Castle Rock: tá tudo conectado no Kingverse | Judão

Produção de JJ Abrams pro Hulu promete escancarar de vez uma conexão sutil que Stephen King já vem fazendo há anos em seus livros, em torno de uma cidadezinha fictícia do Maine. Ou seriam três?

Diz o comunicado oficial sobre Castle Rock, a mais nova produção original do Hulu e que terá como produtor executivo ninguém menos do que J.J.Abrams, por meio de sua Bad Robot: “uma série de horror psicológico que se passa no multiverso de Stephen King, combinando a escala mitológica e a construção de personagens intimistas dos trabalhos mais adorados de King para tecer uma saga épica de escuridão e luz, que se passa em um pequeno pedaço de terra no Maine”.

A gente tem certeza ABSOLUTA que a palavra que saltou aos seus olhos no meio de toda esta pomposa descrição, mais até do que o próprio nome de Stephen King, foi mesmo “multiverso”. Pois é. Até ele tá embarcando nesta onda de universos compartilhados, você deve estar pensando? Stephen King também quer criar a sua Marvel particular? Olha só, vamos ser justos aqui, isso não é exatamente uma novidade para o escritor. No máximo, agora temos King escancarando de vez algo que os seus leitores fiéis iam “costurando” entre seus livros de um jeito bem sutil, uma referência aqui, um easter egg acolá, dando a entender que as tramas se passavam num mesmo universo. A começar, obviamente, pelas cidades fictícias nas quais elas tão ambientadas.

Ele mesmo natural do Maine (mais especificamente da cidade de Portland), King quis que ficasse tudo em casa. Mas preferiu inventar três localidades geográficas específicas ao invés de fazer as histórias se desenrolarem em um lugar que existe de verdade. Uma delas está em evidência com a estreia de It: A Coisa, que é a pequena Derry. Ela é o epicentro sobrenatural da entidade devoradora de criancinhas, assim como o local onde rola a ação em Insônia (1994), Saco de Ossos (1998), O Apanhador de Sonhos (2001) e mesmo uma parte de 11/22/63 (2011). A outra cidade, obviamente, é Jerusalem’s Lot, recheada de sanguessugas em A Hora do Vampiro (de 1975, cujo nome original é Salem’s Lot) e frequentemente mencionada, por exemplo, nos três últimos livros da saga d’A Torre Negra.

E aí a gente tem Castle Rock, né. Que apareceu pela primeiríssima vez em 1979, na obra A Zona Morta (1979) e é a cidade da qual vêm os garotos da novela O Corpo, que originou o filme Conta Comigo, onde se localiza a lojinha de Trocas Macabras (ou Needful Things, de 1991), onde pinta o demoníaco cachorro de nome Cujo e de onde veio ninguém menos do que Red, grande amigo do protagonista e também o narrador do conto que se transformou no filme Um Sonho de Liberdade.

Isso, claro, só pra citar alguns dos principais eventos — porque o leitor suficientemente atento deve se lembrar de Castle Rock sendo minimamente mencionada por conta de eventos misteriosos, placas na estrada, estações de rádio, jornais e afins em pelo menos outros 20 contos/romances/novelas e demais formatos que King resolva trabalhar. Aliás, os fãs de cinema também já viram MUITO este nome antes mesmo de alguns de seus filmes favoritos começarem, já que a produtora Castle Rock Entertainment foi assim batizada em referência à cidade criada por Stephen King justamente porque um dos donos da dita cuja, Rob Reiner, dirigiu Conta Comigo.

Se você assiste ao teaser de Castle Rock, é claro que vai sacar os nomes de DEZENAS de personagens/localidades de toda a bibliografia de Stephen King, incluindo uma porrada que não teriam rigorosamente nada a ver com a cidade dos livros. Mas se a gente levar em consideração que, até o momento, os nomes dos personagens confirmados na série quase que não são diretamente relacionados à obra do autor, fica aí aquela dúvida no ar: gente, sobre o que caralhos vai tratar Castle Rock, afinal?

O que a gente já sabe, por exemplo, é que André Holland (Moonlight) será Henry, um procurador público que trabalha em casos envolvendo o corredor da morte (bom, deixo aí À Espera de um Milagre pra quem não pegou a deixa) e filho adotivo de Ruth Deaver (Sissy Spacek, a Carrie de oooooutra adaptação de Stephen King), uma professora aposentada que tem estranhas memórias do passado da cidade, do tipo que pode ajudar a solucionar um segredo. Que Melanie Lynskey (Togetherness) será Molly Strand, uma mulher com uma condição médica rara que tenta a vida como corretora de imóveis em uma cidade na qual praticamente toda propriedade é o pior pesadelo de alguém. Que Terry O’Quinn (Lost) será Dale Lacy, um dos “pilares” da comunidade local. E que até o próprio It em pessoa, Bill Skarsgård, tá no elenco como um sujeito que tem um problema legal “incomum”.

Ah, sim, sim, claro, a gente também sabe que Scott Glenn, o Stick dos Defensores, será Alan Pangborn, um xerife das antigas que presenciou alguns dos anos mais sombrios de Castle Rock. Alan é um personagem recorrente dos livros de King, aparecendo em Trocas Macabras e em A Metade Negra (1989). Em 1993, dois atores diferentes interpretaram o sujeito em adaptações cinematográficas — Ed Harris na versão de Trocas Macabras, enquanto Michael Rooker o viveu n’A Metade Negra dirigida por um George A. Romero curiosamente longe dos zumbis.

O Hollywood Reporter afirma que, por mais que os produtores digam tratar apenas de uma série contínua, fontes teriam confirmado se tratar muito mais de uma antologia que conecta os temas e personagens de King e que, a cada temporada, teremos foco em novas histórias e um novo grupo de personagens na mesma cidade. Faria sentido.

Já o Slashfilm, no entanto, tem uma teoria que poderia até complementar a história do THR, mas que desdobra a ideia de um jeito bem mais interessante. Na descrição dos personagens, perceba que a palavra “passado” é bastante mencionada. O que poderia acontecer aqui é que Castle Rock é uma espécie de Rogue One do Kingverse. Já vimos tudo que rolou em um sem número de filmes inspirados na obra de Stephen King. Mas talvez seja a hora de afastar a câmera um pouquinho e pensar: o que diabos tava acontecendo com o restante das pessoas da cidade enquanto as histórias que conhecemos há tanto tempo se desdobravam?

Dar um novo ponto de vista, um ângulo diferente, parece ser uma ideia beeeeeeeeeeeeem mais interessante do que recontar MAIS UMA VEZ, por exemplo, a história do Cujo encurralando a família dentro do carro. E, sejamos francos, é bem mais libertador em termos criativos para os roteiristas. Eu pego a história de Stephen King e, mais do que adaptar, eu desdobro, recorto, viro do avesso. Um parque de diversões bem mais gostoso de brincar. ;)

A data de estreia de Castle Rock ainda não foi definida, mas a produção dos 10 episódios deve começar ainda este ano, nas cidades de Devens e Orange, no estado de Massachusetts.