A música que ajudou a definir o clima da série do Justiceiro | Judão

One, o clássico do Metallica que embalou os trailers da nova parceria Marvel / Netflix, é a apresentação perfeita para quem achava que veria só um psicopata de camisa de caveira mandando bala pra tudo que é lado

“É necessária uma boa dose de empatia para não reclamar que o cara não sai matando todo mundo só porque fez algo ruim. Demora, por exemplo, para que Frank Castle volte a ser o Justiceiro que conhecemos — com a caveira no peito e tudo mais”. Este trecho da resenha do Borbs para a série do anti-herói da Marvel que acaba de estrear no Netflix, ficou REVERBERANDO na minha cabeça enquanto eu ouvia um “nerd raiz” reclamando para outro, igualmente putaço da vida: “ah, série do Justiceiro tinha que ser ele matando geral, metendo bronca na bandidagem. O cara é o Charles Bronson da Marvel. Vi cinco episódios, achei muito paradão e desisti”.

Afe.

O ponto é que, conforme o nosso editor-chefe bem explicou, Justiceiro NÃO é uma série de super-herói ou qualquer coisa assim. Na real, é uma série sobre tudo o que a guerra pode causar num ser humano e como ele lida com isso. É sobre um soldado que carrega a guerra dentro de si.

Mas, bem cá entre nós, se os ali de cima tivessem prestado um mínimo de atenção aos trailers divulgados antes da estreia, teriam entendido de imediato qual era o clima. Estava tudo lá, esfregado na sua cara, especialmente na utilização de um hit do Metallica que não foi selecionado no uni-duni-tê: One.

Terceiro single do álbum ...And Justice for All (1988), aquele lá no qual não dá pra ouvir o baixo, One se tornou um sucesso imediato — tocada ao vivo na cerimônia do Grammy em 1989, a canção seria agraciada no ano seguinte com o prêmio de Melhor Performance Metal, justamente na primeiríssima vez em que a categoria foi oficialmente aplicada na premiação. A faixa ainda se consagraria como a primeira vez em que o Metallica emplacou um hit no top 40 dos EUA, atingindo a posição de número 35 na parada Hot 100 da Billboard. Até hoje, é um momento indispensável nas apresentações ao vivo dos caras.

O mais curioso aqui, no entanto, é que estamos falando de um hit improvável justamente pelo tema: escrita pelo vocalista/guitarrista James Hetfield e pelo baterista Lard Ulrich, One é uma canção anti-guerra cujo personagem é um soldado da Primeira Guerra Mundial gravemente ferido: depois de um ataque de artilharia aérea, ele perdeu os braços e as pernas; além disso, acabou ficando cego e não consegue falar ou se mover. Tudo que ele faz é rogar ao seu Deus para tirar sua vida, conforme sente uma dor constante, não apenas física mas também emocional, depois de todos os horrores que viveu.

Em entrevista para a revista Rolling Stone, Lars explica que a ideia surgiu muito tempo antes, ainda quando eles estavam escrevendo a obra-prima Master of Puppets, de 1986. O primeiro insight veio de James, que chegou dizendo “como seria viver numa situação em que você está vivo e consciente, mas não consegue se comunicar com ninguém ao seu redor?”.

O conceito voltaria a circular nas cabeças dos caras depois que o disco foi lançado, em 1987, quando seus agentes lhes apresentaram o livro Johnny Vai à Guerra, do escritor Dalton Trumbo, publicado originalmente em 1939. O título se refere à frase Johnny Got His Gun, usada durante muito tempo como slogan das Forças Armadas norte-americanas para convocar os jovens para o alistamento.

Na obra, o jovem recruta Joe Bonham certo dia acorda em uma cama de hospital, ainda lúcido e conseguindo sentir tudo, percebendo que perdeu não apenas sua mobilidade mas também seus sentidos. Ele tenta se comunicar com os médicos batendo a cabeça na cama, usando código Morse. Tenta se matar por sufocamento. Quer morrer a todo custo, mas seu pedido jamais é atendido.

Em 1971, o próprio Trumbo escreveria e dirigiria a adaptação de sua obra para os cinemas — um retrato sufocante sobre as consequências devastadoras da guerra. Faria sentido que, depois que One foi composta e, na sequência, escolhida para se tornar o primeiro clipe da carreira do Metallica, eles mesclassem cenas do filme com imagens em P&B da própria banda cantando. Mas, ao invés de uma negociação de um pagamento a cada vez que o diacho do vídeo musical fosse exibido, a banda preferiu seguir um caminho mais incomum e COMPROU os direitos integrais do filme.

No fim, exibido sem parar na MTV gringa a partir de Janeiro de 1989, o clipe de One foi um dos principais responsáveis por ajudar a catapultar o grupo de sua posição de sucesso absoluto no underground metálico para o mainstream. Foi a canção que pavimentou o caminho que eles seguiriam e ampliariam, chutando todas as portas, com o blockbuster conhecido como Black Album (1991).

Em um mundo da cultura pop no qual basta colocar uma versão desacelerada e sombria de Sweet Dreams num trailer que já tá tudo bem, a escolha de One para mostrar as primeiras imagens da jornada solo de Frank Castle está longe de ter sido aleatória, “ah, matança, sangue, porradaria, vamos de heavy metal mesmo, yeah!”. Nada disso. Afinal, também está longe de ser por acaso que o trecho da letra que se ouve no vídeo é justamente “Darkness / Imprisoning me / All that I see / Absolute horror / I cannot live / I cannot die / Trapped in myself / Body my holding cell”.

Justiceiro é sobre isso. Sobre um cara assombrado por seus próprios demônios, se debatendo contra eles e sem conseguir se comunicar, sem chance de exorcizá-los. E não apenas um cara de caveira na camisa disparando chumbo grosso por aí. Se era isso que cê tava esperando, melhor escolher outra série pra assistir.