Chega de Saudade: um clássico em dois atos | JUDAO.com.br

O pontapé inicial do que pode ser chamado bossa nova ficou famoso na voz de um cantor que nos deixou recentemente — mas também ganhou uma inesperada versão em outra saudosa voz, devidamente celebrada lá fora

O primeiro ato desta história começa lá em 1956. Este foi o ano em que Tom Jobim, na época com seus 27 anos, tava no sítio da família em Poço Fundo, região serrana do Rio de Janeiro, e começou a compor no violão um tipo de samba-canção, dividido em três partes. Gostou tanto do resultado que, quando foi oficialmente apresentado ao poeta Vinícius de Moraes, já de volta à capital fluminense, deixou nas mãos do futuro parça a música, em busca de uma letra.

Numa crônica publicada no jornal Diário Carioca, em 1965, Vinicius admitiu que demorou para escrever o acompanhamento da canção — da qual, leia-se, gostou de imediato. “Uma música nova, original, tão brasileira quanto choro de Pixinguinha ou samba de Cartola”, admitiu. Quando finalmente finalizou a sua parte, o poetinha resolveu levar o resultado (que tinha sido tratado com desdém por sua esposa, “imagina, que bobagem, rimar peixinhos com beijinhos”) pessoalmente para o maestro Tom, que morava a poucos quarteirões.

Nascia Chega de Saudade.

Quer dizer... mais ou menos. Porque para a canção ganhar de verdade o corpo que a tornou icônica, a faixa que catapultou a bossa nova enquanto movimento musical, faltava um terceiro pai nesta equação. No caso, um outro jovem, bem mais introvertido do que a dupla, mas igualmente com um gosto peculiar pela experimentação. Egresso da Bahia, João Gilberto já tinha tentado uma carreira no mercado fonográfico carioca no começo dos anos 1950, mas não conseguiu seguir em frente como gostaria. Integrou grupos musicais sem muito destaque, só que faltava algo. Abandonou a Cidade Maravilhosa e, nos anos que se seguiram, quase que num exílio, passou por uma surpreendente transformação, tornando-se o João mais próximo do artista cheio de sutilezas que o mundo conheceria pouco depois. Um estilo complexo e sofisticado, do tipo que passou a chamar atenção de quem estava ao seu redor.

De volta ao Rio, em 1957, o músico se focou primeiro em seu violão — que usou para acompanhar cantores como Elizeth Cardoso. Em seu álbum Canção do Amor Demais, João Gilberto tocou em duas faixas: Outra Vez e, vejam só, Chega de Saudade. “Rolou um mal-estar quando João, um violonista até então desconhecido, tentou ensinar a Divina Elizeth a cantar Chega de Saudade“, afirmou o jornalista Zuza Homem de Mello, que biografou o cantor no livro de 2001 que leva seu nome, numa entrevista para a BBC Brasil. João fez questão de participar dos ensaios na casa de Tom Jobim. “João queria que ela cantasse como ele cantava. Foi uma audácia”.

O disco de Elizeth Cardoso sairia naquele mesmo ano — mas João não estava satisfeito. Aí, como uma espécie de PRELÚDIO para o seu próprio álbum, a ser lançado em 1959, ele colocou no mercado um single/compacto em 78 rotações com a sua própria versão para Chega de Saudade, violão e voz. Com produção de Tom e apoio de um outro grande nome da época (no caso, ninguém menos do que Dorival Caymmi), este disco com apenas duas canções — a outra era Bim Bom — foi o máximo que se conseguiu fazer que Aloysio de Oliveira, o diretor artístico da Odeon, na época a principal gravadora do país, aceitasse para um desconhecido João Gilberto.

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

O caso é que o tal “desconhecido” era alguém que há cerca de 1 ano contagiava um grupo de músicos e intelectuais cariocas que pensavam demais numa espécie de reformulação/revolução do samba. Com o reforço daquela galera toda, João Gilberto partiu pra cima: já bastante perfeccionista, quase enlouqueceu técnicos, orquestra e até o próprio Tom em busca da versão perfeita. Quase rolou um motim, mas o músico não deu pra trás e pisou firme. No fim, conseguiu. Surgia uma voz única, uma batida diferente, um violão dissonante, um samba que começava o flerte com o jazz.

Em entrevista pro Estadão, Zuza relembra que Tom costuma dizer que Desafinado, sua parceria com Newton Mendonça que João Gilberto gravou em OUTRO compacto, tinha mais dos elementos formadores da bossa nova do que a própria Chega de Saudade. “Tom considerava que Chega de Saudade tinha uma estrutura mais de choro que de samba, ao passo que Desafinado, gravada exatamente quatro meses depois, no dia 10 de novembro de 1958, já inova também no aspecto da letra”.

De qualquer forma, foi outra coisa que entrou para a história. E que fez João, o gênio que perdemos há poucas semanas, ser quem é para a história da música brasileira.

O segundo ato começa lá no início dos anos 1990. E também envolve um músico meticuloso, um estudioso que estava menos interessado nos holofotes e mais em encontrar sua própria voz, sem medo de experimentar, de ousar, de misturar, de transgredir — um músico que se tornou sinônimo de seu gênero musical aqui no Brasil e que, infelizmente, também nos deixou nas últimas semanas: Andre Matos.

Quem conhece a trajetória do vocalista de bandas como Viper, Angra e Shaman já tá ligado que ele tinha um interesse particular não só por rock mas também pela música clássica. De formação erudita, ele ganhou o primeiro piano ainda moleque, presente do avô, e começou a fazer aulas pra se aprofundar no instrumento. Dizem os mais próximos, porém, que ele também chegou a fazer aula de tamborim, já que tinha um interesse bastante particular por música brasileira, o que inclusive o levou a intensificar uma série de estudos sobre samba ainda na adolescência, por mais que o visual Bruce Dickinson à frente do Viper não desse indícios disso.

“A gente viajou muito, eu e o Andre, pra fazer a divulgação dos discos. Eram momentos em que estávamos só eu e ele. E a gente tocava música brasileira nos encontros com os fãs lá fora”, conta o guitarrista Kiko Loureiro, ex-parceiros de Angra e hoje no Megadeth, em vídeo no seu canal do YouTube. “Lembro quando faleceu o Tom Jobim, estávamos num show no AeroAnta (SP), eu e ele decidimos então tocar Chega de Saudade, voz e violão, pra homenagear o Tom. A gente era muito fã da música brasileira, a gente tocava junto nestas viagens, era algo que acabava unindo a banda e eu e ele também, esta coisa de saber de cor as músicas da bossa nova”.

Pois é. Mas Chega de Saudade na voz do Andre, na real, foi algo que apareceu um pouco antes. E nem foi no Brasil, mas sim na França. O que rolou foi assim: o primeiro disco do Angra, Angels Cry, saiu em 1994. Claro, a ideia ali era surfar a onda do metal melódico que estava bombando não só aqui no Brasil mas também no Japão e na Europa, inspiradíssimo pelo que bandas como o Helloween vinham fazendo. E isso o álbum apresenta maravilhosamente bem. Todavia, quando pinta uma canção como Never Understand, que tem uma levada meio baião, já fica clara uma semente do que se desenrolaria pouco depois na obra-prima do grupo, o disco seguinte intitulado Holy Land.

Só que antes de Holy Land dar as caras, numa destas turnês promocionais que o Kiko mencionou acima, a banda passou pela França e acabou sendo convidada para uma performance acústica numa loja da FNAC em Paris. O ano era 1995. A apresentação foi gravada e se tornou o raríssimo EP/Bootleg Live Acoustic at FNAC. Lançado primeiramente na França como um CD bônus nas 8 primeiras mil cópias francesas de Holy Land e depois devidamente reeditado em outros países, o álbum tem apenas três faixas.

Além da própria Never Understand mencionada acima e da faixa-título do disco de estreia, Angels Cry, Andre contou com o dedilhar do Kiko numa versão linda e emocionante de Chega de Saudade, com direito inclusive ao vocalista gastando todo o seu francês pra introduzir a canção. Os franceses, obviamente, foram ao delírio.

O mais legal aqui é que não estamos falando de uma versão METAL da faixa. Porra nenhuma. A faixa é uma delícia justamente porque temos o Andre cantando de um jeito bem doce, delicado, que obviamente tem a sua assinatura própria — não, não é ele imitando o João Gilberto em seu jeitão econômico e certeiro, que fique claro — mas o resultado final é evidentemente um samba-canção. Ponto.

Quando este disco (hoje dificílimo de ser encontrado, do tipo que não está em nenhuma plataforma de streaming, por exemplo) caiu nas mãos da turma de metaleiros do lado de cá, vejam vocês, foi um pega pra capar. O que tinha de gente reclamando, não tá no gibi. A mesma galera que já tinha chiado com a introdução de Asa Branca em Never Understand, que já tinha achado bizarro o tal do Angra, aquele com o vocalista do Viper que todo cabeludo amava, fazer um cover de Wuthering Heights da Kate Bush. Sim, esta mesma galera, que foi bastante vocal ao dizer que aquilo era uma espécie de traição, que, pro metal flertar com a MPB, era flertar com o INIMIGO (eu, em pessoa, escutei esta frase na finada Adega Marrocos, em Santos, acredite)... Imagina quando esta turma toda aí escutou os batuques todos do disco Holy Land, então? Eu não preciso imaginar porque vi acontecer in loco, uma turma praticamente arrancando os longos cabelos, como assim, que absurdo, sabe? Um absurdo tão grande ou ainda maior do que o Sepultura gravar o Roots.

Ainda bem que, da mesma forma que o próprio João Gilberto, o Andre Matos não deu a mínima e simplesmente seguiu em frente. Que é pra onde a gente tem que sempre seguir com a música DE VERDADE. Porque sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim. Não sai.