Contra toda a lógica do mundo, Batman e Arlequina funciona! | Judão

Mas só enquanto filme da palhacinha. E a custo de partes da sua sanidade :D

Narrativamente falando, de todas as possíveis histórias que a Warner Animation poderia decidir levar às telinhas, uma improvável parceria entre Batman e Arlequina seria, definitivamente, uma das últimas opções. Só que num mundo em que o Cavaleiro das Trevas e a palhacinha alucinada do crime se provaram extremamente populare$ e amado$, faz muito sentido, CONVENHAMOS.

O grande problema é que isso não garante uma boa história, coisa da qual a divisão de desenhos dos estúdios da Caixa d’Água está carente há uns bons OITÔ! lançamentos (incluindo aí a execrável adaptação de A Piada Mortal). Pra tentar remediar, a coisa mais próxima duma solução genial: por que não jogar a incubência de construir esse conto do Morcegão no colo de Bruce Timm, um dos co-criadores não só da Arlequina, como também da versão 2D mais memorável do Homem-Morcego, em Batman: A Série Animada?

Escrito a quatro mãos por Timm e Jim Krieg, Batman e Arlequina é bizarramente insano, tematicamente esquizofrênico e totalmente desprovido de sutileza. É um desenho que abre numa cena de ação repleta de sangue, só pra seguir com uma sequência super infantil de créditos iniciais, ao som duma música ao melhor estilo Batman ’66. Ainda assim, é uma história que FUNCIONA... mesmo tendo tudo para NÃO funcionar.

Tudo começa com o plano da Hera Venenosa e do Homem Florônico para criar uma versão pirata da fórmula que transformou Alec Holland no Monstro do Pântano. A ideia da dupla verde é transformar toda a humanidade em híbridos vegetais-animais, mas oferece um enorme risco de extinção à toda a vida na terra se qualquer mínimo componente estiver fora do lugar. Sabendo disso, Batman e Asa Noturna partem numa corrida contra o tempo pra encontrar e recrutar a ajuda da única pessoa capaz de levá-los até a Hera: a Arlequina, agora aposentada e tentando levar uma vida normal como garçonete.

Ignorando que nada disso faz lá muito sentido — desde a ideia de transformar a humanidade em monstros do pântano aparentemente não preocupar o PRÓPRIO guardião do verde, até a bizarra noção de que o Melhor Detetive do Mundo só conseguiria encontrar a Hera Venenosa com a ajuda da Arlequina — Timm e Krieg encontram uma forma rápida de justificar a colaboração entre o Batman e a ex de seu arqui-inimigo, ao mesmo tempo em que exploram a relação construída pela Arlequina com Hera durante a série animada do Cruzado de Capa.

É justamente nisso que o filme garante boa parte da sua funcionalidade. Ao nos apresentar uma Harleen Quinzel que superou não só seu relacionamento abusivo com o Jóker, o palhaço, o Coringa, mas também seguiu em frente de sua ~amizade colorida~ com Hera AND seu passado criminoso, somos logo confrontados com a dura realidade que uma sociedade sexista e hipócrita como a nossa reservaria para uma mulher na posição dela.

É uma pincelada de humanidade que vinha faltando à personagem, tão SATURADA ultimamente.

Só é uma pena que isso role minutos antes daquela objetificada básica que tem virado regra nas animações da DC desde que uma certa garota-morcego transou com seu mentor, algo representativo de como Batman e Arlequina alterna, O TEMPO TODO, erros e acertos. Num momento, temos uma divertida sequência de ação, seguida de um bom desenvolvimento de personagens. No outro, sexo e violência a rodo, com piadas de peido e outros alívios cômicos aparentemente pensados para a turma do fundão duma sala de aula do maternal.

Uma sequência em especial eleva os níveis de WTF à máxima potência: pelo que parece ser uma eternidade, Batman, Asa Noturna e Arlequina assistem a um show de música enquanto vários capangas da série de TV dos anos 60 dançam. Seria uma interessante referência, se a animação não fosse tão grotesca e repetitiva a ponto de cansar o espectador. Na hora da luta, então, parece que faltou orçamento — vemos só aquelas tradicionais onomatopeias, ficando do lado de fora do ambiente onde, de fato, a ação rola. E segue o jogo!

A baixa qualidade da animação, aliás, só colabora para a estranheza generalizada do filme. Numa versão bem piorada do traço de Timm em As Novas Aventuras do Batman, o filme te deixa constantemente na dúvida, como se não bastasse a alternância entre o exploitation e o infantil, em relação a qual será o fucking público-alvo daquilo. Qual seria o valor da nostalgia quando o material ali exposto nega aquilo que a motivou, em primeiro lugar?

No final das contas, a questão aqui é: não se deixe enganar pelo “Batman” no título; este é um filme da Arlequina. Absolutamente louco, adulto AND infantil ao mesmo tempo, tal qual a personagem. Aliás, se você imaginá-lo como fruto da imaginação da própria palhacinha (algo que, de verdade, deveria ter sido feito no desfecho, que é de te deixar sem palavras por todos os motivos errados), fica tudo MUITO melhor. É só assistido assim, nessa perspectiva ABSURDISTA, que ele passa a funcionar plenamente, quase como um What If? da vida.

Assim, Batman e Arlequina se torna uma animação pra lá de divertida, da melhor maneira “filme bom do Adam Sandler”, ou até naquela veia bem non sense de Wet Hot American Summer, veja só. Mais do que isso, ajuda a bater de frente com esse fã-clube do Morcegoman que leva tudo MUITO a sério e já tá dando no saco, chegando a ponto de ficar defendendo personagem de ficção de uma piada antiga ressuscitada pelo Emicida no fucking twitter.

Pelo amor de Thomas Wayne!

Se você quiser ver suas lembranças do bom Batman de Timm meio que “destruídas” em troca de umas boas (e inesperadas) risadas, além de uma visão surpreendentemente mais profunda sobre a personagem da Arlequina, chame aquela galera (preferencialmente acima de 16 anos) e assista a esta insólita aventura para salvar o mundo do apocalipse vegetal.

Dica: se possível, faça isso sob o poder do “verde”, já que a impressão que fica é que a equipe criativa do filme fez o mesmo. :D