Rei Arthur: Charlie Hunnam perdeu uma chance de ficar calado

O ator principal de Rei Arthur e a Lenda da Espada tá meio puto com a reação dos críticos ao filme. Mas deixa eu te contar que ESTE filme eu também já vi…

“Nem sei dizer o quão pouco me importo em agradar os críticos. Você não se importa com aquelas frias e tímidas almas que estão no camarote... Parados lá, só assistindo, porque eles nunca saberão o que é fracassar ou ter sucesso. Eles só vivem uma vida patética e rasa, só observando”. A frase é de Charlie Hunman, protagonista de Rei Arthur: A Lenda da Espada, em entrevista recente para o G1, ao comentar a péssima recepção da produção.

Mas poderia tranquilamente ser, por exemplo, do Ben Affleck, que no programa do Jimmy Fallon disse que Batman VS. Superman não era um filme de críticos. “É um filme de público. As pessoas vão gostar dele”. Ou, quem sabe, de David Ayer, diretor do Esquadrão Suicida, que soltou no Twitter que aquele era um filme “feito para os fãs”. Foi por esse mesmo caminho que Finn Jones, o protagonista de Punho de Ferro, seguiu. “O que eu vou dizer é que esses shows não são feitos para críticos, eles são primeiramente feitos para os fãs”, disse ele em entrevista ao Metro, chegando ainda a colocar a culpa das críticas ruins em ninguém menos que Donald Trump em uma outra entrevista.

Enquanto você fica aí pensando sobre o que estes três filmes e essa série têm em comum, a gente fica aqui tentando entender justamente porque tá virando expediente-padrão tentar justificar uma performance bosta de um filme ruim dizendo que “os críticos não entenderam” ou “este filme não é para os críticos”.

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Lidando com críticas

Hunnam, meu velho. Nem o público abraçou o seu filme. Basta ver a bilheteria bem mirrada que o dito cujo teve no seu fim de semana de estreia nos EUA. Até os executivos da Warner admitiram que o resultado ficou bem distante do esperado. “Acho que entre a concepção e a entrega, este projeto não se desenvolveu do jeito que queríamos”, afirmou Jeff Goldstein, presidente de distribuição doméstica do estúdio.

Vamos focar aqui na coisa do “críticos só vivem uma vida patética e rasa, só observando”. Qual é o problema de aceitar que teve gente que não gostou de algo que você fez, mano? Segue em frente. Toca a vida. A gente pode errar, a gente pode fazer merda. É normal, natural. Este papo de “não, o filme é bom, você é que não entendeu” já deu no saco, cara. E sei lá... Fica meio VERGONHOSO, sabe?

Já falamos bastante sobre o papel do crítico aqui no site (aliás, tem até uma edição especial do ASTERISCO sobre isso, vale a pena ouvir), mas não custa ressaltar: não, um crítico NÃO é um artista frustrado, apesar da frase ter virado um chavão automático, aquela coisa de “Ah, é? Então faz melhor!”. O crítico deve ser, antes de tudo, um estudioso e especialista em sua área. É um teórico. Não precisa necessariamente ter o talento natural para a música/cinema/quadrinhos ou o que for. O crítico de música não precisa ser músico –- ele precisa é ENTENDER de música, transfigurando-se em alguém que possa servir de ponte entre o músico e seus ouvintes, oferecendo novas informações e camadas sobre aquele som.

Neste texto aqui, a gente inclusive ressalta qual é o PAPEL do crítico – o de servir como uma espécie de bússola, uma orientação, uma opção, mas nunca como verdade definitiva. Se você está lendo a MINHA crítica, saiba que ela está imbuída da MINHA opinião, baseada nas MINHAS experiências. Não, críticos não são e nem devem ser imparciais.

Um crítico precisa, isso sim, ter boa argumentação para expor e defender suas opiniões e ideias, um bom embasamento cultural, para ir além do “gostei”, “não gostei” e acabou. Precisa ter, principalmente, PERSONALIDADE.

Mas, senhoras e senhores, aí vem a impressionante surpresa — por favor, tomem cuidado, se segurem onde quer que estejam: um crítico TAMBÉM pode ser um fã. Aliás, normalmente, um crítico é um fã. Tão fã que foi atrás de estudar e conhecer mais e mais e mais, aí percebeu que também escrevia bem e resolveu transformar nessa a sua profissão.

Da mesma maneira que normalmente um ator é tão fã daquilo que vê que ele vai, estuda, conhece mais e mais e percebe que pode fazer igual, ou melhor, ou diferente. O mesmo vale pra diretor, músico, escritor...

Aqui no JUDÃO, por exemplo, também somos leitores de quadrinhos, de livros, filmes... Não tem esta de filme de FÃ e filme de CRÍTICO. Um filme é na essência uma boa história. Que pode falar com públicos diferentes, mais adulto, mais teen, com uma experiência X ou Y. Mas que, no coração da coisa toda, fala com GENTE. Ponto.

Como eu disse aqui, Rei Arthur não funciona como nada que tenta ser em sua existência esquizofrênica. Entenda isso, Charlie. Às vezes, a gente faz cagada. E quando é uma cagada pública, vai ter gente de tudo que é lado apontando o dedo pra ela. Acostume-se, meu velho. Daqui a pouco você tá em outra... Não deu certo com Pacific Rim ou em Sons of Anarchy?

No fim das contas, reforço que a opinião que mais importa é a SUA, querido leitor. Aprenda a formá-la de maneira sólida, lendo múltiplos argumentos diferentes. E encerro da mesma maneira em que já encerrei quando eu ainda era apenas um colunista de música aqui no JUDÃO: seja o juiz de si mesmo. Você consegue.