De olho na diversidade, Marvel acelera produção de filme do Shang-Chi | JUDAO.com.br

Criado nos anos 70 em plena febre dos filmes de artes marciais, o herói com a cara do Bruce Lee que se tornou o lutador supremo dos quadrinhos da editora tem potencial pra se tornar o próximo Pantera Negra do MCU

Depois de ver o sucesso não só de crítica, mas também de público, que foi uma iniciativa como o filme do Pantera Negra, uma máquina de fazer grana que ainda por cima está sendo considerada a sério para uma premiação como Oscar (e só isso já seria uma grande vitória pro estúdio, acreditem), era óbvio que a Marvel, que tá longe de ser formada por um conselho de homens brancos BURROS, miraria a sua metralhadora bilionária mais uma vez na direção da diversidade. E se funcionou com um elenco quase que inteiramente negro, com diretor negro e roteirista negro, por que não tentar agora com asiáticos?

Deu super certo com o fenômeno Crazy Rich Asians, aka Podres de Ricos, comédia que fala ao coração dos asiáticos que moram nos EUA e que, gastando 30 milhões de orçamento, faturou mais de 5 vezes este valor só de bilheterias domésticas. Dando uma olhadinha em sua biblioteca de personagens, a Casa das Ideias reparou que, vejam vocês, tinha em mãos um personagem prontinho pra encaixar neste conceito e, de acordo com o Deadline, meteu o pé no acelerador pra ter a sua primeira franquia estrelada por alguém de origem asiática. No caso, Shang-Chi, personagem às vezes também chamado de Mestre do Kung Fu.

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O roteirista já tá até contratado: Dave Callaham, que não por acaso tem ascendência chinesa. Além de ter trabalhado no roteiro de Mulher-Maravilha 1984 ao lado de Patty Jenkins e Geoff Johns e já ter sido escalado, como contamos aqui, pra escrever a continuação de Homem-Aranha no Aranhaverso, ele também foi um dos criadores e produtores de Jean-Claude Van Johnson, nova série de ação/comédia estrelada pelo Van Damme. A ideia é ter, obviamente, não apenas um protagonista também asiático (POR FAVOR), mas também um diretor que tenha a mesma origem — e a caçada já começou.

O pouco que se sabe até agora é que a ideia é modernizar o herói de maneira a fugir completamente dos estereótipos. Estamos falando de um personagem concebido originalmente no final de 1972 e que estava, pelo menos inicialmente, mergulhado completamente no chamado arquétipo do “perigo amarelo”, que a gente explica em detalhes neste texto sobre o novo Super-Man (escrito assim mesmo) da DC, um homem oriental.

Mas, basicamente, tamos falando de uma metáfora racista iniciada na época do colonialismo, que colocava os asiáticos sempre como uma ameaça ao Ocidente. Nos EUA, esse sentimento cresceu a partir de meados do século XIX, quando começaram a empregar trabalhadores chineses com pouca escolaridade no lugar de americanos brancos. Isso fez crescer o ódio contra os imigrantes, levando inclusive à imigração chinesa ser proibida em 1882, algo que durou até 1943. Ainda assim, por mais de 20 anos, estes asiáticos não tiveram direito à propriedade nos EUA, por exemplo.

A trajetória de Shang-Chi começou porque a Marvel tava lutando pra conseguir os direitos da popular série de TV Kung Fu, aquela do David Carradine, mas não conseguiu porque a Warner Communications era dona da DC e não queria entregar a parada assim, de mão beijada. Mas tamos falando de uma América que, na época, estava PIRANDO com a coisa toda dos filmes de artes marciais, que começava a transformar Bruce Lee em um ícone e seus filmes em objeto de adoração. Aí, a editora conseguiu garantir minimamente os direitos de adaptação do terrível vilão e cientista louco da literatura pulp, Dr. Fu Manchu, criação do britânico Sax Rohmer. E a partir daí, desenvolveu sua própria mitologia.

Alguns dos coadjuvantes originais das obras de Rahmer foram usados, mas o protagonista, o herói relutante, mestre das muitas disciplinas de combate e filho de Manchu, era uma novidade: e assim surgiu o jovem e determinado Shang-Chi, que estreou nas páginas de Special Marvel Edition #15, cortesia da dupla Steve Englehart e Jim Starlin. Suas aventuras continuaram rolando recorrentemente nas páginas daquela revista justamente em um mundo no qual a cultura pop vibrava com o clássico Operação Dragão, infelizmente o último filme de Lee.

O sucesso foi tamanho que, no número 17, a revista mudou de nome, tornando-se The Hands of Shang-Chi: Master of Kung Fu e surpreendentemente perdurando até a edição de número 125, publicada quase uma década depois. Quando o desenhista Paul Gulacy assumiu o seu traço, claro, ele ganhou o visual absolutamente inspirado em Bruce Lee que ainda inspira parte dos desenhistas até hoje.

Nascido na província chinesa de Hu’nan, Shang-Chi foi treinado desde cedo por seu pai e uma equipe de instrutores em todos os tipos possíveis de artes marciais, com foco na missão de que o garoto pudesse dar prosseguimento aos planos megalomaníacos de dominação mundial de um Fu Manchu sedento de sangue. Quando o jovem é enviado para um trabalho secreto que envolve matar alguém no meio do caminho, acaba conhecendo o investigador Sir Denis Nayland Smith e seu fiel escudeiro, Dr. Petrie, uma dupla que parece meio Sherlock Holmes/Doutor Watson e que são os maiores inimigos da organização criminosa internacional comandada por Fu Manchu. Eis que ele descobre a verdade sobre o paizão e se rebela de vez.

Primeiro tornando-se aliado de Smith, Shang-Chi logo assume o papel de agente do MI-6, o serviço secreto britânico, e se engaja na luta contra os planos terríveis do Fu Manchu. Não demora até que ele seja de fato integrado à cronologia da editora e comece a cruzar o caminho do restante do universo Marvel — e se dão encontros com Homem-Coisa, Homem-Aranha, Punho de Ferro, Cavaleiro da Lua, as Filhas do Dragão (Colleen Wing e Misty Knight) Viúva Negra e Nick Fury, lutando contra outros inimigos como Doutor Destino, Dentes de Sabre, Samurai de Prata e até mesmo a galera da HYDRA.

Mesmo com o fim da primeira encarnação de seu gibi próprio e com a aparente morte de seu pai, Shang-Chi continuou aparecendo com frequência nos gibis dos coleguinhas. O tal exílio autoimposto como pescador numa cidadela remota, para encontrar a paz, duraria pouco.

Ele chegou a trabalhar ao lado dos Heróis de Aluguel, depois como agente especial da SHIELD e até integrou duas formações diferentes dos Vingadores: a primeira, oficialzona, recrutado inclusive pelos próprios Capitão América e Homem de Ferro, e depois numa versão mais recente e também bem mais clandestina, na época das incursões entre Terras paralelas pré-Guerras Secretas, esta liderada pelo mutante Mancha Solar.

Considerado um dos maiores lutadores vivos sem o uso de superpoderes, Shang-Chi tem habilidades atléticas que são difíceis de medir (conseguindo até desviar de balas e rebater projéteis com seus braceletes, Mulher-Maravilha style) e inclusive já derrotou uma porrada de vilões que faziam uso de superforça, supervelocidade, o pacotão completo. Além disso, estamos falando de um mestre na concentração do chi, aquela que segundo a cultura tradicional chinesa é a força cósmica que criou e permeia todo o universo — o que significaria que ele consegue também superar limitações físicas que outros atletas teriam. Junte a este pacote a maestria também na arte da meditação e da concentração e ainda expertise acima do comum com armas como espada, nunchaku e shuriken e temos aqui um guerreiro praticamente completo.

Vale ainda lembrar que, nas HQs mais modernas nas quais Shang-Chi começou a aparecer, as menções ao seu pai passaram a ser quase que misteriosas, evitando a menção de seu nome... justamente porque a Marvel perdeu os direitos sobre o Fu Manchu. No gibi dos Vingadores Secretos, o roteirista Ed Brubaker resolveu muito bem o problema ao nos contar que Fu Manchu era apenas uma das muitas identidades secretas de Zheng Zu, um antigo feiticeiro chinês que descobriu o segredo da imortalidade.

Shang-Chi é uma oportunidade de se afastar do estereótipo do artista marcial asiático como a máquina de luta elegante e impassível e, em vez disso, nossa chance de conhecer um personagem distinto e altamente capacitado, desafiando a percepção que a cultura pop sempre atribuiu aos heróis do Oriente. O Shang-Chi pode ser muito mais do que o Bruce Lee da Marvel

Em um ótimo artigo para o THR, o jornalista Richard Newby, um homem negro que se sentiu bastante representado com o Pantera Negra, deixa claro que seria importante que a Marvel fizesse com esta versão cinematográfica de Shang-Chi um pouco do que o Netflix fez com Luke Cage. Devidamente modernizado nos gibis graças à reinterpretação feita por Brian Michael Bendis em Alias e Novos Vingadores, ele só perderia os elementos que ajudavam a construir o estereótipo completo do gângster negro thug-life quando foi pra série e tornou-se muito mais o herói da comunidade do que qualquer outra coisa.

“Por mais que cenas de luta sejam inevitáveis no filme, sabemos que temos muitos heróis de ação asiáticos que são muito legais, mas que nunca tivemos a chance de conhecer mais a fundo como conhecemos os heróis brancos de ação como Rambo, John McClane ou Ethan Hunt”, diz ele. “Shang-Chi é uma oportunidade de se afastar do estereótipo do artista marcial asiático como a máquina de luta elegante e impassível e, em vez disso, nossa chance de conhecer um personagem distinto e altamente capacitado, desafiando a percepção que a cultura pop sempre atribuiu aos heróis do Oriente. O Shang-Chi pode ser muito mais do que o Bruce Lee da Marvel”. Ótimo ponto.

Olha só, se a Marvel estiver lendo isso aqui (e sabemos que está, então OI, KEVÃO!), fica então a nossa dica, assim mesmo, de graça, de boaça, de uma boa opção para o papel de protagonista: Lewis Tan. Ah, vocês até meio que já conhecem ele, porque o cara esteve na série do Punho de Ferro. Lá mesmo, na primeira temporada, oitavo episódio, interpretando ninguém menos do que Zhou Cheng, o lutador bêbado que quebra o pau com o insuportável herói caucasiano e rouba a cena com as doses certas de carisma e domínio das artes marciais. É um cara divertido, cheio de personalidade, que poderia se encaixar perfeitamente na descrição que o Newby faz logo acima.

E sabe o que é mais legal? Tan chegou a fazer o teste pra ser o próprio Danny Rand, o que inverteria a narrativa estereotipada do branco/ocidental que se torna o grande mestre dos domínios orientais para ser mais algo como “o asiático nascido nos EUA em busca de suas verdadeiras origens” — o que seria MUITO MAIS foda.

Escalar Tan (que nem precisaria de dublê porque faria suas próprias cenas de luta) no papel principal em um filme que MUITO PROVAVELMENTE tem potencial pra ser mais legal em cinco minutos de projeção do que Punho de Ferro jamais sonhou em duas temporadas seria a melhor definição de justiça poética que a cultura pop já viu nos últimos anos. Eu apoio.