DirecTV Now pode ser a última esperança da TV paga – ou seu último suspiro | Judão

Lançado nesta quarta (30), serviço promete streaming e canais pagos por US$ 35. Se der certo, pode inspirar propostas parecidas até no Brasil – mas, se der errado…

A TV paga em todo o mundo – tirando a China – está definhando. Os EUA, que já foram o mercado-modelo dessa indústria, é o grande exemplo. Em 2011, 87% das famílias tinham algum tipo de assinatura de TV, de acordo com o Leichtman Research Group. Agora em 2016, são 82%. A penetração da TV paga caiu para os níveis de 2006 e dá sinal de que não irá parar por aí. Já são 20 milhões de casas que, hoje, cortaram a corda.

São diversas as explicações, claro. Desde o desgaste do modelo da TV a cabo ao surgimento de serviços de streaming como Amazon e Netflix, passando por uma mudança do comportamento das pessoas e o uso mais constante das redes sociais e a internet para se informar.

Pra tentar reverter esse quadro – ou criar um novo modelo que a permita continuar existindo nesse novo mundo – está sendo lançado nessa quarta (30) o DirecTV Now, serviço da operadora que é parte da AT&T (sim, aquela mesma que tá em processo de compra da Time Warner).

Obviamente o produto só está disponível nos EUA — até dá pra você assinar com um IP brasileiro, mas não haverá qualquer conteúdo pra ver lá dentro, depois. :P

São mais de 120 canais ao vivo disponíveis, além de 15 mil títulos on demand.

No papel, a ideia do Now é interessante. Os pacotes começam a partir de US$ 35, com cerca de 60 canais “ao vivo”, e vão até US$ 70, no pacotão com mais de 120 canais. Se alguém quiser HBO e Cinemax, é só acrescentar US$ 5, e é possível cancelar a qualquer momento. Além disso, mais de 15 mil títulos on demand desses canais estão disponíveis no lançamento, organizados num esquema parecido com Apple TV, Netflix ou Amazon. Os valores são de 20% a 30% mais baratos que pacotes do tipo nas operadoras tradicionais — no geral, as famílias americanas gastam uma média US$ 103,10 com esses serviços, de acordo com a Leichtman.

É bom falar que o plano mais barato deve satisfazer muita gente, já que inclui ESPN e os canais da Time Warner, como CNN e Cartoon Network. Pra testar, o serviço oferece sete dias grátis – mas, pra quem comprar uma Apple TV, dá pra ver três meses na faixa, por exemplo.

No entanto, o valor é mais caro que, por exemplo, o Netflix, que cobra US$ 9,99 em seu plano padrão. Além disso, são aqueles mesmos canais de sempre. Se, por um lado, são marcas conhecidas, por outro não fizeram ninguém se animar em manter o velho plano de TV a cabo. Alguns desses canais, claro, tem conteúdos exclusivos interessantes, como a HBO – mas você pode ir lá e assinar o HBO Now, sozinho, por US$ 14,99, enquanto com o DirecTV Now sairia no mínimo por US$ 40.

DirecTV Now

A questão aqui – e que, dependendo do ponto de vista, pode ser um problema – é que o DirecTV Now não será a única despesa de quem assinar. Ele é um serviço OTT, Over The Top, ou seja, o ~sinal vem via web. Com um bom plano de internet, o gasto total fica entre US$ 80 e US$ 100 por mês. Já é uma grana. Ao menos se o usuário for assinante da AT&T, uma boa notícia: o streaming não terá qualquer impacto no uso da cota mensal do plano do celular.

Outro problema é que, por enquanto, a rede aberta CBS não entrou em acordo com a operadora, o que tira os jogos da NFL que ela transmite da jogada, por exemplo (ou The Big Bang Theory e NCIS, se você preferir as séries). É de se esperar que a emissora venda caro um acordo, isso se houver, já que eles estão apostando no próprio CBS All-Access, que terá o primeiro grande conteúdo exclusivo com Star Trek: Discovery.

Aliás, se o cara curtir futebol americano, não terá vida fácil no DirecTV Now: a Verizon tem exclusividade na transmissão de partidas da TV aberta. Resumindo, só vai dar pra ver esses jogos na TV ou no computador, mas nunca no celular.

Outra treta envolvendo essa mesma TV aberta é que Fox, ABC e NBC só estarão disponíveis em cidades nas quais eles possuem emissoras próprias, incluindo aí as grandes. Nas outras, onde operam afiliadas, a maioria dos usuários terá apenas acesso aos vídeos sob demanda desses canais, a partir do dia seguinte da exibição. O CW, aquele das séries da DC (entre outras), também está faltando, mas isso deve ser corrigido em breve (afinal, AT&T tá comprando metade da dona do canal).

O DirecTV Now é aquela nova tecnologia com o cheiro de naftalina dos contratos da velha mídia

É aí que entra a compra da Time Warner pela AT&T. Quando tudo estiver aprovado e integrado (isso, claro, considerando que o processo transcorra sem maiores problemas na ESFERA JURÍDICA), a DirecTV contará com todo um enorme REPOSITÓRIO de franquias, títulos e personagens que podem ser transformados num conteúdo que só terá espaço no Now. Porém, até tudo isso acontecer e efetivamente dar em algo, leva tempo.

Entre a compra da LucasFilm pela Disney e o lançamento de Star Wars: O Despertar da Força, por exemplo, levou três anos. Séries de TV são mais rápidas pra se produzir, claro, mas a antiga lojinha do George Lucas é imensamente menor que a Time Warner, então as coisas devem se equilibrar...

Por enquanto, a DirecTV fez uma parceria com o Fullscreen, permitindo aos assinantes do Now assistirem os conteúdos exclusivos da plataforma da parceira sem qualquer custo adicional. Além disso, já está fechada uma parceria com a recém-fundada produtora da Reese Whiterspoon, a Hello Sunshine, que tem como foco produções estreladas por mulheres. Também foi anunciada uma produção exclusiva chamada Taylor Swift Now – que, como o nome indica, será uma série de 13 episódios com a cantora.

Reese falando da Hello Sunshine no lançamento do DirecTV Now

Reese falando da Hello Sunshine no lançamento do DirecTV Now

Já são suportados diversos dispositivos no DirecTV Now, incluindo não só smartphones com sistemas operacionais Android e iOS, mas também o Amazon Fire TV e o Chromecast — só que sem suporte ao 4K em qualquer plataforma. Também não rolará DVR (ou seja, não dá pra gravar a programação ao vivo) mas é esperado que uma versão com gravação na nuvem esteja disponível no próximo ano. No entanto, o DVR perde apelo quando pensamos que o DirecTV Now tem toda a parte de streaming, oferecendo (parte do) conteúdo nesse formato após a exibição “ao vivo”.

Outra limitação, essa mais irritante, é que só é possível usar uma assinatura apenas em dois dispositivos ao mesmo tempo.

A partir de agora, o mundo do entretenimento vai ficar de olho no DirecTV Now. Se der certo, pode indicar um caminho para ser seguido para as concorrentes nos EUA e até operadoras em outros países, como o Brasil. Também pode significar o fim definitivo do cabo ou do satélite enquanto formatos de distribuição de conteúdo em vídeo, ao menos considerando o consumidor final. Afinal, tudo que é feito lá estará disponível na internet por um custo menor. É só todo mundo ter tempo de migrar de um formato pro outro – e bom conteúdo exclusivo vai provavelmente acelerar isso aí.

Se der errado, vai ficar claro que ser cabo ou OTT pouco importa para o consumidor final – o que está morrendo é mais do que isso, é o formato dos canais lineares. Como um dos grandes argumentos do DirecTV Now é justamente a “televisão ao vivo”, um insucesso dela vai revelar que as pessoas estão nem aí pra isso. Assim, será o caso das operadoras se reservarem ao espaço de meras fornecedoras de internet – e olhe lá.

Se esse segundo cenário, mais sombrio, se comprovar, a compra da Time Warner pela AT&T tem tudo para ter o mesmo destino da compra da mesma Time Warner pela AOL.

Vamos ver.