Quando o rap e o funk viraram o novo punk | JUDAO.com.br

This is America. And this is Brasil também, com S, pra quicar e rebolar.

Quando a gente olha a lista dos textos mais acessados do ano no JUDAO.com.br dentro da área de música, dá de cara com dois primeiros colocados que aparentemente não têm relação nenhuma entre si: This is America, o single-clipe-manifesto de Donald Glover, aka Childish Gambino, e a nossa ELEGIA a ninguém menos do que MC Loma e as Gêmeas Lacração.

O grande ponto é que, sim, tem muito em comum entre Gambino e Loma. Ambos são, cada um a sua maneira, vozes da periferia, de lá e de cá. E que falam da mesma forma poderosa ao coração e à realidade de uma nova geração, uma nova juventude. Se outrora o punk era o retrato nu e cru do mundo ao nosso redor, rasgando a fantasia em um cotidiano sem eira bem beira, provocando e invocando a rebeldia contra o mainstream, contra o lugar comum, este papel hoje cabe muito mais ao rap e, de maneira mais local, mais brasileira, ao funk. Se for um funk com pé no brega e vindo lá do Nordeste, aí a coisa pega MESMO.

Sabe quando, três longínquos anos atrás, o Seu Jorge disse “sou do subúrbio, lá o rock não chegou”? Pois é, a gente já falou sobre isso aqui, mas não custa lembrar que ele tava certíssimo. Foi o hip hop que acabou criando uma conexão direta com a realidade do moleque meio sem esperanças da periferia, que ouviu alguém cantar de maneira direta, reta, brutal e agressiva sem precisar de uma guitarra berrando alto.

Childish Gambino e MC Loma herdaram e reinterpretaram, cada um deles, dois aspectos fundamentais que eram típicos do punk rock mas que o próprio gênero musical sempre associado ao questionamento político e social foi perdendo e dissipando, salvo algumas raras exceções, ao longo dos últimos anos.

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This is America, esta música incrível, virou o mercado fonográfico norte-americano do avesso principalmente por causa de seu poderoso clipe. Tal qual se esperaria de um bom clássico dos idos do punk, ela manda uma mensagem pé na porta e soco na cara, sem problema algum em INCOMODAR sem necessariamente precisar EXPLICAR detalhe por detalhe. Em um galpão gigantesco que representa todo um país, o dele e também o nosso, Glover/Gambino desfila referência atrás de referência, algumas fáceis de entender, outras bem mais sutis, em muitas camadas pra escancarar o racismo presente hoje e desde sempre.

É uma obra sobre violência contra o negro, sobre aquela que nos impressiona mas, principalmente, sobre aquela que está tão enraizada no nosso dia a dia que a gente já passa a aceitar, sem questionar, como parte do cotidiano, naturalizada. É uma versão ainda mais intensa dos Sex Pistols, por mais pesares que se tenha a respeito do quarteto, enfiando o dedo na cara da monarquia britânica em um misto de raiva, confusão e frustração, a voz de uma juventude sem futuro em meio a um cenário de crise econômica. Te lembra algo? Pois é. Agora eleve isso à décima potência, já que estamos falando de uma juventude NEGRA, que tem que encarar a desesperança e o racismo como parte de um único pacote.

Sim, sim, a gente sabe que, da mesma forma que rolou com o punk em algum momento pós-1977, o rap começou a ser absorvido pelo pop na última década, o que pode não resultar sempre em entregas geniais, claro, mas é um movimento absolutamente natural. O grande ponto é que, mesmo assim, o ritmo e a poesia do rap ainda resistem. E para cada novo artista surgido das entranhas da indústria e cujas rimas têm o objetivo único de divertir (o que não é, vejam, um problema em si, embora cada caso seja um caso a ser discutido isoladamente), temos aí um Childish Gambino ou mesmo um Kendrick Lamar da vida preparados para incendiar tudo pelo lado de dentro, sem se preocupar com o que os executivos engravatados vão pensar.

Paralelos não faltam por aqui, é bom que se diga, sem complexo de vira-lata: de Criolo a Emicida, de Rincon Sapiência a Baco Exu do Blues (que, por sinal, fez um dos melhores discos DO ANO), os brasileiros estão igualmente dispostos a mandar a real, assumindo o papel com o orgulho que outrora envergaram uns branquelos de roupa rasgada e moicano na cabeça.

Trazendo o papo pro Brasil, aliás, a jovem Paloma e suas duas amigas, as irmãs gêmeas Mirella e Mariely, todas EGRESSAS de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, são a representação clara do DO IT YOURSELF que foi o grito de guerra do punk durante muitos e muitos anos.

Da mesma forma que todas as boas bandas do gênero, o trio não sabia porra nenhuma de música mas resolveu fazer um som que elas já curtiam juntas. Sem grana, nem ao menos duzentos contos pra bancar o apoio de um produtor, fizeram tudo na base do improviso, sem medo de arriscar. Mas estamos falando do mundo digital. Ao invés de gravar um demo de sair distribuindo de mão em mão junto com um zine P&B, elas fecharam um clipe meio tosqueira, mas tá valendo, e meteram no YouTube.

Paloma, Mirella e Mariely viraram MC Loma e as Gêmeas Lacração — e o vídeo, Envolvimento, viralizou, ultrapassou 47 milhões de visualizações (isso no que elas mesmo produziram, já que o remake do KondZilla já conta com mais de 237 milhões de views), e rapidamente elas começaram a fazer shows por todo o Brasil, gravar novas faixas e lançar uma seleção de novos vídeos / memes, dar as caras em espaços que jamais imaginariam e fazer seus jargões como “escama só de peixe” caírem na boca do povo. Tudo isso assim, com menos de 18 anos, mas com uma personalidade e naturalidade impressionantes.

Fala sério se isso não é mais punk do que muito punk anda fazendo por aí?

O que a MC Loma faz não é apenas e tão somente funk, um gênero musical que nasceu na periferia mas que, tal qual o rap, acabou sendo de certa forma “absorvido” pelo mainstream. Ela é uma garota nordestina, portanto de fora do eixo Rio-São Paulo, fazendo funk com uma pitada de música BREGA, este verdadeiro palavrão que virou sinônimo de feio, fora de moda, cafona. Em 1977, naquele ano da explosão do punk, claramente as bandas fazendo seu som simples com três acordes eram uma resposta à sonoridade grandiloquente e épica do rock progressivo, com canções imensas, dezenas de camadas de instrumentos, discos conceituais sobre diferentes mitologias... O punk chegou curto e grosso falando sobre política, sobre as ruas pegando fogo, sobre coisas que tavam nas manchetes dos jornais.

O pop bonitinho e superproduzido do Sudeste tá aqui e ali, tá na TV e nas rádios, tá no Deezer e no Spotify, cheio de luzes, cores, pra bater cabelo na pista. O Sudeste, que dita tendências, já se acostumou, engoliu e fagocitou o funk carioca. Aí a MC Loma seguiu a trajetória do tecnomelody paraense de Gaby Amarantos e meteu um tecladinho eletrônico venenoso pra tornar ainda mais cheio de estilo o seu brega-funk. Incomodou, meteu um “eita, que porra é essa?” na cabeça do paulista e do carioca, ajudou a enfiar de novo o dedo na cara da tal ALTA CULTURA, do erudito, como invariavelmente fazem vez por outra alguns representantes musicais que têm a coragem, ora veja, de sair do Nordeste pra falar de um jeito que a gente por aqui infelizmente pouco conhece e reconhece.

O que MC Loma e as Gêmeas Lacração fazem é punk na essência

E conseguiu. E deu certo. E colocou pra dançar, pra descer, pra subir, pra quicar e rebolar. Porque mexer a raba também é cultura, da mesma forma que os três acordes também eram cultura diante do arroto de prepotência de quem achava que música boa precisava durar 14 minutos e falar sobre Odin ou Senhor dos Anéis.

Isso é punk na essência. Isso é punk pra caralho. Do jeito que os punks, em especial os das antigas, em especial os brasileiros, velhacos que fizeram história de contestação e hoje tão por aí por algum motivo que não dá entender apoiam discursos reacionários de outras eras, ainda deveriam estar fazendo.