Caçadores de Trolls é legal pra cacete! | Judão

Série de Guillermo Del Toro com a Dreamworks é tipo jogo LEGO: não vai revolucionar sua vida, mas vai te divertir com uma história simples, direta e cativante. Se você quiser. ;D

Mesmo sabendo que não deveria, até hoje eu fico surpreso quando um jogador mais ~hardcore diz curtir os jogos LEGO. Simples, ocasionalmente bobos, mas sempre divertidos, os joguinhos licenciados da marca dinamarquesa miram nas crianças, mas podem SIM agradar muito tiozão por aí, em busca dum entretenimento mais leve, principalmente naquela ENTRESAFRA entre um título mais cabeça e outro.

É mais ou menos nessa veia que Caçadores de Trolls, série de animação que é fruto da união entre Guillermo Del Toro e a Dreamworks Animation, funciona. Andou vendo muito Black Mirror, Westworld ou Mr. Robot e tá a fim de dar umas risadas, curtir uns draminhas bem leves e revisitar uns anos mais dourados da vida? Espairecer? Achou como!

Na história, a série não traz muita novidade: Jim é um garoto deslocado de 15 anos. Sem resquício algum de popularidade na escola, ele divide seu tempo entre todo tipo de afazer doméstico (compensando a ausência de sua mãe, uma requisitada médica), seus estudos escolares e passeios de bicicleta/jogatinas com seu melhor amigo e vizinho, Bobby.

Só que, um dia, ele é escolhido por um lendário amuleto mágico para virar – TAN DAM – o Caçador de Trolls, responsável por manter o equilíbrio entre o mundo humano e um universo sobrenatural populado por criaturas fantásticas (e dividido, principalmente, entre trolls bons e ruins), arrastando seu amigo junto. Não demora para que os dois, juntos dos trolls Blink – um erudito treinador monstro – e Aaarrrgghh – um gigantesco, porém amável pacifista, formem uma equipe, chegando a incorporar mais um (ou uma) integrante e dando sentido ao PLURAL do título.

É a partir daí que a série começa a mostrar mais e mais força. Primeiro, em cenas de ação deslumbrantes, que não deixam nada a desejar pros Snyders e Woos da vida. Depois, ao construir todo um complexo universo, coeso dentro de si, populado por carismáticas criaturas mágicas (Del Toro, né?) e, claro, ao desenvolver seus personagens com enorme competência, numa narrativa envolvente, com peso emocional maduro e reviravoltas ENGAJANTES.

Existe uma fórmula sendo aplicada, evidentemente, ao longo dos 26 episódios que a primeira parte da série tem e ela não é nenhuma novidade pra ninguém que curte séries infanto-juvenis para além da diversão. Mesmo assim, a jornada do primeiro caçador de trolls humano dentro de uma linhagem de guerreiros-monstros, e como isso afeta suas relações familiares, amizades, e até aquele crush do colégio, tem um desenrolar tão bem executado e um quê PETERPARKERIANO que pode ser loucamente cativante.

Ajuda também o fato de que os vilões da série cumprem funções distintas e complementares. Tem para todos os gostos: o todo-poderoso vilão-vilão que fica nas sombras, como uma tempestade prestes a chegar (e porque, como todo troll, viraria pedra se encarasse o sol); o músculo; o arqui-inimigo do herói; o ancião feito de pura maldade; até o vilãozinho que serve como alívio cômico. Todos têm personalidade, tem tempo de desenvolvimento, e tem o suficiente para, na hora certa, te fazer levar os olhos pra perto da tela.

No final das contas, se você se topar se aventurar nuns clichês para curtir umas boas horas de diversão, Caçadores de Trolls te deixará com um belo dum cliffhanger para a segunda parte da série e a certeza de que é tudo de melhor que você esperaria dum casamento entre Del Toro e Dreamworks, que nasceu do sonho do cara em fazer uma série sobre crianças lutando com monstros. Que virou um livro. Que virou projeto de filme de animação. E que, enfim, virou a série. “Eu fiz a série porque eu queria ter um programa não-irônico, humanista, bonito para assistir numa manhã em família. Bem como Festa no Céu é pra mim, um filme amável, cheio de vida. Caçadores de Trolls é isso, enquanto série”, disse ele ao Observer. E ele conseguiu.

Se quiser a reinvenção da roda em forma de animação, não é com Caçadores de Trolls que você vai conseguir. Pruma diversão descompromissada e, melhor ainda, ao lado de familiares de TODAS as idades, a série taí para você.

“Para Anton”

Como se Del Toro, Dreamworks e esta belíssima resenha não fossem o bastante, a série guarda ainda mais um motivo para ser vista por você: ela marca o último trabalho de Anton Yelchin, morto no ano passado. Em seu primeiro trampo com dublagem, o ator não concluiu todas as gravações, MAS teve sua voz preservada em todas as cenas possíveis como Jim, ao lado das de Kelsey Grammer e do muso de Del Toro, Ron Perlman.

Anton Yelchin

“Nós não fizemos uma reunião, ou qualquer ligação. Eu disse ‘vamos mantê-lo’”, lembrou o cineasta sobre a decisão de preservar o material gravado por Anton. “Ele tinha orgulho do que fez e nós tínhamos tanto orgulho de como ele fez... Eu sou um pai. Perder alguém tão jovem te atinge de uma forma brutal”, adicionou.

Para concluir a série, um novo ator foi contratado pela equipe de produção, e recebeu a dura tarefa de terminar o trabalho de Yelchin. “Eu acho que uma das coisas que as pessoas descobrirão será que, quando assistirem a vários episódios, da melhor forma possível, você esquece que é Anton, e ele se torna o Jim”, disse o produtor Marc Guggenheim ao CinemaBlend. “A série é um magnífico testamento não só do talento dele, mas do seu espírito. Sua humanidade transparece na voz de Jim”.