A caça às feministas coreanas no mundo dos games | JUDAO.com.br

Grupos anti-feminismo cada vez mais fazem barulho “denunciando” ~comportamento feminista

Não é de hoje que a gente comenta por aqui sobre a toxicidade da comunidade gamer. E, bem, lá vamos nós de novo. Dessa vez, com foco numa situação rolando lá na Coreia do Sul.

Lá, segundo dados da empresa de consultoria de dados do mercado de games Newzoo, 43% das mais de 25 Milhões de pessoas que se declaram jogadoras assíduas são MULHERES. Só que isso não significa que exista alguma diferença sobre a misoginia típica desse ambiente.

De acordo com o Kotaku, CEO da IMC Games (Tree of Savior, Granado Espada), Kim Hakkyu, recebeu muitas reclamações sobre atividade inapropriada de uma de suas funcionárias. O lance é que eram basicamente sobre ela ter retuitado uma mensagem com a palavra “hannam”, que é uma gíria coreana para algo como “homem nojento”, além de seguir contas com conteúdo de feminismo extremo que estão associadas ao (já desativado) site feminista local Megalia.

Vale explicar que esta página causou BASTANTE quando algumas mulheres de sua comunidade começaram a distorcer conceitos feministas para justificar ações que não têm NADA A VER com esse pensamento. Exemplo: a defesa de que mulheres deveriam abortar uma gravidez caso estivessem esperando um menino ou a exposição de homens gays não-assumidos e em relacionamentos hétero. Por essas e outras, tudo o que é associado ao Megalia é tido como extremo e muito, muito problemático.

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Kim Hakkyu decidiu não demití-la, mas não fez isso sem INTERROGAR a moça por seu “comportamento anti-social” e publicar as respostas. Como era de se esperar, ao ser pressionada, ela parece bastante constrangida e atrapalhada. Quando ele pergunta, por exemplo, por que ela estava seguindo determinadas contas com conteúdo feminista (como se isso fosse um crime), a jovem só conseguiu dizer coisas como “acho que segui sem pensar exatamente porque. Ela lida com problemas relacionados à absorventes higiênicos e violência sexual, coisas que eram um problema no passado”.

A publicação termina com o CEO expressando grande preocupação com o comportamento da funcionária e prometendo “monitorá-la incessantemente”. Sim, você leu direito: MONITORÁ-LA.

Algumas semanas antes, um ~grupo anti-feminista~ resolveu ir atrás de um desenvolvedor conhecido como Komi. Ele é autor de Replica, jogo indie bastante crítico ao governo coreano. Descobriram, então, que ele havia curtido e compartilhado tweets a favor da educação sexual nas escolas. Seu trabalho, então, começou a ganhar resenhas negativas no Steam com comentários como “um grande feminista coreano fez esse game” e “animais selvagens do Megalia desenvolveram isso”.

E essa história não começou em 2018, não. Dois anos atrás, em 2016, a dubladora Jayeon Kim foi demitida da empresa de jogos Nexon por usar uma camiseta com os dizeres “Girls Do Not Need A Prince”. Os que reclamaram, porém, disseram que nada tinham contra a frase, mas que eram apenas contra uma blusa adquirida de membros do tal Megalia.

SEI.

Perceba aqui uma coisa bem, bem séria: as atitudes MUITO pavorosas de algumas usuárias do Megalia parecem ser a desculpa perfeita para que grupos anti-feministas ajam de maneira indiscriminada numa verdadeira CAÇA contra ideais que ameaçam a dominância masculina. Conectar ações ruins ao feminismo é uma grande maneira de construir uma falácia contra ele.

Percebendo isso, Suyoung Jang, CEO de outra produtora de jogos, a Kiwiwalks, disse publicamente que não puniria nem demitiria uma funcionária que, da mesma forma, havia sido denunciada a ele por compartilhar conteúdo pró-aborto. E analisou: “Existe um número crescente de homens que reagem de maneira muito sensível à mais vaga menção de direitos das mulheres. Especialmente entre jogadores. Mas o que havia no RT da funcionária era relacionado ao aborto. Muito embora algumas expressões radicais estivessem misturadas no texto, a questão do aborto é algo com o qual qualquer mulher pode se identificar”.

Apesar de positiva, a fala de Suyoung infelizmente é quase única.

Segundo a AFP, apesar de meninas representarem quase metade desse público, apenas um quarto dos desenvolvedores de jogos é mulher. Viu onde a conta não fecha?

Com isso, níveis de empatia despencam e sobra espaço e apoio para atitudes como a assustadora vigilância ideológica de Kim Hakkyu e a constante ameaça de grupos que, lá no fundo, só temem ser tratados como as mulheres têm sido durante toda sua vida.