Diabo da Guarda: quando Kevin Smith ZEROU o Demolidor | Judão

Lançada em 1998, arco escrito pelo cineasta e ilustrado por Joe Quesada é, até hoje, uma louca e maravilhosa história, central ao ATREVIDO

De todos os brilhantes personagens da Marvel, o Demolidor sempre foi o dono supremo do meu coração. Muitas vezes relegado a um papel de segundo escalão no universo da Casa das Ideias, Matt Murdock é um dos personagens de maior potencial dramático, seja por ser um vigilante, um deficiente, um advogado, ou principalmente, um homem de fé que quase sempre desafia suas crenças.

São muitas facetas de um mesmo homem que, se trabalhadas de forma equilibrada, rendem histórias absurdamente fodásticas, uma vez que quase sempre elas geram ricos conflitos internos. Só é uma pena que essa SINERGIA termática não seja constante.

Pegue, por exemplo, a recentemente aclamada fase de Mark Waid com o diabrete. Numa pegada mais super-heroica, a deficiência (que é, também, o super-poder) do Demolidor, bem como seu trampo como advogado, tomaram brilhantemente o foco de suas histórias, mas relegaram o aspecto da fé para um nível secundário.

Eu não tinha lido muita coisa do ATREVIDO ainda, na vida, quando um certo arco de OITÔ! edições caiu em minhas mãos. Era uma história de lampejos sobrenaturais, que atingia diretamente questões próprias não só da fé católica, à qual Matt Murdock é adepto, mas como também da fé cristã, no geral. Ao mesmo tempo, era também um ensaio sobre as diferentes marcas do personagem, sob a luz dum conflito que trazia todas elas à tona, umas contra as outras. O nome era Diabo da Guarda.

Escrito por Kevin Smith e ilustrado pelo grande Joe Quesada, Diabo da Guarda é muito mais do que uma das melhores histórias já feitas pela Marvel; é uma das mais icônicas de um período difícil para a editora.

Lançada em 1998, ela mostra um Matt Murdock sem rumo depois de ser abandonado por Karen Paige, que passa a ser atordoado por fantasmas do passado em meio a um mistério que parece prenunciar a vinda do Anticristo — uma confusão ainda maior quando você se dá conta que isso tudo ainda inclui participações de Homem-Aranha, Viúva Negra, Doutor Estranho e do Mercenário, mas, acredite, tudo funciona e para caralho.

Com uma criação católica, Smith enxerga Murdock para além de seu eu racional, tocando no coração do herói e em dilemas morais que atingem todos aqueles que professam determinada fé. É emocionante, enquanto leitor AND cristão, ver como o cara consegue chegar fundo em discussões sobre justiça, perdão e mágoa. Mais do que isso, é primoroso como ele mergulha no passado do Demolidor para resgatar figuras icônicas, como sua mãe, construindo um dos momentos mais emocionantes e poderosos das histórias do Diabo de Hell’s Kitchen.

“A história de fundo com a mãe dele, Maggie, que o abandonou quando criança e se juntou a um convento. Aquilo era fantástico para mim, tendo sido criado na religião; ter um super-herói católico”, disse o próprio Kevin Smith, nos extras do DVD de Demolidor (AQUELE, do Ben Affleck). “Eu brinquei muito mais com isso na minha história, colocando-o no confessionário, realmente me apoiando no catolicismo, porque era propício a isso”.

O resultado é uma das sequências ~religiosas de maior profundidade que já vi numa obra SECULAR. Quando confrontada por um Matt descrente, pronto para desafiar a própria existência de um Deus, a irmã Maggie, sua mãe, conta uma simples parábola. É um texto relativamente manjado, é verdade, mas se você for, tal qual o Demolidor, um homem nascido com o botãozinho da fé em funcionamento, é difícil não se balançar. E é o que rola com ele. Foda!

Assim, Smith se apropriou do que é chamado de “angústia católica”, um sentimento de eterna culpa e busca por redenção, e aplicou à já torturada mente de Matt Murdock. Tudo parte do plano de um inesperado vilão, que se revela ser um comentário metalinguístico sobre a posição secundária à qual a própria Marvel vinha relegando o Demolidor nos anos 90. Uma jogada brilhante e ousada, mas não a única.

Em Diabo da Guarda, Smith ainda resgata um personagem importantíssimo da vida de Murdock, só para dar a ele uma trágica morte. É um acontecimento de grande impacto, que confere ao arco não só uma ressonância histórica, como as sensações de urgência e risco próprias de uma grande história.

Polêmico, mas muito celebrado, o arco tornou-se, ao longo dos anos, representativo da revolução feita na Marvel Comics nos anos 90 – para muitos, determinante para que a editora continuasse a existir. Depois de penar para conseguir rivalizar a Distinta Concorrência, ter a entrada de Quesada e a instituição do selo Marvel Knights, a Casa das Ideias passou a focar mais em suas histórias e menos em suas artes, lançando mão de roteiristas diversos e até curiosos, como o próprio Smith.

E já que temos falando tanto de Defensores AND as outras séries Marvel / Netflix, a primeira temporada de Demolidor, é exemplo de como aplicar conceitos tão explorados por Smith e Quesada com sucesso. Como esquecer as brilhantes cenas de diálogo CONFESSIONAL entre Matt e seu padre de confiança? Enquanto a segunda temporada deu AQUELA desviada dessa faceta do herói, quem sabe futuros arcos de Murdock AND FRIENDS possam resgatar ao menos alguns elementos de Diabo da Guarda?

Se viermos a ter um Mercenário por aí, já será bom sinal. :D