MC Loma, o brega e a tal da alta cultura | Judão

Reflita sobre o significado da sigla MPB. Já vamos voltar a ela.

Paloma, de 15 anos, e as irmãs Mirella e Mariely, ambas de 18, são três amigas que cresceram juntas em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. De origem humilde, elas nunca tinham comido um sanduíche (?) do McDonald’s na vida mas, pelo menos, sabiam se divertir juntas. Resolveram, só pelo sarro, formar um grupo, gravar umas músicas, jogar uns vídeos no YouTube. Improvisaram com umas lanternas mas passaram perrengue quando tiveram que chamar um produtor pra dar uma força no som e o cara queria cobrar 200 contos — que elas não tinham.

Mesmo assim, meio no quintal de casa, a faixa saiu. E quando a parada foi pra internet, BOOM. Assim, sem muito esforço, mais de 1 milhão de visualizações no YouTube.

Então. Se eu conto esta história toda aí dizendo que estas três minas formaram um trio de punk rock de garagem muito foda, de sonoridade selvagem, gravando seu primeiro disco independente na cara e na coragem, uma galera iria achar sensacional. Mas se eu contar que a Paloma se tornou a MC Loma e que Mirella e Mariely viraram as Gêmeas Lacração, muito provavelmente vai ter gente por aí fechando a cara. Vamo apostar?

Com toda certeza você deve ter ouvido, em algum momento deste Carnaval, o hit arrasa-quarteirão Envolvimento. Deve ter visto a Anitta (maior artista pop do Brasil na atualidade, é sempre bom lembrar) aderindo ao refrão da música nos stories e convidando o trio pra cantar com ela no Carnaval. Deve ter visto os elogios de gente tão diversa como Johnny Hooker, Wesley Safadão, MC Carol e até da drag sensação Shangela. Deve ter visto o Neymar dançando a música das garotas.

Deve ter visto que, além das milhões de visualizações do vídeo original, elas ganharam mais que o dobro com a versão feita pelo multiplatinado Kondzilla. Deve ter percebido que a música ultrapassou Vai Malandra nas plataformas de streaming. Não deve ter passado incólume pelos milhares de memes com expressões típicas do VERNÁCULO de Loma como “escama só de peixe” e “cebruthius”.

Deve ter percebido, também, que a música que estas três garotas ousaram fazer não é funk carioca. Ah, camarada, não mesmo. Porque o funk carioca a galera odeia, mas tolera. Não. Tem funk salpicado nesta bagaça, óbvio, mas o que elas fazem tem um nome muito claro. E que no Brasil é meio que um palavrão: BREGA.

É, esta palavra aí que virou sinônimo de feio, fora de moda, cafona. O brega, mais uma vez, desceu lá do Nordeste e veio assombrar esse mundinho do eixo Rio-São Paulo.

“Sempre tocou muito brega”, conta Loma, em entrevista ao Noisey, falando sobre o que rolava nas rádios pernambucanas enquanto ela crescia (e como a menina tem 15 anos, perceba que estamos falando de coisa de 2003 pra cá). “Se tocar um funk a gente fica muito surpreso. A gente conhece até os bregas que nossas mães ouviam, tipo Reginaldo Rossi, Vício Louco, Swing do Amor”, explica. No fim, o que elas fazem pode bem ser resumido como brega-funk, uma das muitas misturas de um gênero musical que os pernambucanos conhecem bem demais.

Escuta este tecladinho eletrônico venenoso em Envolvimento e, principalmente, no novo sucesso do trio, Treme Treme. Isso é o típico brega de Pernambuco, aquele mesmo que a Lei nº 16.044/2017 garante como sendo um bem cultural do estado. “Historicamente, os ritmos que vêm da periferia são discriminados. Aconteceu com a capoeira, aconteceu com o rap, com Bezerra da Silva e está acontecendo com o funk”, afirmou ao Diário de Pernambuco o deputado Edilson Silva, que propôs a lei. Desta forma, o brega se junta a outros gêneros como o coco, afoxé, baião, caboclinhos, capoeira, forró e manguebeat e tem garantida uma cota de 60% nas grades de eventos custeados pelos estado.

MC Loma e as Gêmeas Lacração fizeram claramente uma atualização deste gênero musical. Uma espécie de Rossi The King mais colorido, mais neon, mais cheio de brilho, com uma pitadinha eletrônica e muito, mas muito mais gay. AINDA BEM.

No caso de MC Loma, basta assistir aos vídeos e ver uma entrevista sequer pra sacar o motivo do sucesso — e é justamente por causa dela que o clipe original de Envolvimento, sem o toque de Midas do Kondzilla, é ainda melhor e mais representativo. Porque é mais roots, freestyle, mas principalmente porque dá pra ver que a Loma tá se divertindo um monte. A menina é carismática, faz caras e bocas, não tem o menor medo do sotaque e parece, sinceramente, estar cagando um balde pro que pensam dela.

...tanto quanto uma loiraça poderosa de nome Pabllo Vittar, tanto quanto o BTS e suas fãs tão cagando pra esta sua babaquice de “ah, no meu tempo era melhor“. No caso da MC Loma e da Pabllo, aliás, tem um agravante aqui, que é esta coisa toda da ALTA CULTURA. O arroto do erudito, sabe?

Recentemente, tem circulado naquela outra rede social lá, aquela que você sabe qualé, um post comparando os artistas mais vendidos / ouvidos dos dias de hoje com aqueles que em tese seriam os grandes sucessos de trinta anos atrás, 1987, 1988, enfim. Se hoje temos Pabllo, MC Kevinho, Simone & Simaria e Anitta, outrora as paradas eram dominadas por Roberto Carlos, Gilberto Gil, Gal Costa, Zé Ramalho, Marisa Monte, Legião Urbana e outros exemplos mais “nobres”, mais “cultos”, mais... sei lá, alguma porra assim.

“Isso sim é que era música!”, cravaria portanto a postagem, tratando funk, sertanejo e demais sucessos de vendas dos dias de hoje como algo menor. Não vou fazer juízo de valor e tampouco criticar (agora, pelo menos) este tipo de saudosismo velho e cansado, mas sim questionar que, vejam vocês, a tal lista não tem fontes. É, isso aí. De onde veio o tal levantamento oficial, se do ECAD (que, por si só, já é um mecanismo bastante questionável, vamos falar disso em algum momento por aqui), se do Pró-Música (antiga ABPD — Associação Brasileira de Produtores de Discos), se da ABCA (Associação Brasileira de Compositores e Autores)... Enfim, você entendeu. Mais um daqueles casos de notícia sem checagem, né? Ah, 2018 vai ser foda.

Caso você tenha repassado esta lista por aí, arrotando seu gosto superior e erudito, sugiro a leitura deste texto aqui.

De qualquer maneira, dá pra dizer aqui que é cansativo ter sempre que relembrar que a sigla MPB, esta tão revista de uma aura cult, fina, elegante, quer dizer nada menos do que MÚSICA POPULAR BRASILEIRA.

“O manguebeat trouxe a cultura popular, mas também muito ligada ao folclore, ao maracatu. Aí você junta todo o valor que o Estado sempre deu à cultura popular folclórica com a chancela cosmopolita de gêneros como o rock e hip hop. É a combinação perfeita, a embalagem perfeita da world music”, afirma o professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, Thiago Soares, também autor do livro Ninguém é Perfeito e a Vida é Assim: A Música Brega em Pernambuco, em entrevista ao Jornal do Commercio. “Essa combinação do tradicional com a máscara cosmopolita adere ao mercado internacional, aos festivais. E o brega nunca teve isso, mas ele sempre esteve presente e não deixa de ser cultura popular porque é feita pelo povo”.

BINGO.

MC Loma é brega, é funk, é MPB e, antes de qualquer coisa, é pop — que, vale lembrar, vem de “popular”. É diversão, é entretenimento. Ou, em outras palavras: não quer ouvir, não ouve. Não tem ninguém apontando uma arma e obrigando ninguém a apertar o play não. Vale a máxima: DEIXA AS PESSOAS CURTIREM O QUE ELAS TÃO COM VONTADE.

“Esse hit é chiclete, na tua mente vai ficar”. Pois é, gente. E ficou. ;)