Desculpa Odinson, mas ela merece mais ser Thor do que você | Judão

Não sabemos ainda o que o futuro reserva para Jane Foster. Mas que ela é uma protagonista muito mais digna não apenas do Mjolnir, mas do título, ah, isso é

Assim que saiu o especial Generations: Sam Wilson & Steve Rogers Captain America, confesso que me bateu um medinho.

Conforme a gente te contou aqui, neste número da leva de especiais que mostram alguns dos heróis da nova geração reencontrando com as versões clássicas em momentos CRUCIAIS, o Capitão América Sam Wilson retorna ao “nosso” tempo depois de um rolê com o Steve Rogers na Segunda Guerra Mundial e abre mão do escudo e do título, voltando a ser apenas Falcão — o que é, obviamente, uma baita cagada. Porque concordo 100% com o texto do Renan: o mundo tem, claramente, espaço para dois Capitães América. Ainda mais o mundo de hoje.

O medinho que me bateu, na real, é um medão: de que a Marvel esteja tentanto agradar mais gregos que troianos aqui, com toda esta história de Legacy. Os “novos” personagens ganhariam “novas” identidades, enquanto os “antigos” voltariam aos seus lugares “de direito”. Assim sendo, quem curte a pegada mais diversa tá coberto, enquanto a turminha do “diversidade não vende, quero meus heróis de volta como eram!” também se sentiria satisfeita.

Se isso acontecer com todo mundo, com Miles, com Riri, é a Casa das Ideias efetivamente se apequenando. Porque Miles Morales não é apenas um, sei lá, Spider-Boy, Kid Arachnid, qualquer merda assim. Ele é DE FATO um Homem-Aranha tanto quanto Peter Parker. E merece ser chamado assim. No entanto, seguindo esta linha de raciocínio, o que me assusta ainda mais é o que a editora estaria pretendendo fazer com a Thor, Jane Foster, que se tornou a responsável por empunhar o Mjolnir depois que o filho de Odin se provou indigno.

De verdade, foda-se se esta história toda de digno ou não parece bastante rocambolesca – porque, cá entre nós, o Thor original é um deus do trovão nórdico, sabe? E, por mais que esta seja uma adaptação da Marvel e não necessariamente o seu correspondente da mitologia, ainda assim estamos falando de um bando de fucking guerreiros vikings barbudos em busca do Valhalla, cujos conceitos do que é ou não “digno” já seria bastante discutível (pra estes caras, fugir da batalha, ainda que isso signifique salvar vidas, soaria bastante indigno, não?).

Mas o que importa é que, com esta saída, Jason Aaron construiu um dos momentos mais interessantes do Thor em muitos anos. Aliás, eu arrisco dizer que um dos melhores gibis da Marvel, como um todo, em décadas, de verdade. E fez Jane Foster ser um Thor muito melhor do que o próprio Thor – que, aliás, também melhorou DEMAIS na abordagem de um deus caído sem o Mjolnir ao seu lado.

Aaron soube pesar os melhores momentos do Deus do Trovão, mesclando em seu DNA uma ótima VERVE para coadjuvantes que J. Michael Straczynski soube trabalhar em sua passagem pelo título; aquela bela construção de uma mitologia própria, inspirada mas ao mesmo tempo livre das amarras da nórdica, que foi o grande destaque de Walt Simonson; e principalmente a discussão da dualidade entre o humano e o divino que marcou os primeiros anos de Stan Lee e Jack Kirby.

Sobre este último item, aliás, cabe a grande ressalva: se nos gibis dos anos 60, Thor, o garoto arrogante, foi enviado por Odin à Terra para dividir o corpo com um deficiente físico, para aprender o que era humildade, agora tivemos o inverso. Uma humana lutando contra o câncer que toma conta de seu próprio corpo foi para Asgard, no meio dos deuses, impedir uma guerra entre os nove mundos e encarar de frente a arrogância do próprio Odin, putaço, querendo provar que mandava mais do que qualquer um.

Por outro lado, tivemos a luta de Odinson, não mais Thor, lutando para encontrar a sua própria identidade. Montado no mal-humorado bode Toothgnasher e com o machado Jarnbjorn em mãos, ele enfim aprendeu uma lição que o Thor dos cinemas também aprendeu no Ragnarok: ele é muito mais do que um simples martelo. Uma visão bem mais interessante do herdeiro do trono asgardiano do que o sujeito pomposo e de fala enrolada. Um Thor menos mitológico e mais HERÓI, que tava dando gosto de ver TAMBÉM, tanto quanto a própria Jane. Um Thor finalmente mais HUMANO.

Tudo isso, claro, regado a uma dose considerável de aventura no melhor estilão da Marvel, com salpicadas sutis de bom humor e uma delicadeza memorável para líder com o assunto do grande e apavorante C.

No número 700 do gibi, que acabou de sair, eis que começa o arco Death of Mighty Thor. Um batismo triste que, de alguma forma, já anuncia o que podemos esperar dos próximos meses: a morte de Jane Foster. As imagens do futuro reveladas por Karnilla, rainha das nornes, indicam que é pra este caminho que vamos seguir...

Além disso, o novo visual que o desenhista Russell Dauterman fez pro Thor, versão masculina, filho de Odin, traz o cara segurando uma réplica (ou algo do gênero) dourada do Mjolnir, combinando com uma nova versão de seu braço esquerdo, aquele que tinha sido cortado fora (pois é). Não, não é o Rompe Tormentas do Bill Raio Beta, antes que alguém arrisque dizer. O formato é diferente. Bonito, elegante, coisa e tal. Mas me parece na medida certa para substituir Jane Foster como Deus do Trovão assim que moça for tirada de cena.

Vejam só, eu tenho, de verdade, uma baita fé, confiança, no Aaron depois de tudo que ele escreveu nestes três anos à frente da passagem de Jane Foster carregando o posto de defensora de Asgard e Midgard. Sei bem que ele pode sair com uma conclusão bem pouco óbvia e, de verdade, é o que eu ESPERO. “Este assunto, do câncer, é algo muito importante e que afetou muita gente, muitos de nossos leitores”, explica Aaron, em entrevista pro site da Marvel. “E eu sempre disse que isso não é algo que eu faria sumir com mágica. Não faríamos a Jane esfregando uma lâmpada e o câncer vai embora”.

Concordo 200% com o cara. Seria até leviano tratar este assunto desta forma, embora este seja o mundo dos gibis, fantasia, e existam ZILHÕES de formas diferentes pra resolver isso, de maneira digna (roubando o adjetivo da vez). Se é para ela morrer, que seja, NESTE CASO, eu juro que entendo, ainda que me deixe triste pra caralho. Mas me preocupa que o legado que Jane Foster construiu seja jogado no lixo. Que seja apenas o caso de “Thor volta ao seu posto para honrar o nome da amada Jane Foster”.

MAS. QUE. GRANDE. BOSTA. SERIA.

Jane deixou de ser a coadjuvante eterna, a namoradinha do herói, a dama em perigo, e mostrou a que veio. Encarou heróis lendários e deuses assustadores de frente, mesclando coragem e fragilidade sem parecer forçado. Isso é MUITO importante nos dias de hoje. Fundamental, crucial. Tanto quanto o mundo precisa de dois Capitães América, o mundo precisa de uma DEUSA do Trovão, humana, que ajude a jogar luz sobre seres aparentemente imutáveis e indestrutíveis.

Jogar isso fora, por mais que Jason Aaron garanta que pensou em tudo desde o começo, que já sabia o final quando começou a escrever, é uma cagada monstruosa.

“Eu sempre gostei do equilíbrio entre as coisas cósmicas e aquelas histórias mais reais, humanas, emocionais”, tenta explicar o roteirista. “Este sempre foi o desafio com o Thor. Você pode passar muito tempo no espaço, lutando contra elfos e dragões, e perder a parte humana disso tudo. Então, sempre fico tentando encontrar a humanidade no Thor, não importa qual seja a versão dele”.

O conceito é este mesmo, cara. E te digo que, hey, quero muito ler boas histórias do Thor, gênero masculino. Só que, desde que Jane Foster ergueu o Mjolnir pela primeira vez, não consigo mais enxerga-lo também como “o Deus do Trovão”. Para ele, ser o Odinson, herdeiro de Asgard, já se tornou uma batalha e tanto. E era ESTA batalha que eu queria ver. Pergunta pro Taika Waititi.