Chelsea Cain solta o verbo sobre Visão, Marvel e o mercado de HQs | JUDAO.com.br

Roteirista diz que poderia ter ficado quieta sobre o assunto. Como ficou sobre a Harpia. E como pediram pra ela ficar sobre o cancelamento da nova série do sintozóide. Maaaaas…

Todo leitor de gibis ficou com aquela cara de “MAS GENTE?” quando a Marvel, do total e absoluto nada, sem aviso, cancelou The Vision, o que deveria ser uma continuação do elogiadíssimo gibi de Tom King ANTES do seu lançamento. A mini em seis edições sairia em Novembro, foi anunciada com pompa e circunstância na San Diego Comic-Con em Julho, já tinham até liberado previews e as solicitações pras lojas e aí CUÉN.

Aparentemente a Casa das Ideias teria “outros planos” pro Visão e pra sua filha adolescente, Viv. Mas se este era realmente o caso, por que cancelar assim, à queima-roupa, algo que vinha sendo trabalhado há cerca de dois anos? Nem a roteirista, Chelsea Cain, conseguiu entender a decisão. Mas, diferentemente do que costuma acontecer neste mercado, ela falou sobre o assunto.

E bastante.

Primeiro foi no Twitter, quando deixou claro que “a Marvel me pediu pra ficar ‘quieta’ porque aparentemente eles não me conhecem. OI CARAS, EU SOU AQUELA QUE É UM PÉ NO SACO, LEMBRAM DE MIM AGORA?”. Sem medo de (se) expor, ela depois complementou: “Sabe o que eu percebi? Acho que a Marvel pensou que eu ficaria quieta sobre esta coisa de terem ‘matado’ o gibi do Visão porque eu fiquei quieta depois que a Harpia foi cancelada. Deixem eu esclarecer. Eu estava quieta porque eu estava com medo. Mas não da Marvel. E sim da internet”.

Em 2016, Cain abandonou o Twitter depois daquele episódio do gibi da Harpia. Com a revista cancelada após o OITAVO número, ela usou suas redes pra pedir pros fãs pressionarem a editora a ter um outro gibi no lugar que também tivesse uma heroína chutando bundas e pronto, o esgoto da internet se abriu. Os imbecis descobriram o viés feminista das histórias que nunca tinham lido até aquele momento e ficaram putos principalmente com a hoje já icônica capa da camiseta “Ask Me About My Feminist Agenda”.

Mas sabe que, NAQUELA ÉPOCA, a Chelsea já tava trabalhando neste gibi do Visão? Pois é.

“Eles me ofereceram este trabalho em Julho de 2016. Naquele momento, o gibi da Harpia tinha sido cancelado na surdina depois do número 3, mas me pediram que não tornasse isso público até que o OITAVO número fosse publicado. Eles estavam permitindo que a gente terminasse nosso arco”, explica Chelsea, numa entrevista pra EW. “A maravilhosa passagem do Tom King pelo Visão ainda estava sendo publicada, mas aí ele saiu da Marvel e assinou exclusividade com a DC, então a Marvel sabia que aquilo era o fim. Me pediram pra contar uma história do Visão focada em sua filha adolescente, a Viv, que naquele momento tinha acabado de ser apresentada no Universo Marvel. Eu sugeri a ideia do meu marido escrever comigo. Marc [Mohan] é escritor e fizemos juntos um livro ilustrado chamado Does This Cape Make Me Look Fat? Pop Psychology for Superheroes. Além disso, temos uma filha adolescente. Então, Marc tem uma perspectiva única sobre este assunto”.

Então, quando a Harpia se encerrou publicamente e o Twitter explodiu, ela e Marc já tavam trabalhando no Visão tinha um tempo, depois de meses delineando a trama, negociando contratos e pesquisando pro roteiro. “Enviamos uma primeira ideia do que seria o primeiro arco completo. Em setembro de 2017 – um ano atrás – mandamos o roteiro do número 1. Em dezembro, tivemos um desenhista confirmado, o maravilhoso Aud Koch, um retorno editorial, e pisamos no acelerador. Trabalhamos de maneira bem sólida nos últimos seis meses. Os primeiros três números estão desenhados, enquanto o primeiro está até colorido. Todos eles têm lindas artes de capa”, conta ela.

A série foi anunciada em Julho e as solicitações das lojas começaram oficialmente há cerca de 1 mês. Chegamos a liberar previews, eles fizeram propaganda disso. Por que chegar neste ponto, apenas pra tirar o projeto da tomada?

Chelsea revela ainda que a principal inspiração foi no próprio relacionamento do casal com sua filha, de 13 anos, transformando esta numa história de pai-filha. “O gibi seria a respeito dos esforços de um homem emocionalmente atrofiado para alcançar e se conectar com sua filha adolescente. Se isso não é uma metáfora para a indústria dos quadrinhos, não sei mais o que é”.

E aí é que a conversa vai pra um lado bastante interessante, quando Chelsea analisa o cancelamento repentino por meio de uma dinâmica que poucos leitores enxergam, na qual quase todos os criadores são freelancers com poder limitado. “A indústria dos quadrinhos é feita de freelancers. Certamente qualquer gibi da Marvel ou da DC é o trabalho de diversos freelancers: coloristas, desenhistas, letristas, capistas e roteiristas. Os editores trabalham para a empresa. Os freelancers não”.

Ela lembra que, sim, talvez alguns destes freelas tenham contratos de exclusividade, conforme Marvel e DC gostam de anunciar em alto e bom som sempre que a canetada é dada. Mas segundo Chelsea, isso significa que eles ganham uma grana a mais por página, sim, mas continuam sem benefícios ou proteções, além de não poderem trabalhar pra ninguém mais. “Basicamente, cada HQ americana que você pega na mão é feita por alguém sem plano de saúde. Mas a indústria espera que estes freelancers se comportem como funcionários. Ditam o que eles devem falar e quando falar. Eu já disse isso antes, mas esta indústria é um processo judicial em grupo esperando pra acontecer. É surpreendente”.

Sabe aquela coisa do PJ fixo, que quem trabalha no mercado de comunicação aqui no Brasil conhece bem e que vai se tornar cada vez mais comum com a tal da reforma trabalhista? Então. Bem por aí mesmo. ;)

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Ela afirma que foi este tipo de situação que a deixou sem muitas proteções institucionais quando começou a campanha online contra o gibi da Harpia. “A Marvel me fez passar por muita coisa nesta época. Eu tinha zero proteção corporativa. Ao longo do processo, tentei ser parte de uma mudança positiva vinda do lado de dentro – uma mudança silenciosa, porque eles literalmente me pediram pra não dizer nada sobre o projeto. ‘Aguenta firme’, eles ficaram dizendo. Isso arrebenta meu coração. Porque acho que passa uma mensagem terrível. E eu amo esta marca. E amo estes caras. E amo quadrinhos”.

E aí é que vem a parte mais foda, que é quando ela diz que a parte mais chocante de tudo isso é que as pessoas que trabalham tanto na Marvel quanto na DC e que dão apoio a estas regras institucionais são justamente as melhores pessoas com as quais você gostaria de trabalhar. “Meu editor neste projeto do Visão, Wil Moss, é uma das pessoas mais amáveis e talentosas do mundo dos gibis. Eu nunca tive literalmente nenhuma interação negativa com ninguém da Marvel. Eles nunca me deram nada além de retornos positivos. Eles amam gibis”. Mas, para ela, mesmo num ambiente cujo CLIMA CRIATIVO é bom, os freelancers são mantidos reféns por seu trabalho. “Quando a Marvel te pede pra deixar algo pra lá, as implicações são claras. DC e Marvel dominam a indústria. Freelancers não querem ser inimigos das instituições, porque freelancers dependem do próximo trabalho que vai chegar”.

No fim, analisando o mercado de quadrinhos tanto pelos problemas estruturais da parte de dentro quanto pela reação de determinada parcela de fãs, Chelsea Cain acaba reforçando uma visão que já tinha levantado no passado, em seu blog pessoal: estamos falando de algo bastante diferente de sua experiência como escritora de livros. Porque, lembremos, ela vem trabalhando no mundo editorial desde 1996 — e escreveu uma elogiadíssima série de livros estrelados pela dupla Archie Sheridan (policial) e Gretchen Lowell (serial killer). Os três primeiros, Coração Ferido, Coração Apaixonado e Coração Maligno, já saíram aqui no Brasil, inclusive, como uma trilogia chamada Beleza Mortal.

“Leitores de quadrinhos são, em 99% dos casos, as melhores pessoas que você quer conhecer. Os outros 1% podem ser realmente malvados. Na minha experiência, esses são um tipo diferente de malvados. São misóginos, cheios de escárnio e com obsessão para derrubar as outras pessoas”, disse ela, na época. Neste papo com o EW, a autora completa: “minha experiência sobre este mercado? Isso não me pertence. Isso fica acontecendo de novo, de novo e de novo. Eu sou apenas uma das poucas malucas o suficiente para dizer isso em voz alta. Tenho uma filha de 13 anos que adora gibis. Eu costumava ser uma garota de 13 anos que amava quadrinhos. Eu vejo minha filha. Eu vejo a experiência dela. Eu vejo vocês. Nós vemos vocês”.