RESENHA! CAM, filme da Netflix com Madeline Brewer

Imagina acordar um dia e seu Instagram ter umas fotos novas, uma live feita e você não se lembrar de nada simplesmente porque você não fez nada daquilo? A camgirl Gween Black escreveu pro JUDAO.com.br sobre o filme da Blumhouse que estreou no Netflix em Novembro

Vamos lá, qual seria o pior pesadelo de um YouTuber, de uma influencer de Instagram, além de perder a conta? Imagina acordar um dia e seu Instagram ter umas fotos novas, uma live feita e você não se lembrar de nada? Você ser uma camgirl e ver sua sala online, com um show acontecendo, que não é uma reprise de um gravado anteriormente, sem conseguir entrar na conta pra parar aquilo... Não é uma pegadinha de alguém depois de uma noite daquelas, porque ontem você fez até hora extra e dormiu cedo. O que foi que aconteceu aqui?

Isso é, em resumo, CAM, mais um filme produzido pela Blumhouse Productions que estreou em Novembro no Netflix. Uma mistura de Jennifer’s Body, de Diablo Cody, com o maravilhoso Corrente do Mal.

Escrito por Isa Mazzei, uma ex-camgirl, que já demonstrou em diversas entrevistas sua paixão e luta para quebrar o estigma com as sex workers, o filme conta a história de Alice / Lola (Madeline Brewer), uma camgirl que trabalha muito para chegar ao Top 50 do site, fazendo shows chocantes e combinados com sua fan base para ganhar mais visitantes na sala e mais tokens, incluindo até um show de suicídio (o que é absolutamente ilegal em TODOS os sites de camgirl reais). Com essa vibe de tudo pela fama, Lola, além do desafio de recuperar o acesso e descobrir o que está acontecendo, passa pelos desafios ~normais de uma camgirl — contar para a mãe com o que trabalha, lidar com fãs no dia-a-dia, e o estigma com a sociedade.

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Cenas como a dos policiais servem pra mostrar um pouco mais da realidade das camgirls, me deixando feliz e triste ao mesmo tempo, já que, como camgirl, me vejo na mesma situação às vezes. Com as diversas leis “protetivas” que tem surgido mundo a fora, como o SESTA / FOSTA (leis anti-tráfico sexual dos EUA, que na realidade só serviram para proibir e prender prostitutas, e dificultar a venda de serviços em diversos estados americanos), não temos a quem recorrer. Se eu precisar de algum auxílio da policia ou da justiça, eu não tenho dúvidas que vão rir da minha cara pela minha profissão... Mas muita gente adora uma pornografia quando está sozinho, mostrando bem a hipocrisia e o medo que Lola passou naquela cena.

Para que a atriz Madeline Brewer não passasse ela mesma por alguma situação constrangedora, Isa e o diretor Daniel Goldhaber disseram que era ela que decidiria tanto de nudez que ela iria usar no filme — mesmo que tivesse no roteiro, “no dia da filmagem, era ela quem decidia”, afirmou o diretor ao Offscreen. Nada muito diferente do dia-a-dia de uma camgirl, mesmo. “Ela conseguiu entender a personagem melhor que nós. Em algumas cenas, elas chegou pra gente e disse que sentia que ela teria de estar totalmente nua. Em outras, disse que seria muita distração, que a Alice faria aquilo. Na sala de edição, percebemos que ela estava totalmente certa. Ajudou muito o sentimento de que a Alice estava no controle e empoderada por ser corpo”.

Além dessa sensibilidade de dosar a nudez de acordo com a atriz, Isa Mazzei dirigiu algumas cenas pra evitar o chamado “male gaze” e o filme não cair em objetificação do corpo da mulher.

O universo de camgirls é enorme. No Brasil não existe nenhum site como o que o filme mostra, inspirado no MyFreeCams. Mas esse sistema de ranking e casas-colônia de camgirl é uma cultura enorme nesse mundo do camming, e esse filme mostra a pontinha do iceberg que são esse quartos repletos de glitter, carpete e roletas de prêmios e por isso MUITA gente ficou confusa sobre como o filme funciona e qual é o final dele.

CAM vale ser assistido pra conhecer mais sobre essa parte da internet que, sim, existe. Como filme de terror... eu não consigo nem pensar como seria ficar fora das minhas redes sociais vendo alguém se passar por mim nelas. Seria esse o horror dos millennials? Isso é muito Black Mirror, mano.


Gween Black é camgirl desde 2013. Já foi indicada ao AltPornAwards como melhor camgirl e, como atriz pornô, foi indicada ao prêmio SexyHot duas vezes. Siga @GweenBlack_ no twitter e Instagram!