Como a briga entre Netflix e Spielberg pode moldar o futuro do cinema | JUDAO.com.br

Continua a discussão sobre o que é um filme num mundo em que o consumo de audiovisual mudou muito. E não tem hora pra acabar. A discussão e a mudança também, no caso.

2018 foi o ano do pontapé inicial do Netflix para se tornar um estúdio de cinema levado a sério pela mídia e pelos concorrentes. Depois de entrar em uma briga sem precedentes com o Festival de Cannes – o principal festival de cinema do mundo -, o serviço de streaming iniciou uma nova era de produções com nomes já consolidados no mercado, como Paul Greengrass e Alfonso Cuarón.

Com o inegável sucesso de Roma e o impacto do filme na indústria cinematográfica e na temporada de premiações, alguns membros da Academia de Artes de Ciências Cinematográficas estão questionando se os filmes feitos para serviços de streaming devem concorrer ao Oscar ou se esse direito deve ser apenas para longas com distribuição tradicional — no cinema, específicamente. E o que começou como um debate sobre o método de trabalho do Netflix, se tornou uma guerra encabeçada por ninguém menos que Steven Spielberg, membro do conselho da Academia.

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A restrição de Spielberg em relação à produções feitas para streaming não é necessariamente uma novidade. Ele começou a falar abertamente sobre o assunto no em entrevistas no início do ano passado, afirmando que filmes “feitos para a televisão merecem um Emmy, não um Oscar”. Em Janeiro deste ano, Spielberg aumentou o tom durante uma aparição no Cinema Audio Society Awards, premiação de mixagem de som. Pois eis que agora, segundo consta, o cineasta decidiu parar de falar e começou a AGIR. Pelo menos foi o que garantiu uma fonte ao IndieWire.

O que era oposição teria se tornado uma campanha, que seria inclusive apresentada por ele durante um encontro da atual formação do Board of Governors da Academia, do qual Spielberg faz parte. O tal grupo, de acordo com o site oficial, “define a visão estratégica da Academia, preserva a saúde financeira da organização e assegura o cumprimento de sua missão”.

Existe uma importante regra que determina a qualificação de um filme para o Oscar: uma exibição em um cinema em Los Angeles por uma semana sem uma exibição em qualquer outra plataforma ANTES do lançamento nos cinemas — mas, desde 2012, outra regra permite que um filme estreie nos cinemas e em um serviço de streaming no mesmo dia. A nova mudança proposta por alguns membros e em tese endossada por Spielberg fala em obrigatoriedade de exibição nos cinemas com exclusividade por quatro semanas ANTES de estrear em outras plataformas.

Assim que o assunto se espalhou na imprensa especializada, a proposta encontrou algumas barreiras na indústria e dentro da própria Academia. “Por mais que eu respeite Steven e o reverencie como cineasta, ele não está enxergando as pistas”, afirma Stu Zakim, membro da Academia e veterano relações públicas que inclusive trabalhou para lançar filmes do diretor, em entrevista pra Variety. “Este trem já saiu da estação”.

Durante o SXSW, em Austin, o produtor e diretor executivo Jeffrey Katzenberg – ex-presidente da The Walt Disney Studios, co-fundador e CEO da DreamWorks Animation e amigo pessoal de Spielberg – bancou o RP e afirmou que tudo não passou de um mal-entendido, conforme o THR relata. “Eu falei com o Steven e perguntei sobre isso bem especificamente. Ele disse que não falou nada a respeito”. Segundo ele, um jornalista estava escrevendo uma matéria sobre o assunto, ouviu um “rumor” sobre Spielberg, ligou para um porta-voz para conseguir um comentário e aí “torceu” tudo.

“Um: ele não disse nada. E dois: ele não está indo procurar a Academia com algum tipo de plano. Ele nem opinou a respeito ou se alinhou a respeito de nada”, completa Jeff.

De qualquer maneira, como vimos com Roma, que ficou nos cinemas dos EUA por três semanas antes de ser disponibilizado para os assinantes -, o Netflix está mais do que disposto a ajustar seu modelo de negócios no caso de produções com potencial para o Oscar. Esse caso deve se repetir com The Irishman, próxima produção de Martin Scorsese com Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino no elenco, um “oscarizável” em potencial.

Jennifer Salke, nova líder da Amazon Studios, que tradicionalmente já tem acordos para lançar seus filmes no cinema antes de entrar em streaming e funciona muito mais como um estúdio / distribuidora tradicional, andou apontando que algumas produções poderão não passar por esse processo no futuro, já que os últimos resultados não foram os esperados.

Os responsáveis pelos futuros serviços de streaming da Apple, WarnerMedia e Disney ainda não manifestaram publicamente suas opiniões sobre o assunto.

Fato é que, com tantos novos serviços de streaming disponíveis em um futuro próximo, a indústria cinematográfica e a própria Academia estão começando a discutir o que exatamente é CINEMA nessa nova era da tecnologia cultural. Para debater sobre o assunto, John Bailey, atual presidente da Academia, criou um comitê especial presidido por Albert Berger – representante do ramo de produtores do conselho de governadores – para explorar o futuro da indústria.

Segundo o THR, os primeiros encontros ocorridos em 2018 reuniram cerca de 100 membros de todos os ramos da Academia e todos foram ouvidos sem que o comitê sugerisse mudanças nas regras atuais. Basicamente, as tais regras atuais foram endossadas implicitamente por TODOS.

Com os debates reabertos publicamente, existe uma óbvia dificuldade em definir o que é um filme e, a partir dessa definição, redefinir as regras do Oscar sem consequências que pareçam intencionais: no caso, servir apenas como um pretexto para matar a concorrência. De olho exatamente nisso, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos alertou a Academia que uma possível limitação aos serviços de streaming no Oscar pode violar a lei de concorrência vigente nos EUA.

Além de ganhar a indesejada atenção da lei, vale ressaltar que essa nova regra não prejudica apenas os serviços de streaming, mas também as produções independentes. Uma janela muito pequena de exibição, distribuição ou financiamento desses trabalhos que não são mainstream prejudicaria financeiramente muitas pessoas.

No Twitter, o produtor e executivo criador da Black List – uma publicação anual com os roteiros mais populares não produzidos de Hollywood -, Franklin Leonard observou que é importante preservar a exibição nos cinemas, mas também concorda que é difícil filmes “sobre mulheres, pessoas não-brancas e milhares de outras comunidades terem acesso aos recursos necessários para garantir uma janela exclusiva de quatro semanas”.

Também no Twitter, a diretora Ava DuVernay engrossou esse coro ao afirmar que o conselho de administração ouvisse diretores com opiniões diferentes da nova proposta. Ela citou o próprio exemplo ao relembrar que seu documentário 13a Emenda, distribuído pelo Netflix, acabou alcançando um público global.

Atualmente, vivemos em uma época que existe uma clara oposição de ideias em praticamente todas as áreas e discussões sobre o formato do passado e qual deve ser portanto o formato do futuro. Enquanto os hábitos do público continuam mudando com a introdução de novas tecnologias com o passar dos anos – lembre-se que o futuro já esteve nas mãos de DVD, VHS, Laser Disc e até mesmo em exibições de produções cinematográficas na televisão -, a indústria precisa encontrar um meio termo para continuar existindo como negócio e como arte, sem um servir de pretexto para matar o outro.

Em 2019, a Academia abrirá seu aguardado museu, que conta com Ted Sarandos – CEO do Netflix – como vice-presidente. Por conta de uma generosa doação feita em nome do serviço de streaming, os futuros visitantes poderão ver em uma das paredes uma placa da marca The Netflix Terrace em agradecimento ao feito.

Spielberg decidiu puxar as melhores cartas do seu baralho para resolver as questões com as próprias mãos e, pelo visto, o Netflix também.