Diretor de Support The Girls quer que você releve o lado sombrio dos ~brestaurants | Judão

Criador e diretor do filme, Andrew Bujalski, até sabe sobre as histórias ruins desses lugares, mas espera que você ignore isso um pouco. Pelo bem da comédia, sabe como é.

Café con piernas, brestaurant, maid café… Talvez você conheça ou já tenha ouvido falar sobre restaurantes com garçonetes muito bonitas que se vestem em trajes mais ~reveladores. Os mais conhecidões são o Hooters, que tem até unidade em São Paulo, e o Heart Attack Grill, famoso também pelos sanduíches exagerados e outras peculiaridades.

A gerência desses estabelecimentos costuma ser muito atenciosa. Segundo relatos de mulheres que trabalham lá, se alguma atendente se sentir desrespeitada, constrangida ou for tocada por algum cliente, ele será imediatamente expulso. Mas MESMO ASSIM é um problema. Lugares assim trazem a ideia de que, tá, não pode tocar, mas aquelas meninas todas são lindos enfeites, objetos de decoração que AINDA POR CIMA servem você. Quem poderia pedir por mais, certo?

Pois é.

Em Junho, nós conhecemos o trailer do filme Support The Girls. Nele, uma gerente de um bar desse tipo (Regina Hall) tem seu super otimismo testado quando vive várias desventuras por se importar e querer ajudar suas funcionárias. E o criador e diretor do longa, Andrew Bujalski, falou ao THR sobre o processo de produção dessa história e, principalmente, sobre o que acha das controvérsias que carrega.

Ele conta que, há uns anos, frequentava bastante lugares assim se impressionava com o ambiente. “Não era como um strip club. Lá existe a ideia de que os homens que entram ali precisam ser tratados como fodões. E nesses restaurantes o que impera é a normalidade, um sentimento de pertencimento e o discurso de que está tudo bem se você quiser ficar olhando aquelas meninas, não precisa se sentir mal sobre isso.”

Andrew diz também que se interessou muito pela ideia de “vender sexo sem vender sexo” desses estabelecimentos e que, no final das contas, a sua protagonista é uma certa representação dele mesmo, já que ele nunca se sentiu mal indo lá porque era EXATAMENTE o público alvo. “Ter uma personagem que era um pouco alheia àquele ambiente me ajudou: Lisa não estaria lá, provavelmente, se não fosse gerente. Mas é o seu trabalho, então ela sempre tenta achar algo de bom nisso.”

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O Hooters foi criado em 1983. Segundo a história oficial, o restaurante nasceu para combinar músicas dos anos 50 e 60 que trouxessem de volta o sentimento do sonho americano e as “comidas e aperitivos masculinos preferidos” dos fundadores. Sim, essa maluquice de COMIDA DE HOMEM (!!!) faz parte do CANON deles. E a ideia das Hooters Girls veio em seguida, pra completar tudo.

E, veja bem, homens não gostaram NADA de terem seus pedidos pra trabalhar ali negados. Em 1997, eles ganharam o direito de contratar apenas garotas usando como argumento o conceito de qualificação profissional de boa-fé. De acordo com o Conversation, eles disseram que PRECISAVAM contratar apenas mulheres porque sua presença ali (seus corpos, né, RISOS) faziam parte da EXPERIÊNCIA DE VENDA. A objetificação está na ESSÊNCIA, meus amigos.

Em um estudo conduzido pela Sage Journals, descobriu-se o óbvio: o dano psicológico causado nessas funcionárias é grande e parte SIM dessa cultura. Em uma amostra de 253 garçonetes, as que eram MAIS propensas a ter uma experiência negativa com frequentadores eram justamente as que trabalhavam em breastaurants. Elas passam por grandes doses de ansiedade, raiva, episódios depressivos e sentimentos degradantes por conta das suas interações com clientes, além de internalizarem muito mais facilmente as cobranças por padrões de beleza.

Com tudo isso, Bujalski disse estar ciente das pesquisas e que se preocupa com a recepção de sua história, mas que espera que as pessoas percebam que aquilo vai além dos decotes: “Acho que o que me conforta é que esse filme não é sobre responder sobre as manchetes que saem por aí. Estamos tentando vender uma narrativa humana”, disse. “Como um contador de histórias, você só pode esperar que as características dos seus personagens e suas jornadas nunca saiam de moda.”

Estabelecimentos assim existem sob uma ideia muito antiga e errada de que mulheres estão aí para serem vistas e servirem, e há um QUÊ de jogo sujo ao transformar isso em uma comédia fofa para alegrar a família. Ressignificar e tentar retratar algo essencialmente ruim como SUPER empoderador é bobagem, Seu Andrew. É mais um jeito de monetizar em cima dessa história, mesmo. E disso a gente já tá cansada.

Eu sei, eu sei: não há nada que seja de todo mal. Dá pra se divertir e ter bons momentos quando se trabalha num lugar desses. Mas firmar a ideia de que basta ter uma gerente que seja fofa, bom humor e a VONTADE de transformar aquilo em algo positivo TALVEZ seja um pouco contraproducente. E não me admira que quem esteja fazendo isso seja um homem. :P