Como a compra da Millarworld representa uma nova fase do Netflix | Judão

O serviço de streaming está deixando de ser um mero licenciador e financiador de conteúdo (exclusivo ou não) para se tornar dono de propriedades e franquias como são Warner e Disney

Conteúdo exclusivo. Sem ele, todo serviço é uma commodity. É mais um provedor de internet, de TV paga ou serviço de streaming. Você assina o que está mais barato ou o que tem o melhor sinal e pronto. E é justamente para não ser mais um que o Netflix comprou a Millarworld por um valor não divulgado. Pela primeira vez em toda a sua história, o serviço de streaming de Los Gatos faz uma aquisição – e olha que a empresa existe desde 1997. Isso deixa mais do que clara a grande mudança no formato deles fazerem negócios.

Sim, Netflix tem produções originais desde 2013, quando lançou House of Cards, e isso representou justamente a segunda grande mudança no modelo de negócio da empresa (a primeira, claro, foi lançar justamente o serviço de video on demand, em 2007 – até então eles apenas enviavam DVDs e BDs pelo correio). Essa foi uma grande mudança para os caras, que deixaram de ser um mero repositório de filmes e séries pra assistir online e se transformaram numa HBO de conteúdo premium sem a necessidade de assinar a TV paga.

Porém, a empresa não é necessariamente dona daquilo que tem o selo de “original”. Na realidade, eles funcionam mais ou menos como qualquer outro distribuidor ou canal, com contratos de licenciamento de conteúdo. A própria House of Cards, por exemplo, é uma adaptação de uma série da BBC e produzida pela Trigger Street Productions, que é de ninguém menos que Kevin Spacey e Dana Brunetti. Inclusive, há um detalhe curioso: a série tem uma outra distribuidora em mídia física (a Sony) e, em alguns países (como a Austrália), não é exclusiva do Netflix, sendo exibida em canais de TV tradicionais porque, na época que assinaram o contrato, o serviço de streaming não estava presente nesses territórios e os produtores foram espertos para não vincular uma exclusividade neles.

Outro exemplo é o fenômeno Stranger Things. Por mais que o Netflix esteja capitalizando com o sucesso da série, ela é uma criação dos Duffer Brothers. Foi o produtor e diretor Shawn Levy que viu o potencial do projeto, fechou um pacote de produção por meio da 21 Laps Entertainment e, aí sim, vendeu os direitos de distribuição pro pessoal de Los Gatos. No máximo, a empresa financia aquela produção, bancando os custos, em troca desses direitos. Há também os casos nos quais eles entram apenas no final e compram tudo, como a empresa tem feito com longas-metragens que se destacam em festivais.

Podemos, ainda, falar de casos como as séries da Marvel, de continuações de franquias de outros lugares e tudo mais, mas acho que você entendeu a mensagem: o Netflix não tem propriedades, mas sim contratos. Contratos que valem uma puta grana e que, no FRIGIR DOS OVOS, nada é deles. Trata-se quase de uma relação cliente-produtor. Um lado paga, enquanto o outro produz.

É aí que entra a Millaworld. Ao adquirir a empresa, o Netflix deixa de ser um simples licenciador e distribuidor de conteúdo e efetivamente passa a ser dona de propriedades intelectuais, personagens, histórias e tudo o que vem embutido nisso.

Não é à toa que Mark Millar, ao anunciar a aquisição, citou os casos de Disney com Marvel e Warner com a DC: nos dois, os grupos possuem um grande REPOSITÓRIO de ideias e conteúdos, que podem ser transformados nos mais diversos produtos – de gibis a filmes, passando por lancheiras, cadernos, fantasias e brinquedos. Eles fecham todo um ciclo de propriedade intelectual, além de não precisar ficar pagando pra terceiros pelos direitos na hora de lançar uma série ou filme – o que, no caso se um serviço sem publicidade AND por assinatura, é importante.

“Netflix é o futuro e eu não poderia estar mais entusiasmado em vender o negócio e me preparar para todos os filmes e séries incríveis que planejamos fazer juntos”, disse Millar no comunicado que anunciou o negócio. “Parece que eu entrei na Liga da Justiça e não posso esperar pra começar a trabalhar com eles”. A partir de agora, o escritor e roteirista vai sentar com os caras no novo escritório de Hollywood da Netflix e, aí sim, definir os novos projetos que vão realizar juntos. “Eu tenho tido uma enorme quantidade de sorte na minha vida – nunca como hoje – e eu estou ansioso para explicar como eu planejo usar este negócio para nos ajudar a aperfeiçoar a área na qual eu cresci e a qual eu devo tudo”.

Obviamente, há claras diferenças entre Millarworld e Marvel ou DC. Enquanto essas duas últimas são editoras de HQs com décadas de existência, a empresa do Mark Millar não é uma editora, mas sim uma gestora de propriedades criativas nas HQs que existe apenas por conta das criações do seu dono – e pelo que ele ainda vai criar – publicando esses títulos por, aí sim, editoras como Marvel (via o selo Icon), Image e Top Cow.

Vale dizer que Millar é um dos mais prolíficos roteiristas dos quadrinhos de hoje e, por meio da Millaworld, o Netflix passa a ser dono de publicações como Nemesis, Superior, Jupiter’s Legacy e Jupiter’s Circle, entre outras. É um material importante que, de acordo com o próprio criador, soma 20 franquias diferentes. Só ficaram de fora Kick-Ass e Kingsman, presos a contratos anteriores com, respectivamente, Universal e Fox.

Até por isso, podemos acreditar que a SANHA de compras do Netflix está apenas começando. É possível imaginar que a empresa queira diversificar seu ROL de produtos próprios, indo além das criações de uma pessoa só. Por isso, comprar alguma outra editora de quadrinhos poderia ser uma jogada interessante. O pessoal de Dark Horse e Image, por exemplo, deve estar aguardando ansiosamente por uma ligação iniciada pelo código de área 408 – que corresponde a cidades do Vale do Silício como Cupertino, San Jose e, veja só, Los Gatos.

Também soa plausível que a companhia liderada por Reed Hastings queira comprar – ou até fundar – uma produtora. Tendo a propriedade e a distribuição, não faria sentido dar dinheiro para um terceiro só para tirar a série ou filme do papel. Vale lembrar que, no passado, a empresa já fez isso por meio da divisão Red Envelope Entertainment – que, além de distribuir filmes de OUTREM, também realizou produções como Sem Fim à Vista, um documentário indicado ao Oscar.

A empresa foi fechada em 2008 porque o Netflix queria “evitar a competição” com os estúdios que eram parceiros. Um pensamento que, hoje, não teria mais cabimento.

Nesse sentido, OUSO arriscar até qual seria a aquisição perfeita para os executivos de Los Gatos: a Skybound Entertainment. A empresa de Robert Kirkman já mostrou que sabe lançar sucessos (vide The Walking Dead), tem uma série de HQs que poderiam virar filmes ou séries e, principalmente, já produz coisas para a TV. Seria o pacote perfeito.

É, parece que o jogo vai virar. Novamente. E falaram que os caras estavam na pior...