Death Note: o bom, o ruim e aquela outra coisa | Judão

Porque, no final das contas, ainda tem um bocado de coisa entre estes dois extremos

Adaptação é mesmo uma coisa complicada. Qualquer uma.

Os méritos de uma adaptação NUNCA serão somente os méritos da obra em si. A comparação com “o original” vai aparecer, independente até se DEVERIA mesmo aparecer ou não. Pouca gente consegue separar. E os caminhos que percorrem a produção complicada, caótica e imprevisível de um filme nem sempre levam aquele projeto ao topo da qualidade. Isso pode resultar num filme ruim. Podem ser que tudo dê certo e o filme fique bom. Mas o grande problema é que, se a gente trata esses dois pontos como extremos, muita coisa pode ser perder no meio do caminho.

Dava pra falar sobre isso usando um monte de exemplos melhores. Mas Death Note foi aquele que chamou atenção nos últimos dias. Ele e toda uma enxurrada de gente metendo o sarrafo orelha adentro de como “Oh Senhor Isso É a Vinda Do Apocalipse Meu Deus Argh Caramba”. Poxa, fui ver o tamanho do estrago e saí... Gostando? Tô doente?

E isso porque eu sou muito fã do anime original — apesar de meu primeiro contato com Death Note ter sido numa peça de teatro há OITO anos, apresentação excelente da Cia Zero Zero de Teatro, dirigida por Alice K. Mas isso é assunto pra outro dia.

Originalmente a história do mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata fala sobre Light, um jovem limpinho, certinho, todo TOPZERA, que recebe um presente estranho das forças do destino: um caderno que mata quem tiver seu nome escrito nele. Quem quer que seja. Correto e ético como é, Light vira um carrasco de malfeitores ao redor do mundo, antes de virar o eliminador metódico de qualquer um que esteja atrás dele. Assume a identidade de Kira, que segundo uma professora de línguas consultada para esse texto, é “a bastardização do termo Killer para o japonês”.

Quase que uma fantasia de super-herói, um “What If” de empoderamento que, ao invés de ir para o lado da ação e da aventura, vai para o lado do thriller, do suspense e do terror. E da parábola ética. Há uma discussão nas entrelinhas (e nem sempre nas entrelinhas) sobre poder, possibilidade, certo, errado, quem merece a morte, quem não merece, com o nosso herói sociopata no meio do caminho derrubando corpos. E, claro, ouvindo os comentários do deus da morte Ryuk, dono do caderno, que se diverte observando as desventuras do protagonista, mais para aplacar o tédio da imortalidade do que por qualquer outro motivo.

A trama é bem rocambolesca, cheia de reviravoltas, traições, revelações e enganos, e levou 108 edições do mangá e 37 episódios do anime para se completar. Por que então não fazer um live-action, transportando a trama toda para Seattle e fazer disso um filme de uma hora e quarenta minutinhos? Bom, alguém achou uma boa ideia e comprou este passion project de Adam Wingard, diretor de O Hóspede (2014) e do recente Bruxa de Blair (2016). Depois de ser recusado pela Warner, o cara levou o projeto pro Netflix, esse rodamoinho mágico de conteúdo, que aceitou produzir um longa-metragem.

Tenha isso aí em mente desde o começo: é uma adaptação estadunidense, então já começa que o elenco é, em grosseira maioria, todo de lá. Com elenco oriental, existem pelo menos TRÊS filmes live-action pra você conferir — Death Note (2006), Death Note: O Último Nome (também de 2006) e Death Note: Iluminando um Novo Mundo (2016), do finalzinho do ano passado.

No caso da versão do Netflix, talvez a primeira pista para o mistério de “porque este filme não ficou tão ruim assim” seja que, desde o começo, ele deixa completamente de lado a aura de seriedade e peso dramático que o anime trazia. O desenho japonês tem aqueles planos em que o ato de escrever ganha o peso dramático de uma bomba atômica, lembra? Aqui, esquece. As situações, os personagens, as escolhas de trilha sonora, até a clara referência à série de filmes Premonição apontam para um filme que tem noção do seu absurdo. Não vai dar pra levar a sério. Tem um demônio da morte que parou de comprar roupas nos anos 80. Por que não se divertir?

Este filme é uma produção B que, por acaso, conseguiu uma grana melhor pra cuidar dos efeitos especiais.

A edição, as mortes violentíssimas, até a angulação da câmera. Este filme é uma produção B que, por acaso, conseguiu uma grana melhor pra cuidar dos efeitos especiais (as cenas de óbvio Chroma Key estão ficando cada vez melhores nesse tipo de produção, hein?) e ainda bancou um bom diretor de fotografia. Então conseguimos entrar em discussões mais proveitosas sobre a temática, sobre os personagens, sobre a direção de arte. Muito melhor do que dizer “que filme ruim!” e ignorar que, antes de mais nada, é uma produção que só tá afim de diversão e farra. Que nem o Ryuk (talvez o casting mais fácil da história de adaptações de anime/mangá, hein, seu Willem DaFoe?).

Ao invés de focar no dilema (ou no determinismo) ético do protagonista, o filme acompanha um Light (Nat Wolff) muito menos coxinha, e talvez menos interessante, mas não necessariamente incoerente do que sua contraparte nipônica. Ele talvez seja uma das pessoas mais normais dentro desse filme, por incrível que pareça. A namorada dele (Margaret Qualley), que tem seu interesse e tesão despertados pelo poder de assassinar qualquer pessoa, é uma sociopata de carteirinha — e mesmo o L, detetive que quer pegar o tal Kira, parece ter algum outro tipo de distúrbio (além de também ter um senso de justiça beeem particular). Aqui, aliás, entra o parêntese maior: Lakeith Stanfield é o destaque máximo do filme.

Lakeith devora qualquer outro personagem em cena. É muito inteligente chamar um ator como ele para interpretar um personagem cujos olhos são tudo o que você vê na maior parte do tempo. Se você assistiu Corra! e lembra da cena em que o personagem dele perde o controle, certamente sabe o poder que os olhos desse ator têm. Talvez mais interessante ainda, o trabalho de Stanfield dá uma reinterpretação bem legal até mesmo nos trejeitos mais “mangazóides” do L. Ele faz um sujeito que SENTA NA MESA DO RESTAURANTE DAQUELE JEITO parecer verossímil. E isso dentro de um filme que tem um camarada que é um cruzamento do David Bowie com o Willem DaFoe e um monte de látex preto.

O filme tem vários momentos de buraco no roteiro? Tem. Vários momentos em que os personagens estão agindo de uma forma sem que você entenda o porquê? Tem. Vários momentos de canastrice? Ôpa. Vários momentos em que a edição, eficiente na maior parte do filme, escorrega legal? Yep. Os minutos finais fazem parecer que se a duração do filme passasse de uma hora e quarenta, alguém escreveria o nome do diretor num Caderno da Morte? Com certeza absoluta. Mas de alguma forma, esses problemas passam. Incomodam, claro. Mas passam.

Porque o trunfo da despretensão é tão, tão precioso e tão, tão raro que a gente muitas vezes ignora.

E aí já começou aquele monte de “Minha Nossa, Netflix começou a errar, Punho de Ferro, Defensores, e agora essa bomba! CORRAM PRA MONTANHAS!”. É como qualquer coisa na vida, gente. Os caras compram coisas – e não, não são eles que fazem tudo – que tem gente que gosta, tem gente que não gosta, e ninguém aqui precisa ser fã da DC pra começar uma guerra por isso.

Um filme como esse, que abraça seu absurdo e seu ridículo, ainda colocando umas pitadas de qualidade em lugares incomuns, não precisa ser aplaudido de pé. Mas digamos que já dá para admirá-lo. Não porque é BOM. Talvez ele não seja um filme bom. Mas é um filme que juntou um monte de coisas “que funcionam” e um monte de coisas “que não funcionam”, fez uma equação e, e no final, o saldo acaba sendo positivo. Para você talvez não. Para mim, foi. ;)

E quem sabe essa seja uma discussão muito mais interessante do que “é bom ou ruim e fim de papo”.