Cicatrizes e demônios na nova temporada do Justiceiro | JUDAO.com.br

A mais madura das séries Marvel / Netflix amarra todas as pontas soltas de um jeito tão inteligente e eficiente que até parece estar se preparando para o cancelamento…

Olha, eu sei lá se o Steve Lightfoot, showrunner da série do Justiceiro lá no Netflix, já tava ligado de um potencial cancelamento da parada — por mais que provavelmente nada tenha sido avisado pro cara assim, de antemão, basta ver o que rolou nas CO-IRMÃS Demolidor, Punho de Ferro e Luke Cage e toda a conversa sobre o serviço de streaming da Disney pra somar 2 + 2. De qualquer forma, proposital ou não, o fato é esta segunda temporada que acabou de estrear funciona lindamente como um fechamento para a jornada de Frank Castle, aquela que começou no ano 2 do Homem Sem Medo e se expandiu na temporada inaugural de seu seriado solo.

As pontas dos principais personagens se amarraram numa conclusão que é muito diferente daquelas que pudemos ver para Danny Rand, Luke Cage e Matt Murdock. No caso destes três últimos, claramente os produtores construíram deixas que permitiriam novas temporadas ou, bom, minimamente as aparições potenciais de protagonistas/coadjuvantes em outras séries do mesmo “universo”. No caso do Justiceiro, tudo se encerra como num filme que tem de fato começo, meio e fim. Se alguém inventasse de fazer mais uma, ah, tudo bem, funcionaria. Mas se não for o caso, o fechamento tá de ótimo tamanho. Ainda bem.

Aliás, diga-se, salvo a providencial aparição de Karen Page que, de alguma forma, também serve como uma resolução para o relacionamento dela com Frank que vinha se construindo desde que ele deu as caras, esta segunda temporada do Justiceiro vive num mundinho à parte, na sua ilha que não parece cercada de Universo Marvel por todos os lados. Honestamente? Ainda bem. E por favor, não seja destas pessoas que “ah, mas eu esperava que metade da população de Nova York se transformasse em pó, porque afinal em Guerra Infinita...”. Não, simplesmente não, muito melhor que não. Para contar esta história, o restante do elenco de apoio da Casa das Ideias é o de menos e, sendo bem franco, ia mais atrapalhar do que ajudar.

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Na primeira temporada, tínhamos um Frank Castle lutando contra a fera dentro de si, contra uma guerra constantemente batendo em seu peito. A sacada desta nova parte de sua jornada é que, enquanto estava tentando ficar em paz e inclusive se dando uma nova chance para um relacionamento inesperado que claramente tinha tudo para dar certo, o Justiceiro agora de identidade nova, Pete Castiglione, não resistiu a se meter numa encrenca. Sacou que tinha algo de errado e salvou uma menina num bar de beira de estrada. E acabou atraindo para si mesmo uma conspiração muito maior do que imaginava, maior até do que os mafiosos russos que inicialmente cruzam seu caminho.

Frank continua tentando a todo custo controlar o seu lado que é pura raiva e que, quando libertado, se torna ainda mais assustador. Ele tem fome de sangue, de pólvora, os olhos ficam saltados e ele grunhe de um jeito que dá medo até em quem mais confia no cara. Mas a sacada é que, ao lado da menina Amy, com seus 16/17 anos, algo acorda novamente dentro do guerreiro: sua faceta pai.

Ele passa a perceber que se importa com as pessoas. Com ela, com os amigos, com os inocentes. Ele é mais do que apenas um matador, mas alguém que tenta fazer a coisa certa ainda que com um código de conduta bastante distorcido. Castle então se pega não só ouvindo a garota, que questiona a necessidade de todas aquelas mortes, mas também se pega questionando a si mesmo. Ao personagem da caveira no peito. Em três ocasiões bastante distintas, ele exita. Respira fundo. E tira o dedo do gatilho.

Por sinal, talvez o maior acerto da temporada inteira seja justamente os muitos questionamentos que surgem ao redor do anti-herói. Ele não é, nem de longe, tratado como a máquina de matar soberana e explosiva que todo mundo aplaude, tipo gibi dos anos 90.

Quem está ao redor de Frank em seu principal núcleo de atuação tenta detê-lo, tenta mostrar que nem sempre esta é a saída, por mais que Frank Castle seja alguém obviamente complicado, difícil, cheio de facetas estranhas e, mais uma vez, tratado como um homem problemático e que precisa de ajuda. Quanto a isso, o roteiro não se exime da responsabilidade de evitar fetichizar a figura do vigilante, do macho alfa, do lobo solitário. E isso, aliás, é CLARAMENTE discutido num diálogo entre duas mulheres: “homens não pedem ajuda, né?”, afirma uma. “Jamais”, rebate a outra.

O relacionamento entre Frank e Amy, uma garota que fez uma série de escolhas erradas na vida e ainda está aprendendo a entender que chances poderia ter no futuro, chega a ter momentos ternos e, por que não, divertidos. A química de pai e filha funciona perfeitamente e você chega muitas vezes a pensar “será que eles não mereciam? Ambos?”.

Além da jovem golpista e do Justiceiro, por sinal, esta é uma série cheia de personagens lutando contra seus próprios demônios e tentando a todo custo encontrar uma forma de conviver melhor com as cicatrizes que a vida lhes deixou. É o caso da oficial da Segurança Nacional, Dinah Madani, que levou um tirou na cabeça e, apesar de ter sobrevivido, vive amargurada num misto de culpa e desejo de vingança.

Ou do segundo melhor amigo de Frank, Curtis Hoyle, que comanda o grupo de apoio aos veteranos de guerra mas só quer passar a viver uma segunda chance, uma vida sem medo. Ou mesmo a psicóloga Krista Dumont, nova personagem cujo objetivo é tentar ajudar a curar pássaros feridos sendo que nem as suas próprias asas a moça foi capaz de curar ainda.

Destaque merecido, é bom que se diga, para a participação do sargento da polícia Brett Mahoney, o homem honesto da corporação, aquele amigo (?) da dupla Nelson & Murdock e que, do jeito que dá, só quer fazer a justiça se cumprir dentro da lei em meio a um verdadeiro furacão de bosta que se abate sobre a Grande Maçã. Talvez nele, no fim, esteja um dos mais inesperados e ainda assim mais ferrenhos antagonistas de Frank Castle. E com toda a razão, já que oficiais da lei não deveriam abraçar o símbolo do Justiceiro, não é?

Mas antagonista compreendido como vilão MESMO, no caso, temos dois aqui. O primeiro deles já tinha sido construído desde a temporada anterior, Billy Russo, que nesta segunda temporada se transforma no Retalho. Mas vamos com calma porque, assim como o Mercenário na terceira temporada do Demolidor foi pintado de uma forma diferente, este não é o mesmo Retalho que você conhece das HQs, aquele gângster maníaco que é tipo o Coringa do Justiceiro.

Nisso, os dois vilões se parecem bastante, porque deram a ambos mais profundidade e mais camadas do que aquela folha de papel rasa que a dupla é nos gibis. Russo não tem o rosto de fato inteiramente retalhado e a aparência monstruosa dos quadrinhos — mas as poucas cicatrizes em sua face, potencializadas pela máscara medonha, ajudam a contar ainda melhor a história de alguém que perdeu parte da memória e, a seu modo, também tem uma besta sedenta de sangue para controlar dentro de si. Ele também é um sujeito descontrolado, que precisa urgentemente de ajuda. Ele é mesmo um Frank Castle refletido no espelho.

No fim, até que demora para que a sua trama, inicialmente muito mais protagonizada pela fúria que Madani sente pelo ex-amante que foge do hospital e agora está à solta, se cruze com a do Justiceiro de fato. Ela acaba correndo, por quase metade da temporada (como, vamos combinar, acontece em todas as séries da Marvel), em paralelo com a caçada que Castle sofre ao lado de Amy. Uma caçada que o coloca desta vez não contra o exército dos EUA, mas sim contra seus políticos, seus homens de fé, seus líderes corporativos. E quem acaba dando esta real clareza para o Justiceiro é justamente um ricaço russo que comanda um gigantesca rede criminosa. É ele que abre os olhos de Frank para o motivo de sua nova protegida ter um alvo na testa: o preconceito. A tradicional família americana que, em sua ânsia pelo poder, quer que nada mude e tudo seja como a Bíblia manda.

E é aí que entra em cena o OUTRO vilão, aquele que parece ainda mais letal do que o Retalho, um certo John Pilgrim. O personagem não existe desta forma e com este nome nos gibis, mas leitores atentos vão sacar que se trata de uma reconstrução do Mennonite, surgido nas publicações do Justiceiro da série MAX. Na TV (?) ele não é Amish, mas sim um cristão evangélico. Ainda assim, os suspensórios estão lá, o passado como criminoso em NY também, a redenção através da religião graças a uma esposa querida em uma pequena cidade interiorana igualmente.

É um guerreiro da fé, de olhar dopado e expressão quase nula, sentimentos totalmente reprimidos, que luta e faz o trabalho sujo por acreditar num casal doce e aparentemente inocente, que o ajuda no tratamento de sua amada e na educação de seus filhos.

Um personagem incrível, que demora a encarar Castle de frente como a gente esperava desde que o cara aparece, mas que simplesmente não decepciona quando a situação enfim acontece. E, claro, John (que, na verdade, se chama Robert), também tem a sua parcela de demônios para encarar, pecados para evitar e ferimentos para ajudar a cicatrizar.

Justiceiro, a série, chega ao fim, seja desta temporada, seja de sua jornada completa, ainda como o produto mais maduro e adulto da parceria Marvel / Netflix.

Um posicionamento que deveria se refletir, importante ressaltar, inclusive no retrato que os vindouros roteiristas vão fazer do personagem nos quadrinhos. Alguém questionador e questionável. Alguém que é perfeito para levantar perguntas de respostas pouco simplórias e óbvias sobre segurança pública, saúde mental, masculinidade tóxica.

Não são discussões fáceis. Mas ninguém disse que precisavam ser.