Os ambiciosos planos da Hasbro para os cinemas | JUDAO.com.br

Você já deve adivinhar, mas enfim: o que a gigante dos brinquedos quer mesmo é construir a sua Marvel particular nas telonas

Se tem duas palavrinhas que tão mesmo valendo ouro em Hollywood, elas são “cinematic universe”. Já falamos aqui sobre a Sony querer construir o seu com base no Homem-Aranha (e finalmente, depois de tanto tempo, acertando a mão neste caminho) e também correndo por fora com os personagens da Valiant; já falamos do tal Dark Universe da Universal que, graças a Bast, parece estar morto e enterrado (depois daquela Múmia com o Tom Cruise, também...); e já falamos até do Netflix comprando os personagens do Rob Liefeld, tudo em nome de um universo integrado de aventuras formado uma história coesa.

Mas se tem uma empresa que está caminhando numa boa em direção a este objetivo, construindo suas bases aos poucos e preparando seus primeiros lançamentos para os próximos anos sem fazer taaaaaaaanto alarde assim, esta companhia é a AllSpark. Nunca ouviu falar? Compreensível: mas e se a gente te contar que, até bem pouco tempo atrás, esta empresa atendia pelo nome de Hasbro Studios? Aí faz mais sentido, né? ;)

Estamos falando de uma gigante norte-americana, uma das maiores produtoras globais de brinquedos e jogos de tabuleiro, com um catálogo de que vai desde o icônico RPG Dungeons & Dragons, passando pelas cartinhas de Magic: The Gathering e chegando até Monopoly (aka Banco Imobiliário) e ao icônico Senhor Cabeça de Batata. Foram eles que, com os G.I. Joe, conhecidos por aqui como Comandos em Ação, cunharam o termo action figures. Sabe as arminhas do tipo NERF? São deles. Sabe aquelas bonecas do tipo Baby Alive? Também são deles. E os Furby? Sim, sim, também.

Atualmente, já existe em plena atividade uma divisão de animação chamada AllSpark Animation, sob comando da executiva Meghan McCarthy e que produz materiais como Transformers: Prime, Transformers: Rescue Bots, My Little Pony e o spin-off que virou um estrondoso sucesso, Equestria Girls, para a televisão. Mas é claro que eles não deixariam o cinema de lado, fazendo surgir aí a AllSpark Pictures, esta sob a batuta de Greg Mooradian, executivo veterano que, embora tenha vindo mais recentemente da Fox 2000, na verdade fez carreira justamente ao dar destaque a uma franquia da própria Hasbro nos cinemas, os G.I. Joe.

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A AllSpark, enquanto subsidiária de entretenimento da Hasbro, surgiu oficialmente em 2009, num primeiro momento mais focada em TV e num acordo que tinham com a parte infantil da Discovery. Mas a divisão de cinema — cujo nome atual, dado este ano, é derivado de um artefato lendário do universo dos Transformers, aliás — já é um sonho beeeeeeeem antigo da Hassenfeld Brothers (Hasbro, sacou?).

Na real, o objetivo dos caras é, abertamente, falando isso aos quatro ventos pra quem quiser ouvir, ser uma nova Marvel Studios, querendo rivalizar diretamente com o estúdio da Disney. O que isso significa, portanto? Que a ambição da AllSpark Pictures é ser um estúdio próprio, produzindo filmes baseados em suas propriedades do início ao fim. E é em busca disso que Mooradian está no mercado, levantando financiamento. Mas enquanto não acontece, a AllSpark Pictures dá seus primeiros passos neste projeto ambicioso com uma parceria que rolou em 2015, após a Hasbro e a Paramount assinarem um contrato para criar um novo universo de personagens e histórias inter-relacionadas. Como parte do processo de expandir o universo já estabelecido de Transformers, sucesso entre os dois, esse acordo vai construir algo completamente novo com personagens de cinco marcas da Hasbro.

Estamos falando de dar uma nova chance pra G.I. Joe, nossos eternos Comandos em Ação, e ainda colocar no balaio nomes como Micronautas, guerreiros microscópicos do chamado Microverso e que tiveram seu momento, na década de 1970, graças a uma série de HQs publicadas pela Marvel; Visionaires (Os Cavaleiros da Luz Mágica) e M.A.S.K. (sigla para Mobile Armored Strike Kommand), ambos relativamente conhecidos pelos veteranos aqui no Brasil graças às séries de desenhos animados exibidas no final dos anos 1980; e, surpreendentemente, o cultuado ROM, o Cavaleiro do Espaço, que muitos leitores da Marvel das antigas sempre quiseram ver nos cinemas (o próprio James Gunn inclusive já tinha afirmado que queria ter tido a chance de usá-lo nos Guardiões da Galáxia).

Em 2016, o Hasbro Cinematic Universe foi anunciado oficialmente com uma sala de roteiristas bastante impressionante supervisionada pelo roteirista Akiva Goldsman, que trabalhou em Batman Eternamente, Uma Mente Brilhante e Star Trek: Discovery. Com uma diversidade bastante interessante, Goldsman está comandando nomes como Brian K. Vaughan, criador de Y: The Last Man; Nicole Perlman, co-roteirista de Guardiões da Galáxia, Capitã Marvel e Pokémon: Detetive Pikachu; Michael Chabon, escritor de As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, Lindsey Beer, contratada para adaptar A Crônica do Matador do Rei para os cinemas; Joe Robert Cole, roteirista de Pantera Negra; Cheo Coker, showrunner da série do Luke Cage, entre outros.

Diferente do ambiente comum do fanboy tradicional, essa sala de roteiristas apresenta uma concentração interessante e necessária de roteiristas mulheres e negros. Até pelos próprios padrões equivocados de Hollywood, esses nomes mostram a vontade dos estúdios de contar histórias com visões diferentes.

Enquanto a Marvel Studios começou a se encaminhar para diversidades narrativas e representatividades dentro e fora das telas, o universo estendido da Hasbro já nasce diversificado na sua essência. Segundo informações dadas em 2016 por Stephen Davis, o vice-presidente executivo e CCO da Hasbro, eles querem “ter certeza de que na sala temos perspectivas diversas, origens diversas e experiências diversas”. Um exemplo disso é o vocal desejo de ampliar o foco e tornar mais inclusivos universos como G.I. Joe e M.A.S.K, que são tradicionalmente inclinados para os homens. “O empoderamento feminino é um tema central através de muitas dessas propriedades e uma das razões pelas quais queríamos vozes diversas”, completou Davis.

Além disso, eles têm também uma outra carta na manga — ou deveríamos dizer “dado de 20 lados”? Porque também está nas mãos da AllSpark + Paramount a mais nova e aguardada adaptação cinematográfica do jogo de RPG Dungeons & Dragons. E após a saída do diretor Chris McKay (The LEGO Batman Movie) para trabalhar em Ghost Draft, estrelado por Chris Pratt, segundo a Variety, a dupla formada por John Francis Daley e Jonathan Goldstein, ambos roteiristas de Homem-Aranha: De Volta ao Lar e também integrantes desta impressionante sala de roteiristas, está negociando para dividir a cadeira de diretor, depois de se desligarem oficialmente da produção do longa solo do velocista Flash.

O roteiro continua a cargo de Michael Gillio, mais conhecido por ter escrito, estrelado e também dirigido a comédia independente Kwik Stop (2001). Vale lembrar que, apesar de não ter sido anunciada oficialmente, a ideia é que o filme se passe dentro de Forgotten Realms, talvez uma das ambientações/campanhas mais conhecidas do mundo de D&D. As aventuras se passam em Abeir-Toril, mundo ficcional do qual faz parte o continente de Faerûn – e têm um quê de multiverso ao abordar um antigo reino que foi aos poucos se afastando da Terra e sendo esquecido, com histórias focadas em magia, no aspecto místico e sobrenatural.

Portanto, vejam só, podem acreditar que até esta reinicialização de Dungeons & Dragons, o pai de todos os sistemas de RPG, está MESMO em desenvolvimento, começando meio lenta nas mãos da Warner Bros. mas depois ganhando força após a mudança para a Paramount Pictures, na jornada para tirar o gosto amargo dos TRÊS filmes pavorosos lançados a partir de 2000.

As notícias mais recentes envolvendo a AllSpark dão conta de que Robert Schwentke (RED) teria sido convocado para dirigir um filme solo do ninja Snake Eyes, servindo como spin-off de G.I. Joe, tal qual rolou com Bumblebee. A primeira versão do roteiro teria ficado a cargo de Evan Spiliotopoulos (A Bela e a Fera). Além disso, depois que a Hasbro comprou a franquia Power Rangers da Saban, tudo indica que a dobradinha AllSpark + Paramount deve ficar responsável pelo reboot cinematográfico dos guerreiros multicoloridos, possivelmente esquecendo o filme de 2017 e começando tudo do zero mais uma vez.

Enquanto isso, o universo cinematográfico de Transformers permanece inalterado – agora sem o envolvimento de Michael Bay... por enquanto – com confirmações de Transformers 6 e Bumblebee 2, apesar de também não existir qualquer informação sobre as tramas ou até mesmo data de lançamento. Sem qualquer notícia, é difícil sabermos se poderá existir alguma conexão entre essas novas histórias e o universo Transformers já estabelecido. O futuro do Hasbro Cinematic Universe ainda parece um pouco nebuloso, mas pelos nomes envolvidos, dá pinta de que vai ser bastante interessante.