saudades do tempo em que filmes como Fúria de Titãs ainda podiam mostrar a interação entre a Humanidade e suas crenças mais antigas. Com direito a Lawrence Olivier interpretando Zeus e efeitos visuais e produção executiva de Ray Harryhausen.
Se os deuses do Olímpo puderam ser ignorados em prol da ação e de batalhas grandiosas, o que dizer então da versão crua e puramente militar do lendário Arthur Pendragon?. O filme Rei Arthur, dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), que muitos esperavam ser uma adaptação da trilogia Rei do Inverno, de Bernard Cornwell, acabou mostrando um Arthur romano, basicamente um líder militar atuando contra os “bárbaros” bretões e apoiado por leais e letais cavaleiros vindos de uma terra distante. Mesmo com a presença do competente autor e estudioso John Matthews - autor de diversos livros sobre religiosidade antiga, em especial, na Grã-Bretanha - como consultor histórico, o diretor e o estúdio preferiram inserir elementos mais “ligados” a sua concepção para o personagem do que se apoiar na história mítica. Em uma conversa logo após o filme, Matthews disse que a ordem da produção era clara: “nada de magia, é um filme de ação”. Ou seja, logo de cara, o filme perdeu a chance de ser o mais próximo possível do até hoje pesquisado sobre o personagem justamente por ter alguém como Matthews envolvido, porém, relegado ao segundo plano. Com isso, Excalibur transformou-se na espada do pai de Arthur, Merlin tornou-se líder dos “bárbaros” woads (nome dado aos bretões), a existência de Avalon e da Dama do Lago sequer é cogitada, e Arthur apresenta-se apenas como um bom líder militar interpretado por Clive Owen. Um homem comum, muito longe do mito que o mantém na mente das pessoas e é referenciado até hoje. Pobres das crianças que assistem aos desenhos e ouvem à versão da história de um jovem destinado a ser rei retirando a espada mágica da pedra ou a recebendo do espírito da água. Por mais que a premissa do filme seja “apresentar uma versão desmistificada sobre o personagem”, séculos de histórias e crenças envolvendo o Rei Arthur e seus cavaleiros não poderiam ser simplesmente ignorados assim. Não que alguma versão seja mais acurada que a outra, mas o ponto latente nesta discussão é o fato de Hollywood estar rotulando de forma pesada e clara a magia, a espiritualidade não-cristã, e as crenças antigas como elementos para filmes puramente ficcionais como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, etc. A sociedade moderna pode não ter mais espaço para a crença no antigo poder dos druidas, nos feitiços de grandes bruxos, na magia da natureza, porém, desvincular os grandes mitos e heróis da ligação com os deuses e a magia que muitas vezes os auxiliavam acaba por enfraquecer o poder do mito em si. E não vivemos uma era propícia ao surgimento de novos arquétipos sociais, culturais e militares. Cada vez mais, torna-se necessária a existência de modelos a serem seguidos e enfraquecer os elementos clássicos pode não ser o melhor caminho. Quando tiramos as referências clássicas da frente, em quem as futuras gerações vão se inspirar? Sujeitos como Stallone ou Capitão Nascimento? Em heróis meramente fictícios como Aragorn? Engana-se, entretanto, quem entende este argumento como um estandarte a favor do antigo paganismo ou da existência da magia, uma vez que o próprio cristianismo sofre do mesmo mal. Em Cruzada, cujo título original é Kingdom of Heaven – o Reino dos Céus – a trama que aparentava ser focada no aspecto espiritual da jornada até Jerusalém não passou de um filme de ação, com batalhas eletrizantes, um herói cativante, porém, frustrado com a política envolvendo a crença em Cristo e a própria descrença dos religiosos envolvidos e da ausência real de ideais na manutenção da posse da cidade. Riddley Scott andou apostando em obras críticas como em Falcão Negro em Perigo (provavelmente a razão por ter perdido o Oscar por direção em Gladiador) e não poupou a Igreja Católica em Cruzada. Especialmente no cerco de Saladino a Jerusalém, a fé dos religiosos é abalada pela iminente derrota e a perspectiva de massacre, sobrando para Balian (Orlando Bloom), que viajou à cidade em busca de redenção – a verdadeira razão de sua cruzada pessoal –, oferecer a esperança outrora ofertada ali mesmo por Jesus séculos atrás. O que deveria ser uma jornada baseada no sagrado e na fé acabou se transformando numa trama política e num jogo de poder. Afinal de contas, o domínio da Terra Santa nada mais era do que uma situação política para os verdadeiros governantes daquele tempo. De qualquer forma, o elemento religioso era, sim, fundamental para a maioria dos homens que lutaram aquela guerra. É uma pena notar que esta tendência existe na indústria e que sob o argumento de mostrar “a visão real” sobre vários personagens fundamentais na construção do pensamento moderno e dos arquétipos que até hoje guiam os homens e seus sonhos, deixemos de lado a simples crença num mundo em que a fé, literalmente, pode mover montanhas e que uma simples espada antiga pode reunir os homens sob um objetivo comum. Ação pode render boas bilheterias, batalhas podem inspirar diretores a superarem Peter Jackson - até hoje ninguém conseguiu -, mas é de ideais e modelos admiráveis que nossos sonhos são criados e é sobre eles que novas gerações serão ensinadas e baseadas. Hollywood quer nos vender um mundo sério demais e deixar tudo que pode dar tempero a nossa vida com cara de faz de conta. Hoje, pode ser, mas há muito tempo, no meio de povos muito distantes, a coisa era bem diferente e, quer diretores e roteiristas queriam ou não, eles são nossos ancestrais e seus pensamentos de decisões, de certa forma, definiram o mundo em que vivemos hoje. Que a magia resista à tendência financeira e que a Fênix consiga se reerguer das cinzas dos grandes estúdios e suas fórmulas de sucesso.
Ao longo de 12 anos de profissão, parte deles dedicados a organização de eventos para imprensa e condução de entrevistas, posso dizer com tranqüilidade que o jornalista brasileiro é um dos melhores quando o assunto é perguntar, mas quando é ruim, sai de baixo. Entretanto, nem o piorzinho dos nossos se compara à média de jornalistas norte-americanos e, especialmente, os demais estrangeiros baseados aqui em Los Angeles. É triste, mas, pelo jeito, os fofoqueiros profissionais do mundo estão em baixa e, com isso, o trabalho sério é cada vez menos valorizado, enquanto matérias fúteis e perguntas imbecis reinam soberamas no mundinho da imprensa. Uma historinha antes: Quando Samuel L. Jackson foi ao Brasil para lançar o filme Conduta de Risco, durante o Festival de Cinema do Rio de Janeiro, eu trabalhava para a Fox Film e controlei a coletiva de imprensa que o ator concedeu em plena praia de Copacabana. Certo momento, o microfone foi parar nas mãos de uma garota que se levantou, sacou um pedaço de papel amassado do bolso e leu algo – teoricamente em inglês – que ninguém entendeu absolutamente nada. Ignorando o mico que a cidadã pagou, passei os dias seguintes pensando o que a organização do Festival tinha cabeça para credenciar uma pessoa, sem idade para ser formada – claramente – para eventos importantes como aquele. Fácil: sou jornalista, escrevo para o blog tal ou para o jornal da PUC-RJ, qualquer coisa que o valha. Depois eu descobri que um cara levou a menina, pois ela “sabia falar inglês” e seria ótima para fazer a pergunta. Parabéns, sua anta! Tinha tradutor simultâneo, não precisava levar uma interprete inexperiente e nervosa. A menina ficou bamba, claro, na frente de um ator, de pé, com meio mundo olhando. Tadinha, pagou mico e levou a toda a classe junto! A razão dessa historinha é simplesmente exemplificar que podemos ser imbecis e expor a profissão ao ridículo das mais diversas formas possíveis. Claro, as engraçadas ninguém tenta, sempre tem que ser humilhante e vexatório. Enfim, o que nos trás a Los Angeles, em meio à jornada barretônica em direção aos maiores e melhores astros da atualidade. Ainda não participei de muitas coletivas de imprensa, propriamente ditas – ainda bem, depois você vai entender! –, mas as mesas redondas são constantes, mesmo eu sempre tendo entrevistas individuais com os atores depois. Nas poucas coletivas, não existe o microfone como no Brasil, cada um disputa no grito a chance de fazer as perguntas. É engraçado ouvir as gravações depois e ver a quantidade de vozes tentando atrair a atenção do ator em questão. Entretanto, na última entrevista, cerca de 40 jornalistas participaram e, no máximo, 8 fizeram perguntas. Eu, claro, fui um deles. Na verdade, depois de ler tudo isso, você vai entender a razão de eu querer perguntar tanto e não deixar espaço para os outros “profissionais”. Chega a ser irritante ver um sujeito que voou 18 horas da Europa para Los Angeles para perguntar algo como “gostou do carro que dirigiu no filme”. E ponto. Viagem da Europa, hotel de primeira classe, três noites, tudo pago, e pergunta isso? Meio infrutífero. E as assessorias parecem não se importar, especialmente as grandes. Primeiramente, é preciso deixar claro que todo mundo recebe um pressbook – calhamaço que salva a vida de quem não vê o filme, cheio de sinopses, entrevistas, comentários até do cabo bem da segunda unidade que filmou cenas externas do céu -, ou seja, mesmo para os mais tapados, informação não falta. É só pegar alguma coisa dali, mudar a ordem e perguntar. A regra da democracia é o que vale. Cada um chega com sua pauta, tem algo a conseguir para cumprir a tarefa do editor e exige-se respeito entre os colegas. Tudo perfeito. Começam as perguntas e alguém sempre abre a série achando que está sendo super amigável e simpático. E é, invariavelmente, um desses assuntos: - Empolgado por ser pai/mãe novamente? Falta aparecer um luminoso na testa do sujeito: De novo isso? As perguntas começam a rolar e, lá no meio, alguém resolve soltar outra pérola: PELOAMORDEYODA, quem em sã consciência quer saber disso? Nem as leitoras das revistas de esportes radicais femininos se interessam por isso. Mudaria a sua vida, amigo leitor, se soubesse que, sei lá, Angelina Jolie foi visitar uma exposição obscura de arte africana na Antuérpia? Ou que Hugh Laurie escuta Beatles no Ipod? Isso gera, quando muito, uma informação circunstancial na matéria. E olhe lá. Chega a ser embaraçoso notar que, por mais específicas que sejam as pautas, as pessoas não ligam muito para o filme em questão e para o que o ator – que vai dedicar os próximos 20 minutos da vida dele a responder às aqueles jornalistas – possa realmente contribuir. Levou pouco tempo para notar que são poucos os correspondentes que efetivamente trabalham com cinema e suas características. A maioria do pessoal é de revista feminina, revista de fofoca internacional e, mesmo as “vacas sagradas” dos grandes jornais europeus se mostram verdadeiras antas se comparados ao tipo de pergunta que os brasileiros fazem. Por isso, tudo parece importante, menos o filme, que acaba servindo como desculpa para explorar a vida pessoal das celebridades e, no processo, arrancar alguma declaração bombástica sobre uma casa nova ou afiliação política. De maneira alguma estou puxando a sardinha para o meu lado, embora fazer boas perguntas seja obrigatório no meu trabalho e exigido por meus editores. Mas, falando em termos de junkets no Brasil, os atores e diretores sempre são bem explorados, falam sobre diversos assuntos. Tudo reflexo de gente que se prepara e, talvez pela escassez de oportunidades, faça de tudo para aproveitar a chance ao máximo. Ou, simplesmente, pois somos jornalistas melhores mesmo. A Larissa, com quem trabalhei por anos no Cartoon Network, sempre dizia que os brasileiros davam um baile no resto do povo da América Latina. E vi que isso era verdade quando moderava entrevistas para o Cartoon e para a TNT. Agora, notei que, quando tem brasileiro na mesa, a gente só perde para as folgadas que querem ficar perguntando de vida pessoal, repercussão de coisas que outros famosos falaram sobre aquele famoso ou quando tem alguém “grávido”. Claro, tudo pode piorar quando a pessoa que é enviada para cobrir o evento arranha no inglês. Para ilustrar o fato quase folclórico, cito uma colega que veio da Espanha por uma revista teen. No carro que nos levou ao cinema – eu continuo pegando até os hotéis e aproveitando a carona da van até o cinema, quando é muito longe – já deu para perceber que a moça faltava assumir que tinha medo de falar inglês. Bom, sem galho, o filme era musical, então não tinha muito o que entender mesmo, era só sacar o refrão da música e tudo bem. Detalhe, ela ficou 4 horas presa na imigração, pois disse que tinha viajado a trabalho, mas tinha visto de turismo, entretanto, ela estava aqui como jornalista. Bela comunicação, não? Chegou a hora da entrevista, qual a minha surpresa quando notei que a moça ficou o tempo todo calada e, quando resolveu abrir a boca, perguntou (atenção para a pronúncia impecável): is iti impórtanti to bi iórsélufi? O entrevistado em questão ficou com cara de “Ah?”, notou o pânico na cara da criatura e respondeu qualquer coisa. Pois é, quando se faz uma pergunta só para marcar presença é isso que se consegue. Resposta boba e pronta. Depois, quem leva a fama de que só repete as mesmas coisas são os atores, isso quando não são tratados como “babacas”. O Harrison Ford tem essa fama, mas foi fantástico na uma hora que o entrevistei. “Babacas” são esses caras que querem polemizar e perguntar bobagem, aí levam uma resposta atravessada e descem a porrada na pessoal, no filme, no contra-regra, e até a última geração de periquitos amestrados da Islândia do office-boy que levou o roteiro da copiadora até o estúdio! Para fechar, o exemplo máximo:
Será tão difícil assim aceitar um “não” como resposta? Pelo jeito é. Como já diz o ditado, perguntas idiotas, respostas cretinas. Enquanto isso, eu já sei dos gostos pessoais de um bando de gente famosa. Nossa, minha vida mudou! Enquanto vocês vão para a praia e se divertem no Brasil, eu vou entrevistar Keanu Reeves e Forest Whitaker amanhã. Tooooma! Mas, para não perder a piada e deixar minha mãe mais desesperada que o normal, já que amanhã EU VOU comer carne, dois coelhinhos serão o meu símbolo dessa Páscoa. Não tem porque não assumir, peguei a piada pronta no Monkey News de hoje. O Simão é bão pacas, mas o Morph dá de 10 a zero nele! Bom, chega de enrolar, aí vai a piada. Que sirva de lição para todas as criancinhas que devoram coelhos de chocolate na feliz data!
Crédito: Monkey News - UOL Para ninguém, nunca mais, dizer que jornalista só se dá bem na vida. Cliquem aqui e entendam como existe um lado negro que ninguém conta, pois assumir que o resultado de uma entrevista foi esse, poucos veículos do mundo publicariam. Politicagem, sabe. Mas eu sou sincero demais até, enfim. A matéria foi publicada na Sci-Fi News, edição de março já nas bancas, mas como a parceria com o Judão ajuda a trazer esse material para a internet, divirtam-se também online! Eu não vou falar nada. Cliquem aqui, visitem e decidam por conta própria.
Como você não gosta de tal coisa do Brasil? Sempre me perguntam quando descobrem que sou brasileiro e desembestam a falar sobre filmes e carnaval. É bizarro ver a reação das pessoas em relação ao Brasil. Antes de mais nada, vamos definir alguns pontos primeiro: Qual minha surpresa quando todo mundo que vem falar comigo aqui lança logo de cara: Ciudadi di Deux! Do alto de minha sinceridade e condição de contra-argumentar mando sem dó: Não vi e não gostei. As pessoas ficam indignadas com a resposta, afinal de contas, como eu não vi o filme brasileiro mais bem-sucedido recentemente no exterior. Além do quesito gosto, afinal de contas, posso pensar diferente das demais pessoas, jornalistas e metidos a intelectuais e não gostar, existe a questão da imagem. Central do Brasil foi legal, né? Foi pro Oscar, indicou a Fernanda e, eu vi, até achei simpático, por conta dela, diga-se de passagem. Mas tratava do que? Pobreza, desgraça, gente sofrendo. Aí vem Cidade de Deus. Trata do que? Mesma coisa elevada à enésima potência. Tirando o fato de ser violento ao extremo – sim já ouvi a história de trás pra frente de gente que tenta me convencer e me crucificar por eu não ter visto. Sabe como isso é visto, até mesmo por nós brasileiros? “Retrato da nossa realidade”. Olha, essa realidade pode até existir, mas eu não concordo que essa seja a ÚNICA realidade existente no Brasil. E eu nunca entendi como os cidadãos do Rio de Janeiro ajudaram na mega promoção de algo que diz para o mundo: olhem a nossa realidade! E é exatamente isso que o povo de fora pensa! Eles realmente acreditam nos filmes, sabe. E as notícias que chegam aqui só corroboram com isso. Os Estados Unidos vivenciaram toda a desgraça colombiana no período Pablo Escobar – que, aliás, tem caído no esquecimento no Brasil – e agora estão todos ouriçados com essa “possível guerra” entre Equador, Colômbia e Venezuela. E toda vez que a CNN relata alguma operação militar nas favelas cariocas, a pessoa é transportada diretamente para a situação do filme, incluindo para a mesma assinatura fotográfica utilizada na produção. Porque, para eles, essa é a melhor descrição do que é a realidade do Brasil. Claro que temos um grande número de miseráveis e pessoas em situações drásticas como a contada por Fernando Meirelles, que eu já sabia ser um bom diretor mesmo antes desse filme, mas, calma lá, só existe essa? E todo mundo aplaude de pé, elogia, teoriza. Bom, cada momento de orgulho exarcebado direcionado a Cidade de Deus é um passo em direção à transformar toda essa situação social inaceitável em algo semi-idolatrado. Leonardo Paeja que o diga, ainda bem que – ainda – não virou filme. Agora vemos o novo fenômeno: Tropa de Elite. (Não, não vou colocar a foto do Capitão Nascimento segurando a metralhadora. Aliás, alguém deveria contar quantas vezes aquela foto foi publicada até hoje. Deve ser um recorde histórico perdendo só para o Stars Kid!) E lá vem mais violência. Esse eu até quero ver, por gostar de filmes de ação, mas caiu novamente como uma bomba na cabeça dessas pessoas limitadas desse país. Mesmo as mais intelectualizadas sofrem com essa “definição de Brasil”, afinal de contas, anos atrás, elas viram Cidade de Deus e sua dura realidade, agora elas vêem “o outro lado” com a Polícia tentando reagir. Acham até que o filme foi bancado pela ideologia governamental para “encobrir a verdade” que o Meirelles mostrou. Acho que o Padilha daria risada ouvindo isso. De qualquer forma, mais violência. E essa opinião é compartilhada pelos correspondentes de outros países baseados em LA também. Eu pareço mais ET do que o normal quando eles vêm perguntar sobre os filmes e eu digo que não vi, pois não gosto. Uma espanhola outro dia veio me dizer que eu era um direitista enrustido e que tinha medo da verdade. Eu nem gosto de política. Aí eu cacetei: filha, imaginou se a Espanha só fizesse filme sobre o ETA e gente pobre? Você gostaria de ver seu país como uma favela gigante, sendo que o cinema não muda muito essa tal realidade? É claro que ela se sentiu ofendida, pois a Espanha “nunca seria uma favela gigante”. “Pois é, e o Brasil também não é e pronto.” Eu vivo nessa utopiazinha na minha cabeça, de que a gente poderia fazer algo para resolver o problema, em vez de ficar abusando para fazer mais dinheiro e aumentar mais ainda a diferença, mas pelo menos tento lembrar das coisas boas. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias fez sucesso, eu vi e gostei, assim como muita gente aqui também, mas ninguém fala muito, pois já começam a falar de Elite Squad, sobre ser “eye-openner” e blábláblá. Infelizmente, com raras exceções como Deus é Brasileiro (que mostra a miséria, mas com outro olhar e entrega uma mensagem positiva), O Casamento de Romeu e Julieta e Redentor, o Brasil não investe muito em filme de comédia, ação, guerra, ficção, etc. E acho que a fórmula Sexo, Amor e Traição já deu o que tinha que dar, não? Acho que a última vez que arriscaram uma ficção legal foi com Buffo & Spalanzani, que uma meia dúzia de pessoas viu, sem contar a família do Dr. Albieri. Temos sempre que bater na mesma tecla para tentar o Oscar? Aliás, se tivesse sido indicado esse ano, perdia. Tinha filme sobre o holocausto na parada. Pensando bem – se o objetivo é Oscar e não promover a cultura –, façam logo um filme sobre o Mengelle, clã Barreto. Aí vocês podem tratar do holocausto, colocar os judeus em voga (a Academia adora), fazer um belo dramalhão e brigar firme pelo Oscar. Só não dêem a direção pro Jaime Monjardim que ele já estragou Olga. Enfim, eu tenho orgulho em ser brasileiro, só vim para cá por oportunidade profissional, ficaria no meu país sem dúvida, caso fosse possível financeiramente, mas, nesse aspecto, tenho a liberdade de dizer: não gosto disso e não gosto da imagem que esses filmes e o carnaval nos dão. Dane-se o que os americanos pensam. Eles vão nos visitar com os bolsos cheios, ficam 3 dias no Rio, acham que tudo é lindo e voltam para cá. Mas, alguns, justamente por causa dessa realidade começam a achar perigoso visitar a nossa terra. E isso é um baita motivo de orgulho, né? Um Oscar vale tudo isso? Tem os dois lados. Sempre tem os dois lados. Claro que tem gente que vai achar um absurdo, dizer que eu não entendo nada de cinema brasileiro, blablabla. Talvez eu não saiba mesmo, nunca foi o meu forte, mas, é assim que eu penso e não comprando briga com ninguém por gostar, só estou mostrando que há conseqüências para essa insistência. Com certeza tem filme bom por aí, mas no circuito comercial mesmo, essa é uma das realidades. Quem me dera meus amigos do Abquar conseguissem chegar ao ponto de financiarem o material. É conscientizador, ficção científica, 100% brasileiro… mas não ganha Oscar, então. Aliás, quanto vale um Oscar para a nossa identidade mesmo? Muita coisa aconteceu nessa última semana. A maioria delas, curiosamente, me levava a pensar na minha aula preferida na pós-graduação: Análise de Discurso. Basicamente, a matéria analisa a postura cultural e o efeito causado por modos de comunicação e movimentos de indivíduos ou grupos, ou seja, dá para saber como um povo, autor ou grupo de pessoas pensa de acordo com o que escreve, diz e expressa. Pois bem, minha professora, grande Cibele Dugaich, é defensora ferrenha de Kennedy e seu famoso discurso de aceitação como Presidente dos Estados Unidos. Como base da carreira dela, esse discurso vivia pintando em diversos momentos da aula e, claro, nos trabalhos, como linha guia para o que fazíamos. Certo dia, veio a frase mais marcante proveniente disso tudo: “americano tem orgulho do Presidente e das conquistas, do famoso self made men (o cara que se construiu sozinho e fez sucesso). O brasileiro ri do presidente, não se orgulha de nada e tripudia o sucesso alheio.” Esse conceito sempre me encucou bastante. Poxa, é verdade que não nos orgulhamos de nada? Discordava, mas a vida me provou que é a mais pura verdade. Pensemos juntos. Qual a resposta padrão quando alguém pergunta sobre um carro novo, casa, roupa ou qualquer nova aquisição de um indivíduo? “Estou pagando… nada, esse vestido estava encostado… a prestação da casa é tão grande”. Sempre alguma coisa desmerecendo a própria conquista. Por que? Fácil. É só responder o contrário e todo mundo sabe o que acontece. “Carrão, né? O terno é Zegna, veio da Itália”. Resultado: lá vai o arrogante metido. Infelizmente, desde cedo a gente aprende a menosprezar o que consegue e assim nossa sociedade foi construída. Temos alguns self made men, um deles está na presidência aliás, mas é piada nacional. Mesmo não concordando com Lula, o cargo em si merece mais respeito e as pessoas faltam com esse respeito. Outros casos, Silvio Santos – o camelô que construiu um Império – e o recém-falecido Beto Carrero – o caubói brasileiro. Notaram que são todas figuras quase “folclóricas”? A seriedade não anda de braços dados com o sucesso nesse país. Até mesmo meu período como correspondente aqui gera “piadinhas” do tipo: até parece que está trabalhando, tá vivendo no bem bom. Antes fosse, meu povo. Estou bem instalado sim e feliz, até o momento, mas durmo numa cama de ar, pois não tenho dinheiro para comprar uma e estou sem carro, o que em LA é quase suicídio. Humm, olha, o tal discurso aí. Até eu sou vítima. A internet e suas maravilhas trouxeram um esvaziamento de valores tremendo para nossa sociedade. O número de pessoas que escreve “miguchês” é gigantesco e, em muitas escolas secundárias, as notas em redação caíram drasticamente por conta disso. A informação televisiva perdeu força e o que está em sites – estrangeiros principalmente – é o que vale e, cada vez mais, o rádio tem virado coisa de velho. O maior veículo de comunicação que o Brasil já teve vai perdendo força por causa da dependência virtual dessa geração MSN. Hoje, a internet mais destrói do que constrói, mas é evolução e vamos encará-la. Mas isso acontece por conta de muita bobagem que brasileiro faz por pensar assim. Depois de anos escrevendo sobre ficção e séries do gênero, não foi nenhum dos meus artigos que trouxe “fama”, foi uma notinha besta que publiquei uma notícia aqui na semana passada. Usei um recurso comum no jornalismo: fonte sigilosa. E escrevi para meus amigos e leitores do Judão, afinal, é para isso que o meu blog serve. Não é nenhum portal de informação, blábláblá. Bom, como todo mundo sabe, os fãs brasileiros reagiram exemplarmente à tal informação que foi divulgada no Orkut. Registro aqui a reação exemplar dos fãs: ofensas, xingamentos e descrédito ao meu trabalho. Nem questiono aqui estar certo ou errado. No jornalismo de verdade, não no mundo das fofocas, existe a reportagem – ato de relatar algo a pessoas distantes do acontecimento/fato relatado – e sua validade, ou não, se decide depois quando as partes envolvidas oficializam seus pontos. Mas, sabe o que é pior, tudo foi gerado pela fonte ser, pasmem, um brasileiro, escrevendo em um blog brasileiro, em português, sem nenhum link para site estrangeiro. Frase do tipo “desde quando um brasileiro vai conseguir saber isso antes de todo mundo”. Essa foi a das mais educadas. Segundo momento da reação exemplar: vir até o meu blog, me ofender, falar mal, criticar destrutivamente e baseado na emoção, desmerecer, ameaçar e causar transtornos a pessoas próximas de mim. Nesse momento, bem meus amigos – se não for amigo, por favor, pare de ler, isso não lhe interessa… – perdi um pouco a calma. Já estou comendo o pão que o diabo amassou aqui, estou longe da minha filha e da minha esposa e tenho que ficar agüentando desaforo de gente que não foi convidada para vir aqui e veio para causar tumulto. Não acredita? Ignore e pronto, ria da minha cara depois e pronto, se a informação estiver errada. Veja bem, se a informação, EU não participo disso, apenas relatei a informação que recebi. Respostas atravessadas aqui e ali, a notícia – que já não era mais post do blog e ganhou cunho editorial – começou a rodar e um grande número de donos de sites e especialistas em TV se uniram aos fãs para “desmoralizar a informação do brasileiro”. Resumo da ópera, até um grande site gringo foi acionado para “desmentir” a informação – aliás, essa matéria foi a ÚNICA que contrapôs a informação, não o autor do texto. Pode até ser que a informação esteja incorreta, aliás, vou gostar, pois adoro a série. Mas, em momento algum, houve bom senso por parte dos “ofendidos” da história. Nenhum desses caras me conhece, não sabem como eu sou e transformaram uma coisinha tão simples em uma tempestade que ainda não passou. Eu assisto a série desde o primeiro episódio e sempre brinquei com a minha cunhada dizendo que o Sam era frutinha. Pronto, usei essa piada interna no texto e “ofendi” o ator. É engraçado como as pessoas saem em defesa de atores e falsos ídolos ultimamente – como diria o Nick Nolte, numa frase que citei no blog há alguns dias –, especialmente com a internet. Realmente, o cara está muuuito preocupado com o que um simples blog escreveu a seu respeito. E, claro, também está muito agradecido a você, fã, que veio aqui, fez flood no Orkut da minha esposa, entupiu minha caixa de emails e meus comentários com ofensas a mim por conta disso que, para mim, é piada interna. Como disse, ninguém pediu para vocês entrarem aqui, pelo menos eu não pedi. Esse blog é um registro da minha viagem, não um site de notícias. Estou escrevendo isso mais como um desabafo do que como qualquer outra coisa. Muita gente ficou ofendida aqui, mas quem me atacou e xingou foram essas pessoas. Uma garota disse “quem sai na chuva sabe que vai se molhar”. Olha, ela pode até estar certa, mas concorda comigo que eu não ataquei nenhum fã no texto? Aliás, não ataquei ninguém, brinquei com a minha cunhada no meu blog. Agora, se isso é ofensa para a garota que fez o comentário, bom, então me desculpe, mas a primeira pessoa que tem que ouvir algum pedido de desculpa aqui sou eu. Eu ouvi coisa muito pior do que “frutinha”, posso te garantir. Não quero me fazer de vítima não. Longe disso. Só não agüento mais essa história toda, que já perdeu o foco, a lógica e qualquer barreira do aceitável. Vou fazer um making of da série em breve e quero mais é que continue, mas, infelizmente, não esperem nenhum relatório aqui, pois, infelizmente, depois disso tudo, quero é distância dessas pessoas. “Ah, mas você ofendeu o Jared”. Leia essa frase em voz alta algumas vezes e repare o quão relevante ela é para a sua vida, para a minha vida, para a vida de todos. Peço desculpas a ele, então, mas não às pessoas que se deram ao trabalho de me agredir publicamente por algo que, independente do que a moça do site grande diga, só saberemos se é verdade no dia em que a quarta temporada for anunciada. Aí, meus caros, vou ser o primeiro a relatar essa notícia, ou melhor, esperar algum site publicar para que eu traduza, publique e me exima de qualquer responsabilidade sobre o que está dito ali. É assim que, infelizmente, brasileiro tem que trabalhar para os outros brasileiros. Precisamos ter orgulho, gente. Precisamos confiar uns nos outros. E confiar, envolve errar e reparar; envolve respeitar e ser respeitado; e, acima de tudo, envolve ter bom senso. E nessa história, isso faltou para todos os lados. Uma pena. Aprendi muito com isso e, infelizmente, muita coisa já mudou e vai mudar mais ainda. É uma pena, mas a vida é assim. Muitos vão perder ponto conta de uns poucos que, infelizmente, dedicaram preciosas horas de sua vida para tentar me infernizar. É conseguiram alguma coisa. E agora, o que isso muda? Pois é, nada. Parabéns a vocês, e obrigado àqueles que escreveram com ponderação e propuseram discussão. Ainda há esperança, assim acredito. Não quero me comparar aos caras que citei no começo do texto e muito menos dizer “confiem em mim”. Parece coisa de político. Só quero dizer que as injustiças causadas nesse país, são nossa própria culpa. Não sofro de carência, diga-se de passagem. Só quero encerrar esse assunto e pronto. Muita gente é macha pra caramba na internet, mas não atua na vida real. Adoraria ver esse fervor todo em prol de causas relevantes como auxílio a deficientes carentes, orfanatos ou asilos, que estão cheios de heróis de verdade, com histórias de verdade, mas sem quase ninguém para lutar por eles, nem mesmo suas famílias. Um dia, todo mundo fica velho. E, enquanto ficamos velhos, esse velho discurso derrotista, agressivo e pouco orgulhoso vai corroendo as próximas gerações. Pensem nisso.
Era uma vez um filme chamado Mad Max, com um atorzinho pouco conhecido e um bando de australiano maluco que falava “marciano”. O sotaque era tão ruim que decidiram redublar o filme para passar aqui nos States, PORÉM, não era dublagem brasileira - que é boa para carambaaaaaaaaa! - e ficou uma porcaria. Logo, o filme ficou no limbo e quase ninguém viu. Beleza, só mais um. Só que o tal atorzinho – um tal Mel Gibson – começou a ficar famoso e os australiaos malucos resolveram fazer o Mad Max 2, mas NINGUÉM aqui sabia do primeiro, então por que diabos fazer um 2? Por conta disso, resolveram mudar o nome do filme para Road Warrior – afinal, aqui eles podem, né? Se a gente faz isso no Brasil leva porrada de tudo quanto é lado. É por isso que, para muito gringo tapado, existiam apenas dois filmes e eles ignoravam o primeiro, que depois virou Cult e tals com todo o sucesso do Mel Gibson, que tinha só 23 aninhos na época. Calma, não foi nenhuma fonte misteriosa que me contou. Eu sabia que o nome era outro por causa de público, mas não conhecia os detalhes até ver Leonard Maltin, um dos grandes críticos norte-americanos, contar essa história num dos extras do Blu-Ray de Road Warrior, ou melhor, Mad Max 2. Interessante saber disso. |
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