Prazer, nós somos o Deerhunter | JUDAO.com.br

Trazendo elementos dos dois primeiros trabalhos, banda entrega disco mais convidativo a novos fãs sem perder o que encantou os antigos

Muito provavelmente o Deerhunter é a banda desconhecida do grande público mais legal dos últimos anos. Já veteranos com suas quase duas décadas de atividade, eles ganharam a atenção de quem acompanha música em 2013, com Monomania, seu sexto disco de estúdio. Presente em várias listas de melhores daquele ano, jogou holofote no trabalho feito e gerou, além de buscas pelos álbuns anteriores, expectativa para o que viria a seguir.

Se Monomania apresentou uma banda disposta a misturar um pouco de cada coisa para ter seu próprio som, Fading Frontier, de 2015, trouxe tudo isso e muito mais. Nesse álbum, o Deerhunter acenou para algo mais pop ou um pouco mais palatável para um público não acostumado com a loucura do lado mais experimental deles. O resultado gerou um ótimo disco, ainda que ligeiramente abaixo do anterior.

Foram quatro longos anos até o lançamento deste Why Hasn’t Everything Already Disappeared?, lançado nesta sexta-feira (18). A introdução de Death in Midsummer, primeira faixa do trabalho, é bem intrigante.

Pode aparecer um ponto de interrogação em quem gosta dos antigos trabalhos, justamente por soar diferente. Com pouco mais de um minuto, a bateria entra e o arranjo ganha algo para ajudar a preencher o espaço. A música embala, ao mesmo tempo em que faz um convite ao ouvinte para continuar a audição.

O clima etéreo domina completamente No One’s Sleeping, a segunda faixa. Isso ajuda a levantar o lado mais calmo e mais experimental da banda, que brinca com efeitos em uma canção que ganha muita força entre os versos, mas consegue retomar tudo sem grandes problemas – uma virtude e tanto. E o ótimo lado instrumental aparece em Greenpoint Gothic, que acaba funcionando como uma ponte entre as duas primeiras faixas e a seguinte.

Element apresenta elementos diferentes no arranjo e tem um peso importante na letra, impulsionado pelo vocal de apoio de tom meio sinistro. Emendando com a anterior, What Happens to People é justamente aquele toque mais pop à discografia do Deerhunter. Nada experimental se comparada com outras, ela é apoiada no piano para perguntar o que acontece com as pessoas nesses tempos atuais. A virada para a segunda estrofe levanta o lado mais etéreo, mas não compromete a essência da faixa – uma das melhores lançadas por eles.

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Mas quem é do experimental não vai deixar de ser de uma hora para outra, certo? Détournement é exatamente essa loucura que encanta quem gosta desse tipo de sonoridade, ao mesmo tempo que é um repelente para as moscas mais tradicionais que detestam qualquer incursão fora de um determinado padrão. Outra boa faixa com bastante potencial é a curta Futurism que, ao recolocar o Deerhunter no caminho mais leve, consegue trazer de volta para si a leveza deixada de lado na faixa anterior.

A coisa descamba – no bom sentido – em Tarnung e seu tom quase religioso em um poema curto de tom reflexivo sobre a vida. Com ajuda do saxofone para criar um clima pesado, é uma canção extremamente melancólica e de pura infelicidade. Se Plains usa da metáfora de uma viagem de trem para falar sobre vida e morte de uma maneira até animada, Nocturne tem pouco mais de dois minutos de letra, mas o que pega nela mesmo é a longa parte instrumental que, com o psicotrópico certo, pode te levar em uma longa viagem sem limites para o infinito e além.

O Deerhunter conseguiu encantar mais uma vez no novo disco de estúdio ao acrescentar ainda mais elementos em sua vasta gama de músicas. Why Hasn’t Everything Already Disappeared? funciona como um convite a novas pessoas para dar uma chance, enquanto os antigos ainda vão ficar confortáveis o suficiente com o disco. Que é ótimo.


Fagner Morais jornalista, santista fanático, fã de Chaves, 24 Horas, Harry Potter, dos Beatles e de biografias. Tirou 9,0 no projeto de rádio que fez com mais três amigos como TCC e comemorou muito. Passou por Fanáticos por Futebol e Amigos da Velocidade até chegar ao Grande Prêmio, site em que ficou até abril de 2013. Também colaborou no ManUnitedBR, Quattro Tratti e no Olheiros no início da carreira, que não faz tanto tempo assim. Criou o Agulha na Vitrola em agosto de 2011, mas precisou fechar para não ser processado. Também criador do Music on the Run, escolheu falar sobre música por gostar muito do tema e até pensa em viver disso. Já plantou uma árvore, então ainda espera escrever um livro. Ou dois.