Cemitério Maldito: tem vezes que é melhor permanecer morto... | JUDAO.com.br

É como se pegassem o original baseado no livro de Stephen King, enterrassem em um cemitério indígena, e ele voltasse completamente troncho

Cemitério Maldito é um clássico do terror sem precedentes. Lançado em 1989, contém uma história poderosa e repleta de requintes de crueldade sobre morte, perda e culpa, adaptada pelo próprio Stephen King em seu auge, e com uma música tema que se tornou tão famosa (ou até mais) quanto o próprio filme.

Quando chega aos cinemas brasileiros a refilmagem, ou “nova adaptação”, surfando na onda do sucesso estrondoso de It: A Coisa e na volta do escritor do Maine aos holofotes, aí sim você realiza de verdade o quanto o original é mesmo essa Brastemp toda, o tipo de filme que envelheceu super bem e não está nem um pouco datado, com sua trama ainda forte, atual e assustadora.

Tanto que, apesar das controversas mudanças – aprovadas pelo próprio King, por sinal – pouco ou quase nada foi alterado até a segunda metade do longa, quando acontece o fatídico acidente com o caminhão da Orinco (preste atenção no impagável easter egg do celular do motorista). Inclusive, tinha algo que me fazia a todo momento ter uma sensação que eu batizei de “Psicose por Gus Van Sant” e me perguntar: mas por que cargas d’água estão refilmando isso então?

Até lá, mesmo com uma derrapada ou outra, tipo transformar a Zelda em um monstro do J-Horror, ignorar a empregada com câncer no estômago, o rosto sem expressão de Jason Clarke em cada take, perder a oportunidade de explorar melhor a figura mítica do Wendigo (como no livro) ou até mesmo a força sobrenatural do cemitério Micmac (povo indígena que sequer é citado), o filme tem lá seus méritos e momentos interessantes.

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Todo o clima é bem mais creepy, lúgubre, trevoso que o longa de Mary Lambert, o que você pode colocar na conta da excelente dupla de diretores Kevin Kölsch e Dennis Windmye; a Rachel Creed de Amy Seimetz é muito melhor que a do original e coloca um tanto a mais de profundidade na personagem; Victor Pascow com o cérebro arrebentado chegando na enfermaria do Dr. Louis Creed é absurdo de gore; as crianças usando as máscaras para enterrar seus pets no cemitério (viu o que eu fiz aqui?) também é pra lá de sinistro, pena que completamente mal exploradas, até por este trecho ter sido vendido como peça de marketing com destaque mas que, bem, tem uma participação inócua; a Ellie é uma gracinha de empatia e o gato, gente, o que é aquele Church maravilhoso? Melhor personagem.

Tudo isso são, de alguma forma, coisas boas.

Mas aí vem o terceiro ato que destrói com gosto tudo que havia sido construído até então. E não tô falando de mudarem a personagem morta feat. enterrada e trazida de volta. Disso, se alguém reclamar, é ou tiozão do terror ou clubista, porque é louvável que os envolvidos tenham tentado dar uma nova roupagem e andar com suas próprias pernas a partir de um determinado ponto. Mas o problema é que dali pra frente tudo vira clichezão do terror mainstream, banalizam a pobre morta-viva com suas frases de efeito e maldade de farmácia, e tudo tem que descambar para confronto e ação, típico do horror pipoca moderno.

A partir deste trecho, Cemitério Maldito deixa de ser punk rock como o original, deixa de ser Ramones e vira, vira... Starcrawler!

Fica principalmente aquele gosto de terra na boca (hein? hein?) porque o talento dos dois cineastas foi desperdiçado, sem um pingo de direção autoral, entregando um filme de estúdio e ponto. E estamos falando dos mesmos realizadores do acachapante Starry Eyes, um dos melhores filmes do gênero da década, e do bizarríssimo segmento Valentine’s Day da antologia Holidays. Baita potencial jogado fora em um terror que, no frigir dos ovos, se torna apenas meramente razoável.

Se às vezes a morte é melhor? Nesse caso não dá pra dizer que é para tanto. Mas dá pra dizer que é como se pegassem o original, enterrassem em um cemitério indígena... e ele voltasse completamente troncho. Mas não tenho dúvidas que Cemitério Maldito vai acertar em cheio no público médio – para quem ele é milimetricamente construído – e vai se tornar um sucesso. ¯\_(ツ)_/¯