Desvendando os segredos do Projeto Mega-Ultra Super Secreto | Judão

Batemos um papo exclusivo com o roteirista e desenhista Sam Hart, que explicou um pouco mais sobre a trama cheia de metalinguagem que ele tá tentando financiar via crowdfunding

À primeira vista, as imagens liberadas do chamado Projeto Mega-Ultra Super Secreto não ajudam muito a entregar do que se trata e tampouco mostram uma diferença fundamental com relação a tudo que a gente lê por aí, é tudo mais do mesmo. Temos o sujeito tentando ser aquele super-herói típico do mercado americano, musculoso e de roupa colante. Mas pelas cores das VESTIMENTAS você já saca que ele é um justiceiro mascarado brasileiro, um Capitão América tupiniquim – no caso, atuando na Amazônia, para proteger a floresta da ameaça do Nuklear, um vilão atômico.

Clichê? Pois é, a ideia era exatamente essa. “O nome original do Mega-Ultra até era Capitão Amazônia, mas foi alterado para funcionar também em inglês”, revela Sam Hart, o britânico criado no Brasil que assina o roteiro e a arte do projeto, em entrevista para o JUDÃO. “É um nome que é obviamente exagerado e autopromocional ao máximo, e ele ser loiro de pele clara também não é por acaso – na HQ logo descobrimos que há algo por trás disso”.

A grande graça aqui é que a história do Mega-Ultra é só UMA parte desta HQ, disponível para financiamento coletivo via Catarse. O herói vai estrelar apenas 22 páginas, tamanho comum de um gibi padrão Marvel/DC, com o traço característico cheio de ação, colorido, aquela parada que a gente conhece. Mas a trama é complementada por outras 26 páginas, estas P&B, com uma pegada cartunesca (“fofinha até”, detalha o Sam) que remete ao que autores como David Mazzucchelli (Asterios Polyp) ou Craig Thompson (Retalhos) usaram para contar relatos pessoais ou autorais.

6.TMCR_01LETRAAs estrelas desta outra parte da história bem mais urbana e contemporânea, que se intercala com a primeira, são dois autores de quadrinhos da cidade de São Paulo. Eles são Thalitta Machado e Cesar Reis e são, veja você, justamente os criadores do Mega-Ultra.

“Na parte dos quadrinistas há muito de real, incluindo as discussões sobre arte e comércio, carreira, aqueles DEVANEIOS enquanto trabalhamos”, explica ele, deixando claro que tem um pouco de ficcional aí também. “Afinal, a história se passa em um Brasil idealizado no qual quadrinistas podem viver de sua arte, fechar contratos de desenho animado / filmes e até enriquecer”.

Não por acaso, os nomes do casal de quadrinistas têm justamente as iniciais de TradeMark e CopyRight. “É uma brincadeira que espelha uma das temáticas do projeto: temos que cuidar do que é nosso, seja herança cultural ou propriedade intelectual”.

A intenção é essencialmente JUSTAPOR as duas narrativas e os dois estilos (“ironicamente, o estilo cartoon é o mundo real e o estilo realista é o mundo inventado”) para provocar uma reflexão sobre como nós, leitores e autores, nos relacionamos com o imaginário.

E mesmo dentro da trama aparentemente simplista do Mega-Ultra, a história dentro da história, que começa na primeira página como se fosse uma revista mensal que você pega aleatoriamente na banca já no meio de uma aventura, os autores pretendem tratar temas como identidade x aceitação e meio-ambiente x tecnologia.

Ah, sim. Usamos “autores” mesmo, no plural. Porque o Sam não tá sozinho nesta, mas sim contando com a ajuda do Cadu Simões, conhecido principalmente por seu trabalho com o divertido Homem-Grilo. “Conheço o Cadu de longa data, quando ele ainda montava uma banquinha com seus fanzines do lado de fora dos eventos de quadrinhos, e admiro seus roteiros e a seriedade com que estuda os temas sobre os quais escreve”, revela Sam. Quando criou a história do Mega-Ultra e logo depois imaginou a trama paralela da Thalitta e do Cesar, sua preocupação foi não conseguir dar uma voz singular para cada personagem. Em resumo, ele não sabia como iria lidar com os diálogos, para que parecessem naturais e “humanos” de um lado e imponentes e “super-heróicos” do outro.

“O Cadu logo aceitou meu convite e resolvi então trabalhar no estilo Marvel da época do Stan Lee”, diz. Basicamente, o processo consiste em fazer os diálogos apenas depois da arte ficar pronta. “No caso, eu sou o roteirista, desenhista e o Cadu é o dialogista”.

Neste combo entre o Cadu e o Sam (que, além de atuar com publicidade, já trabalhou para editoras americanas e inglesas desenhando personagens como Power Rangers, Robin Hood, Rei Arthur, Joana D’Arc, Starship Troopers e Judge Dredd), há quem se questione: ambos são bastante conhecidos no mercado nacional, certeza que tirariam este projeto do papel sem precisar se arriscar num Catarse da vida, certo? Sam entende, mas discorda, porque além de gostar do controle que a publicação independente dá ao autor, ainda acha esse projeto um pouco arriscado para uma editora tradicional.

“Estou misturando dois gêneros que não costumam se cruzar, super-herói e autoral; dois estilos de desenho distintos...”, explica ele. “E ainda estou tratando de temáticas que, mesmo sendo interessantes, por enquanto não ganham muito destaque no meio de quadrinhos – ecologia, identidade nacional, a ambição do quadrinista”.

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Só que Sam tem ainda outros motivos para embarcar nesta. “Para os artistas que, como eu, costumam gostar de apenas ficar desenhando e não são afeitos a muita interação social, fazer uma campanha dessa nos força a sermos mais verbais e nos tornar mais disponíveis”, afirma. “Fazer a divulgação ao longo do período em que fica no Catarse permite construir um público e também ter uma conversa com ele através do Facebook, Twitter e de entrevistas como essa”.

O autor ainda fala com total naturalidade de um assunto que quase ninguém gostaria de responder: o que fazer se eles não alcançarem a meta (quando esta matéria foi fechada, Sam e Cadu tinham atingido 57% da meta de R$ 7.000, faltando 16 dias para o encerramento da campanha)? Bom, eles se apertam, mas o gibi sai mesmo assim, mantendo os planos de lançamento para a Comic Con de São Paulo.

Com relação ao futuro do projeto, Sam avalia que pela natureza do Mega-Ultra, com ou sem Thalitta e Cesar, existe a grande possibilidade dele se desdobrar pra outras mídias. “Eu adoraria que virasse uma animação, acho que tem várias histórias que daria para contar com ele, mas isso depende de vários fatores que estão além do meu controle – e, na verdade, tenho outro dois projetos que estou doido para escrever, com as idéias coçando meu cérebro faz mais de um ano”.

A respeito de adaptações, aliás, Sam está num momento bastante especial, já que a graphic novel que ele desenhou para a Oni Press ao lado do escritor Antony Johnston, The Coldest City, está sendo rodada em Hollywood. A trama fala sobre uma agente secreta que é convocada para encontrar uma série de agentes duplos que estavam sendo levados para o Ocidente. “Até onde sei – pois eu não tenho acesso a informações de bastidores – as filmagens em Berlim e Budapeste já acabaram no começo do ano e agora estão fazendo efeitos de pós-produção e a edição”.

Com direção de David Leitch (sim, sim, aquele mesmo), o filme será lançado em agosto de 2017 e traz no elenco Charlize Theron, James McAvoy, Sofia Boutella e John Goodman. “Eu não tive influência alguma, mas obviamente estou extremamente feliz com a escolha dos atores”, diz Sam, com uma tonelada de pontos de exclamação para reforçar. ;)