RESENHA! Círculo de Fogo: A Revolta

É porrada entre robôs gigantes, outros robôs gigantes e monstros maiores ainda quase que sem parar o que, por si só, não é exatamente um problema. Mas o filme de Steven S. DeKnight pensa que é algo que não é, aí…

Depois de um discurso em que faz questão de dizer que não é como o pai Stacker Pentecost, o personagem de John Boyega em Círculo de Fogo: A Revolta, Jake Pentecost, nos apresenta ao Mundo em que vive, dez anos depois dos eventos do primeiro filme. “A maior parte está se recuperando, mas algumas cidades litorâneas não”, diz enquanto aparece trocando carros e outras coisas por bolachas e aquele molho de pimenta oriental que tá virando moda aqui no Brasil.

Nessas regiões da Terra, há todo um mercado negro relacionado aos Jaegers e Kaijus, ESPECIFICAMENTE em torno dos robôs gigantes, que inclusive povoam ferros velhos dedicados exclusivamente a isso — o que, óbvio, permite que Jaegers AMADORES sejam fabricados, ainda que proibidos... E é aí que Jake entra: ele rouba peças importantes dos Jaegers desativados e entrega pra quem quer pagar e criar os seus.

Meio sem querer, durante toda essa apresentação, que ainda inclui a jovem e estreante Cailee Spaeny no papel de Amara Namani — aquela típica adolescente desses filmes que acha que pode salvar o mundo sozinha e que sabemos que, no fim, pode mesmo — Círculo de Fogo: A Revolta acaba resumindo o que é em sua essência: um monte de gente nova se enfiando em algo que foi abandonado com o único objetivo de ter lucro. “Por que alugar um apartamentinho se eu posso invadir uma mansão abandonada de frente por mar?”, pergunta Jake depois de uma festa numa casa que tem um esqueleto de Kaiju como ADEREÇO.

Pra que se dedicar tanto a um filme se você pode simplesmente pegar algo que as pessoas gostam e jogar na tela durante quase duas horas?

É a mesma lógica de Jurassic World — não por acaso, outra parceria Universal e Legendary Pictures: foda-se toda a ficção científica, foda-se o olhar crítico e analítico sobre o Mundo e as pessoas, o que importa é ser maior. “Maior é melhor”, diz a personagem russa do filme em diversos momentos.

Bom... Nem sempre, né?

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Círculo de Fogo: A Revolta, ao querer misturar Jaegers e Kaijus como o grande novo plano dos tais alienígenas que enviavam os monstrões pra cá anteriormente, se torna apenas e tão somente mais um enorme filme de ação, ação, mais ação e mais um pouco de ação, com muita destruição... mas não se preocupe: “todos os habitantes foram evacuados para abrigos subterrâneos”. Em uma cidade como Tokyo? Eu não acho que os japoneses sejam tão eficientes assim.

Apesar de tudo acontecer essencialmente na Austrália e no Japão, os Jaegers agora são todos americanos. Perdeu-se aquele senso de COMUNIDADE mundial que o primeiro filme criou, dando nomes, especificações de batalhas, nacionalidades, “kill count” de Kaijus a cada um dos robôs gigantes; agora todos eles têm nomes, mas o tratamento é o mais impessoal possível. Se existem ferros-velhos de Jaegers, fica realmente difícil de conseguir criar qualquer simpatia pelos robozões. Eles são apenas e tão somente veículos.

Steven S. DeKnight, o diretor do filme, afirmou que percebeu, DEPOIS de decidir que adolescentes controlariam os Jaegers, que os jovens tem conexões mentais muito mais fortes que os outros humanos e, nesse caso, a ordem dos fatores altera o produto, sim. Isso é dito durante o filme, mas é mais uma justificativa do que algo que seja de fato importante. Não há nenhum momento em que as tais conexões sejam realmente necessárias e tenham qualquer importância — e isso vale tanto pra essa dos jovens quanto a dos adultos que, vamos lembrar, é o que faz os pilotos conseguirem, bem, pilotar os Jaegers.

“O tema do filme se revela facilmente: é sobre confiar um no outro”, disse Guillermo Del Toro em entrevista ao JUDAO.com.br em 2013 (que eu recomendo com força que você leia, serião). Del Toro dirigiu o primeiro filme e é creditado como produtor do segundo, ainda que ele tenha se ocupado com A Forma da Água e deixado a sequência na mão do novo time. Pois bem: esse tema absolutamente inexiste em Círculo de Fogo: A Revolta. Em determinado momento, aliás, parecia que eu tava só assistindo a um episódio qualquer de algum tokusatsu de grande orçamento.

Essa imagem representa um dos momentos mais tensos do filme. Sério.

Olha, não há nada de errado em um filme que se propõe apenas e tão somente ser uma enorme treta entre robôs e monstros. O problema é quando esse mesmo filme se leva realmente a sério e, mais do que isso, segue uma linhagem EXTREMAMENTE nobre. É uma fórmula pra desastre: pensar que é mais do que é, de fato. Círculo de Fogo: A Revolta é tão “só isso” que tem todo um núcleo chinês que não serve pra muita coisa e é muito mal utilizado. Mas, sendo produzido pela Legendary Entertainment que, por sua vez, pertence ao grupo chinês Dalian Wanda Group, tá lá.

Círculo de Fogo: A Revolta se permite divertir em apenas dois momentos, mas em nenhum deles é de fato divertido. Não é natural, como todo o resto do filme. Mais uma vez parece que alguém entrou onde não devia e mexeu com o que não podia.

Entendo quem se contente com esse tipo de diversão — eu já fui essa pessoa. É porrada entre robôs gigantes, outros robôs gigantes e monstros maiores ainda quase que sem parar. Mas, pra mim, que amo o primeiro filme e outros como Colossal, faltou dar um tratamento maior e melhor ao que tem gente que gosta de diminuir a importância chamando de “entretenimento de massa”.

Faltou Guillermo Del Toro.