Cara-Unicórnio: meio sátira, meio homenagem, totalmente diversidade | Judão

Criação do quadrinista e ilustrador gaúcho Adri A., o sujeito meio-humano e meio-unicórnio é protagonista de uma HQ online de super-herói estrelada por personagens LGBT e que tá garantida pra virar revista impressa via financiamento coletivo

Um jovem comum e de rotina ordinária tem sua vida transformada por um acidente com um animal estranho durante uma visita escolar a um laboratório científico. Te lembrou algo? Pois é, a ideia era esta mesmo. Porque o gaúcho Adriano Andrade, 31 anos, que assina seus trabalhos como Adri A., é tão fã de gibis de super-heróis quanto eu e você – e, portanto, quis colocar uma pitada destes clichês em seu próprio gibi. A diferença aqui é que estamos falando do David, um empacotador de supermercado que tem apenas o ensino médio completo.

Criado pela espirituosa Tia Elle (que, se você reparar bem, se parece com a Laerte <3), ele acaba seguindo um bando de crianças numa excursão ao Instituto de Pesquisas Estranhas, bem no dia em que rola a Demonstração de Raios Radioativos. E aí, numa mistura bizarra e divertidíssima das origens do Homem-Aranha e do Hulk, ele se mete no meio do experimento quando um bicho mitológico surge do mais absoluto nada, leva uma picada (ou algo assim) e se transforma no Cara-Unicórnio. “É um gibi de super-herói que zoa e dá uma desconstruída nos clichês de quadrinhos de super-heróis, mas também é um gibi COM e SOBRE diversidade, com protagonistas LGBT”, explica o autor, em entrevista pro JUDÃO. “Acho que isso resume bem!”.

Depois de publicar duas histórias completas (Como Virar um Cara-Unicórnio e O Caso da Bolsinha — esta segunda, simplesmente genial) na internet, agora o Adriano se prepara para a missão que acaba picando qualquer quadrinista em algum momento da vida: levar seu personagem para uma revista impressa. “Existir em um lugar possível de tocar, folhear, guardar. Certa vez, alguém disse ser difícil estabelecer um vínculo afetivo com um arquivo de PDF, e há de se concordar com isso”, afirma ele.

Depois de cinco semanas, a campanha de financiamento coletivo da HQ alcançou a meta de R$ 7 Mil previstos para a impressão de 500 exemplares de uma edição com três histórias do herói (as duas disponíveis online e mais uma inédita, já em finalização), além de esboços e estudos de personagens. Como ainda tinha tempo, Adriano decidiu estender a meta até R$ 10 Mil acrescentando mais vinte páginas e investindo um pouco mais em qualidade gráfica, com capa de gramatura maior e acabamento em lombada colada.

“Eu acreditava que era possível bater a meta, mas que isso aconteceria talvez faltando pouco menos de duas semanas para a campanha acabar. Alcançá-la bem antes do fim do prazo, com um número tão expressivo de apoios, e tratando de um projeto de quadrinhos que aborda a temática LGBT, me diz que as pessoas acreditam no projeto, percebem seu potencial, e eu vejo isso como um reconhecimento do meu trabalho e uma conquista valiosa para mim e a causa LGBT”, diz ele. “Acho que quem apoiou foi porque curtiu a proposta do projeto, se identificou. Até agora só fiquei sabendo de um comentário homofóbico, dizendo que tinha uma época que os heróis gritavam ‘eu tenho a força’ e hoje gritam ‘eu queimo a rosca’, mas no final das contas... Que bom que a gente tá numa época diferente, né?”.

AINDA BEM. :D

Além de se apresentar como ilustrador, quadrinista e contista, ele faz questão de deixar claro logo na largada do papo que é gay. “É importante destacar isso já que venho buscando abordar cada vez mais temas LGBT nas minhas produções. Eu cresci numa cidade bem pequena, hoje moro numa cidade menos menor e, pra quem se perguntar, sim, existem gays em cidades pequenas, não é uma exclusividade de metrópoles”.

Desde 2012, Adriano publica suas tirinhas e histórias ilustradas em uma página do Facebook criada especialmente para isso, além de dar a cara em fanzines que ele mesmo edita e contribuir com ilustrações / contos em uma série de publicações independentes. Quando essa necessidade de se focar em mais representatividade LGBT pintou na vida dele, também pintou o Cara-Unicórnio, na qual os personagens de destaque são todos LGBT. Mas ainda que este seja o enfoque, a trama alterna um delicioso humor non-sense (referenciando até uma certa Inês Brasil) e certa dose de emoção, tratando de temas como o amadurecimento e o fracasso diante do que a danada da vida adulta te exige. “Pra se identificar com as histórias, basta ser humano”.

Ele conta que os quadrinhos de super-heróis que leu na infância, principalmente do Homem-Aranha e dos X-Men (que, lembra ele, carregam um histórico de defesa da representatividade em alguma forma), têm uma influência significativa na sua produção – mas que, de uns tempos pra cá, os artistas Chris Bachalo e Mike Mignola se tornaram grandes inspirações. O traço limpo, simples, dinâmico e cheio de exageros, em especial nas expressões faciais, já entrega de imediato. Basta olhar a sequência na qual David se transforma no Cara-Unicórnio, numa pegada muito Um Lobisomem Americano em Londres.

Além disso, ele se inspirou muito nos quadrinhos nacionais independentes, que conheceu quando começou a participar ativamente de feiras de arte gráfica. “Eles tiveram um papel importante ao me mostrar que dá pra fazer quadrinhos de muitos jeitos, sem ter que ser igual aos das grandes editoras, e encontrar o MEU jeito de fazer isso”, explica. Falando especificamente de quadrinhos, Adriano defende que, quando um/uma artista ou obra não está vinculado a uma grande editora, existe liberdade pra retratar com mais franqueza e naturalidade a diversidade. “Quando se fala em quadrinhos de super-heróis de grandes editoras, parece que a diversidade encontra mais empecilhos: a representatividade é pouca e, na maior parte dos casos, não muito justa ou verossímil”.

Ele tem sim enxergado, por exemplo, certa movimentação nas grandes das HQs de heróis, mas ainda é tudo muito tímido. “Eu acho ótimo, mas tem que rolar mais, muito mais! Levando em conta a proporção da produção de editoras como Marvel e DC, as iniciativas de valorizar a representatividade LGBT são poucas e quando rolam ainda sofrem com um tratamento editorial diferenciado”. Isso faria, segundo ele, com que a diversidade acabe sendo culpada pelas baixas vendas, levando as iniciativas a durarem pouco e sendo logo canceladas. “Isso é uma pena! Essa história de culpar a diversidade pelo fracasso de uma publicação é tão injusta: ninguém critica um gibi do Wolverine ou do Superman por ser hetero demais, machão demais, né? Que coisa!”.

Agora, falando de cultura pop de modo geral, a crítica dele é ainda mais contundente. “Você consegue contar quantos filmes blockbusters – seja do gênero super-herói, ação ou fantasia – são produzidos tendo como protagonistas personagens LGBT, com sua sexualidade retratada com tanta naturalidade quanto a heterossexualidade? Pois é, dá pra inferir algumas coisas a partir desse número”. Pois é mesmo...

Mas será que o Adriano acha que o seu gibi vai conseguir atingir um público diferente daquele que lê gibis usualmente, aliás? Um público que até o momento não se enxerga nos gibis que estão disponíveis no mercado? “Só pra deixar claro: o público diferente daquele que usualmente lê gibis não necessariamente é composto por LGBTs – e tem muita gente LGBT que já lê usualmente gibis e não se enxerga ou se enxerga muito pouco no que lê”, corrige ele. “Eu torço para que o meu trabalho atinja tanto quanto quem não costuma ler quadrinhos quanto aqueles que já leem e podem não se sentir representados nas HQs”. E ainda completa: “De uma forma geral, a percepção das pessoas quanto aos quadrinhos vem mudando cada vez mais, tem mais gente e gente de todo tipo se interessando e lendo HQs; eu fico feliz com a ideia de participar desse processo”.

Como tem sido expediente-padrão pensar nos quadrinhos ultimamente já com suas adaptações em mente, cabe a questão sobre eventuais pro Cara-Unicórnio FORA dos gibis, em outra mídias. “Por enquanto, o Cara-Unicórnio vai existir só nos quadrinhos mesmo. Mas quando sair o filme, o CGI vai ser caprichado e o elenco vai ser majoritariamente e assumidamente LGBT – o James McAvoy pode fazer o papel de algum coadjuvante importante, ok?”.

A gente apoia. ;)