Como publiquei meu projeto independente (e outras loucuras) | Judão

I want to break free

Já parou para pensar que a mesma humanidade que questiona o sentido da vida evita lidar com o fato que trabalhar não faz o menor sentido?

Falo isso me referindo ao pacote completo, que envolve o tempo de ida e volta para o emprego, o horário de almoço, durante o qual se conversa apenas sobre tarefas pendentes ou preferências da chefia, a competição com gente que você nunca conheceria se não fosse debaixo do teto onde ganha o pão e, o pior de tudo, tratar como benevolência qualquer “benefício”, folga ou até mesmo atenção de quem “paga o seu salário”.

Fora que praticamente todo emprego conta com tempo ocioso, embora a gente encare como uma regra aquela jornada de trabalho padronizada de oito horas de labuta mais uma de almoço. Essas nove horas você pode somar a (com sorte) 40 minutos de ida e outros 40 de volta do trampo. São dez horas e 20 minutos do seu dia, e você pode aproveitar a calculadora na mão para acrescentar as tais sempre alarmadas e teóricas oito horas de sono, o que resulta em mais de 18 horas.

Sobram seis horas para você viver a sua vida.

SEIS. FUCKING. HORAS.
UM. QUARTO.
DA. PORRA. TODA.
DO. DIA.

Ao mesmo tempo, vemos manchetes diárias que chamam gentilmente a época que vivemos de “era da ansiedade”, que reportam uma epidemia de depressão, dependência química e um oceano de ansiolíticos e outros medicamentos para ajudar a humanité a segurar o maremoto de desgosto disfarçado obrigatoriamente de felicidade na forma de corpos impossíveis, ignorância disfarçada de opinião, viagens bregas, famílias feias e um bando de porcarias que são a moda do momento.

Fazem como se a vida tivesse solução. Se bem que ela tem uma única que não é nada agradável, a tal da morte.

Foi aí que me bateu uma ideia na contracorrente dessa lama toda. Não, eu não me matei, como você pode notar. Bom, talvez eu tenha feito isso financeiramente, mas não vem ao caso. Foi mais no naipe: e se EU fizer o que EU quiser? Trinta e seis anos na cara, vou esperar até quando?

Olhei para o espelho e disse: bora.

Se você aguentou a tortura acima sem me xingar ou mudar de janela, fico felizão. Vamos falar agora sobre como publicar seu projeto independente — bom, na verdade vamos falar sobre como EU estou publicando meu livro independente, mas acredito mesmo que isso pode ajudar você a lançar o seu trabalho.

Antes, é necessário ter algo para publicar. No meu caso, sou jornalista (atualmente não-praticante) e roteirista, sempre escrevi para pagar as contas, mas nunca tinha feito ficção.

Meu negócio sempre foi mais para a crônica do dia a dia em colunas e para a linha de shows quando a conversa é televisão, lugar no qual criei para programas como Furo MTV, A Fazenda, Trolalá e até mesmo um curtíssimo período para o Domingão do Faustão.

Na crise política do ano passado, após um período em que minha ideia de mundo me levou para um limbo dentro do mercado, passei três meses desempregado. Minha marida, talvez cansada de me ver absorvendo a energia ao nosso redor como uma esponja, me falou: “Nícolas, acho que chegou a hora de você escrever suas coisas de novo. Senta e faz. Sei que você escreve num nível pessoal e tal, prometo que não vou me magoar com o que venha a sair”.

Retomei, então, textos que tinha escrito há uns anos, cuja ideia central era contar separadamente diferentes histórias de amor que eu tinha vivido ao longo da vida. Reli aquelas páginas e não consegui escrever mais nada, embora a ideia de reescrever o que estava ali me animasse. Foi daí que comecei e não consegui mais parar.

Após algumas semanas de noites que me tiveram como testemunha ao se tornarem dia, caiu a ficha que eu tinha escrito um romance. Ela acordou um dia, eu estava em pé no quarto e falei: “Bico, escrevi um livro”. Depois de um cúmplice abraço, deitei e dormi por umas dez horas.

O justo descanso por saber que Chuva Ácida, meu primeiro livro, existia e que eu sabia exatamente o que ia fazer com ele.

No dia seguinte, após revisar o livro todo, falei imediatamente com uma enorme amiga minha, que sempre faz a coisa gráfica das minhas ideias xaropes. “Edna, escrevi um livro, vou te passar pra tu ler, daí, se gostar, quero que faça o projeto gráfico, bora?”

Ela topou. Foi a primeira pessoa que leu meu livro, e ela o fez em uma noite. De manhã, veio a notícia que ela tinha curtido pra caralho e que já estava tendo ideias.

Cara, isso me deu um troço muito doido, um boost de energia e eu precisava fazer algo com isso. Primeiro de tudo, mandei o livro para o Osmar, um amigão desde a universidade, a pessoa que eu conheço que melhor pensa literatura. Pedi pra ele ler e, se gostasse, para ser meu revisor. No dia seguinte, também topou.

Essa notícia me fez vislumbrar uma terceira necessidade: grana. Desempregado há meses, não tinha nem pras contas, mas fui cara de pau o suficiente para sacar as facilidades de ferramentas como o Catarse e mandar ver. Comecei a produzir os textos do crowdfunding enquanto minha “equipe” trabalhava no resto.

Chamei meu afilhado, o Gabriel, e juntos fizemos um vídeo para promover a bagaça.

Quem quiser conhecer a página do projeto, até para ter como base, só clicar aqui. A real é que superestimei o dinheiro que precisava para realizar o livro, mas como tinha optado pelo formato Flex, recebi la plata mesmo tendo chegado a apenas 22% do montante desejado.

No entanto, veio uma boa notícia com isso. CEM PESSOAS deram grana para o negócio acontecer. Imagina minha alegria? Meu livro já ia sair da impressão com um monte de leitores confirmados.

Em seguida, chegam ofertas de parceria das editoras que observam de rabo de olho quem está tentando publicar livros por financiamento coletivo, e é mesmo tentador lidar com alguém que vai resolver todas as burocracias para você, embora boa parte da sua autonomia possa ir pro espaço no meio do processo.

A Edna me ajudou a cotar essas coisas, até que um dia, quando estávamos praticamente fechados com uma editora, ela me contou que tinha entrado em contato com a gráfica que imprimiu um livro que era referência de layout para a gente e que eles cobravam metade do que a gente ia gastar em uma parceria.

Topamos o desafio de entender os cadastros da Biblioteca Nacional, todos os registros necessários e fazer a gente mesmo. O livro só pode ser impresso após esta etapa ser cumprida, então em dois dias o negócio já estava pronto.

Agora, vivemos a espera pela chegada dos livros em pleno corpo físico. Nessa nossa vidinha besta de cada dia, a gente dá um passo em outra direção e não vem a seguir uma jornada muito clara, mas um passo de cada vez, e cada vez que o pé encosta o chão, uma nova espera chega junto.

E depois disso, virão os momentos de entregar o livro a quem colaborou, vender para outros tantos, tentar fazer ele chegar a quem nunca ouviu falar da minha existência, escrever a continuação e por aí vai.

Chuva Ácida, meu livro, fala dessa barra que é gostar de alguém. A história de Nícolas e Nicole nos lembra que amar é um ato tão primitivo que deixa uma mistura entre feridas incuráveis e gestos inesquecíveis de ternura ao longo do tempo que durar.

Atualmente, o livro está em pré-venda. Custa 30 reais e pode ser encomendado no e-mail livro.chuvaacida@gmail.com (eu mesmo vou falar com você 😉). O lançamento vai rolar dia 20 de maio, das 17h às 22h, no Espaço Parlapatões, em São Paulo, e você aí está MUITO convidado.