Tanto quanto suas ações, o discurso de Wilson Fisk é aterrorizante | JUDAO.com.br

No 11o episódio dessa terceira temporada de Demolidor, o vilão MARAVILHOSAMENTE interpretado por Vincent D’Onofrio revela o seu plano de dominação de Nova York de uma maneira muito… PRÓXIMA a nós. A sorte é que aquilo é só ficção. A sorte daquela Nova York, pelo menos.

SPOILER! São duas as LINHAS NARRATIVAS que a 3a temporada de Demolidor conta, basicamente. A primeira é o ~reencontro de Matt Murdock consigo e com o próprio Demônio que ele resolveu incorporar nas noites de Hell’s Kitchen. A segunda é a retomada do poder de Wilson Fisk, da cadeia ao discurso em rede nacional. ATÉ TENTARAM foder tudo com aquele episódio sobre o passado da Karen, mas o final dele conseguiu salvar e não chegou a incomodar como aquele de Stranger Things.

Essa, que não só é a melhor temporada da série do Demolidor como de todas as séries da parceria Netflix / Marvel, conseguiu cruzar as duas linhas de maneira MUITO interessante, transformando, de fato, em uma história SOBRE o Demolidor. Não é sobre alguma coisa ou algum outro personagem; TUDO gira em torno do Demolidor, de Matt Murdock. MAS, quando formos nos lembrar disso tudo que foi produzido desde 2008, precisaremos nos lembrar do Wilson Fisk de Vincent D’Onofrio.

Foi nesse terceiro ano que o Kingpin apareceu de fato, até pelo uso dos ternos brancos; mas se eles não fossem usados por um ator que consegue expressar, sem uma palavra, raiva, horror e um poder impressionante sobre QUALQUER UM que se coloque na sua frente, poderia ser apenas mais um vilão de super-herói. Vincent D’Onofrio está impressionante, aterrorizante e empolgante e, sinceramente, se ele não for lembrado na próxima edição do Emmy, ou até mesmo do Globo de Ouro, teremos uma das maiores injustiças da história das obras audiovisuais.

Fisk, nesse terceiro ano, consegue colocar o FBI dentro do seu bolso. Saindo da cadeia e transformando sua prisão “domiciliar” em não só sua casa de fato como o novo QG de onde controla todas as suas operações criminosas, o Rei do Crime continua evitando ao máximo sujar suas mãos (e seu terno), desgraçando completamente a cabeça de Ben Poindexter, um agente da CIA com tendências psicopatas e transtorno bipolar, que cresceu fazendo terapia e criou diversos esquemas pra conseguir ser uma pessoa “normal”. Lembra do Dexter? É tipo isso.

Fisk consegue, rapidamente, destruir toda essa normalidade dele, usando tudo o que Poindexter fazia em seu favor. E, sendo o agente EXTREMAMENTE hábil com qualquer coisa que tiver na mão (o que é muito legal colocar na conta dessa psicopatia, ao invés de ser só um poder e acabou), Fisk percebe o trunfo que tem nas mãos: ele, enfim, poderia derrotar o Demolidor.

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

Qualquer semelhança não é mera coincidência

A ideia de Fisk é realmente boa: com o Demolidor desaparecido há meses, ele primeiro diz pra polícia que Matt Murdock é um funcionário seu e, na sequência, providencia uma armadura idêntica. Ela será usada por Poindexter pra cometer algumas atrocidades, colocando assim a opinião pública contra o herói de Hell’s Kitchen.

E dá certo.

Tão certo que os caminhos que levam à redenção do Rei do Crime se abrem quase que magicamente, culminando não só na retomada do controle do crime na Cozinha do Inferno AND no resto de Nova York, como à sua liberdade, agora real oficial.

Nada disso passa batido, porém. Foggy Nelson e Karen Page fazem o possível pra conseguir derrubar novamente o Kingpin através da lei, conseguindo depoimentos de gente envolvida nos esquemas e chamando a atenção da imprensa. E é aí, quando essas duas pontas se cruzam e Wilson Fisk faz o seu depoimento depois de ter a liberdade concedida, que as coisas ficam bizarramente parecidas com o mundo real.

“Eu sei que muitos de vocês acham isso difícil de aceitar. É só porque vocês foram manipulados, envenenados para acreditar nas mentiras da mídia de que eu sou mau, que eu sou um criminoso” começa dizendo o inabalável Wilson Fisk. “Na verdade, eu sou o oposto. Porque eu desafio o sistema, eu falei a verdade e tentei fazer dessa cidade um lugar melhor, as pessoas no poder decidiram me derrubar. Me derrubar com alegações falsas. Eles mandaram alguém pra tentar me pegar. Demolidor. O assassino que agora está mostrando sua verdadeira face, que tentou matar pessoas em redação de jornal e igrejas, atacando nossas instituições sagradas. Acreditem em mim. O Demolidor é o nosso inimigo”

Wilson Fisk é claramente um fascista. Não respeita as leis, se acha acima do bem e do mal (e, bem, acaba sendo mesmo por conta de todo o dinheiro) e tem um inimigo declarado que é tão forte quanto fraco — e aí você pode escolher entre o Demolidor e a Imprensa, já que ele tenta desqualificar ambos, usando as vulnerabilidades do cérebro humano, cada vez mais evidentes.

É um discurso que assusta, claramente. Ele assume pra si a narrativa do que é o bem e o que é o mal. E, se comprarem a ideia, coloca toda a sociedade em perigo — inclusive aqueles que compraram a ideia, simplesmente porque não há ninguém mais importante no mundo do que o próprio Wilson Fisk. MESMO sua relação com a Vanessa, é essencialmente voltada pro seu bem estar. Sua “estrela guia”, tal qual Ben Poindexter.

Por sorte, Demolidor ainda é uma obra de ficção e não só o bem TRIUNFA como é tudo feito dentro da lei, que é — pelo menos inicialmente — aceita pela sociedade. Mas fica o aviso. Fica a interpretação BRILHANTE de Vincent D’Onofrio do que o mundo pode enfrentar nos outros anos, se a gente não tirar a cabeça de dentro do cu e começar a se preocupar com as pessoas ao nosso redor.

Ninguém vai salvar ninguém, especialmente quem se diz salvador, dono da verdade, do bem. Nós só temos a nós mesmos.