Bowie não seria Bowie sem Berlim | Judão

Como um flerte com o fascismo levou o Camaleão do Rock a um rehab no berço do nazismo, revolucionando-o pessoal e musicalmente

Dos muitos grandes álbuns da carreira de David Bowie, ao menos três são seguramente frutos de sua relação com a capital alemã, Berlim, na última metade dos anos 70. Fosse bebendo da crescente cena musical eletrônica do país e do chamado krautrock ou das problemáticas políticas que rondavam um certo grande muro, Bowie buscava reinventar-se não só musicalmente, o que brilhantemente conseguiu, como também pessoalmente.

Em meados de 1976, o loirão não vivia seus melhores dias, tudo culpa dele mesmo e de uma assustadora visão política que vinha nutrindo e ventilando por aí: desde um certo apoio ao fascismo e à consagração de Hitler como “um dos primeiros rockstars” (que veio a ser creditada com um dos principais motivadores do movimento Rock Against Racism), até uma prisão em Estocolmo por posse de drogas e material declaradamente nazista.

A culpa desse período sombrio, pelo que consta do próprio Bowie, tinha nome e sobrenome: a cocaína de Los Angeles, onde morava havia algum tempo. “Foi onde tudo começou. Aquele maldito lugar deveria ser limpado da face da terra. Ter qualquer coisa a ver com rock and roll e ir viver em Los Angeles é ir de encontro ao desastre”, afirmou em 1980. Segundo ele, toda a droga e o convívio com outras estrelas na mesma situação enevoaram sua mente e cruzaram sua persona com a do Thin White Duke, seu alter ego alienígena do momento, resultando em seus flertes com o fascismo.

Papinho de artista ou não, fato é que o imediato BACKLASH à chuvarada de merda proferida por Bowie o conduziram a uma mudança nada sutil. Deixou os EUA rumo à Suíça, para viver em um chalé no Lago Léman (ou Lago de Genebra) e DEBRUÇAR-SE sobre livros, pinturas, fotografias e, mais importante, deixar o pó de lado...

Só que, como boa máquina criativa que sempre foi, Bowie logo ouviu falar de uma certa labareda, que vinha se transformando em chama musical não muito longe dali, numa tal Alemanha. Tratava-se da ascensão do krautrock, um movimento que oferecia novas influências a esse cara, até então mais centrado no eixo EUA x Inglaterra. Assim, fugindo do fascismo e do nazismo, o músico nos veio parar justo onde? No berço do segundo, pois é. Mas que bom!

Bowie foi morar em um apartamento estrategicamente posicionado próximo ao Hansa Tonstudio, onde realizava ensaios e testes musicais, dividindo o espaço com ninguém menos do que Iggy Pop. A ideia de ambos era se ajudar não só musicalmente, mas também numa espécie de rehab clandestino. E funcionou. Logo, Bowie trabalhava em um primeiro, minimalista e fortemente eletrônico álbum, enquanto dividia créditos com Pop em The Idiot e Lust for Life, primeiros trabalhos do agora vovô alérgico a camisetas (agradeçamos a todos por Trainspotting ser o que é, portanto).

Totalmente embebido neste rock experimental alemão, o tal álbum de Bowie viria a ser conhecido como Low. Lançado em 1977, trazia 11 faixas em dois lados, sendo 9 compostas pelo músico britânico em esforço solo e outras duas em parcerias com Brian Eno, Dennis Davis e George Murray. Era uma linda mistura de canções mais típicas, cantadas e contemplativas, com outras mais experimentais, por vezes só instrumentais. Um exercício de simplicidade e minimalismo de Bowie que, segundo um dos mestres nesse estilo musical, o compositor Phillip Glass, apenas mascaravam uma complexidade digna da mente de um gênio MAIÚSCULO, para muito além de um simples músico comercial.

Low: Um exercício de simplicidade e minimalismo de Bowie que mascarava uma complexidade digna da mente de um gênio

Com um sucesso, de início, só comercial, Low veio a crescer tão exponencialmente na visão da crítica que, hoje, é tido para muitos como o melhor álbum da carreira de Bowie, além de um dos mais revolucionários da história do rock. Não à toa, já que seu som veio a abrir portas para todo um estilo OITENTISTA de se encarar o gênero, embalando fortemente o chamado pós-punk e aqueles que viriam depois deles (ver por favor: Joy Division e o New Order). Ainda assim, e até surpreendentemente, parece que o álbum acabou eternamente relegado às sombras de seu sucessor. E por conta de UM hit.

Provavelmente a música mais usada em trilhas sonoras licenciadas de filmes nos últimos dez anos, a obra prima chamada Heroes veio ao mundo por meio de seu álbum homônimo, um fruto de um Bowie mais politizado, mergulhado na espiral política de uma Alemanha dividida pela Guerra Fria. Lançado também em 1977, é um álbum que bebe do minimalismo e da simplicidade do seu antecessor, claro, mas também confere à música um ar mais épico, mais ROQUEIRO.

Irônico pensar que, à época de seu lançamento, Heroes viu em Heroes (risos) uma de suas faixas de menor sucesso nos EUA e no Reino Unido. Que bom que a justiça foi feita e a música tornou-se o que é, parte icônica da cultura pop. Inspirada pela visão do produtor Tony Visconti abraçando sua namorada próximo ao Muro de Berlim – que, por sua vez, ficava do ladinho do estúdio em que Bowie testava suas composições na Alemanha – a música conta a triste, porém tocante, história de dois amantes separados pelos tijolos da guerra. Um documento não só do poder da música para retratar e, até certo ponto, combater adversidades, mas também da regeneração de Bowie, depois de seu período sombrio em Los Angeles.

Com Heroes e Low debaixo do braço, Bowie partiu numa maratona de shows por 12 países, em 1978. Livre do vício em cocaína, estima-se que o cara tenha sido visto por quase um milhão de pessoas ao longo de 70 shows – período no qual a sua popularidade europeia atingiu níveis quase David Hasselhoffianos (risos, risos), a ponto de influenciar outro marcante ícone da época: Christiane Vera Felscherinow.

Mais conhecida como Christiane F., essa atriz e musicista alemã relatou sua traumática experiência com drogas, nos anos 70, no que veio a tornar-se livro e filme: Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída. Relatou, também, sua paixão pela música do Camaleão do Rock, o que prontificou que, quando o filme fosse lançado, contivesse uma participação mais que especial de Bowie, que aparece apresentando-se em um show AND assina a trilha sonora oficial.

A essa altura e nesse nível de influência, Bowie poderia ter encerrado as atividades germânicas por ali mesmo que, sem dúvidas, já teria reescrito o destino do rock. Ainda assim, em 1979, brindou o mundo com um último álbum do que veio a ser sagrado como sua “Era Berlim”. Muito mais pop rock, bem de volta às origens, Lodger é uma despedida New Wave dessa fase do músico. Uma pérola subestimada que, hoje, ganha mais beleza se revisitada do que na sua época, quando acabou meio que ENGOLIDA pela inovação e pelo sucesso de suas irmãs mais velhas.

A partir de 1980, Bowie mergulhou-se nos sintetizadores e no romantismo da década, embora sempre com aquele olho na dianteira, na inovação. Ainda assim, não fossem seus estudos e experimentações na Alemanha, anos antes, jamais teríamos chegado num Ashes to Ashes, ou até Cat People (Putting Out Fire) da vida. Raios, sequer teríamos Blackstar, aquela bizarrice genial, por aí.

Bowie não seria Bowie sem Berlim. Que bom, então, que foi. :D