Disney e Fox fecham acordo com o Hulu, que pode ser a salvação da ESPN | Judão

Canal esportivo vem sofrendo com a queda de assinantes e receita, mas a internet pode ser o caminho para garantir um futuro minimamente viável

O mundo terá cada vez menos cabo e cada vez mais streaming e, nesse mundo, como diria o JARGÃO PUBLICITÁRIO, o conteúdo é rei — provedores e grandes grupos de mídia já se tocaram. Por isso que a AT&T tá comprando a Time Warner, e é por isso que, na última terça-feira (1), o Hulu anunciou um novo acordo com os grupos Walt Disney Company e 21st Century Fox. Um acordo BEM interessante.

Donald e a Raposa já eram sócios do Hulu, junto com Turner (que é parte da Time Warner) e NBCUniversal. No entanto, as duas primeiras estão aprofundando essa união, justamente na parte de conteúdo. Por esse novo acordo – que a Variety definiu “apenas como uma formalidade” – 35 canais dos dois conglomerados estarão disponíveis ao vivo e sob demanda no serviço de streaming.

Essa lista abrange os sinais do Fox Sports, ESPN, Disney Channel, Fox News, FX, National Geographic e diversos outros. O Hulu já tem um acordo parecido com a Turner, então a conta será engordada com canais como TNT, CNN, Adult Swim e Cartoon Network. Além disso, um acordo com a NBC já está bem próximo e é, de certa forma, óbvio, adicionando Bravo, E!, MSNBC, CNBC, Syfy e USA ao pacote.

Hulu espera ter canais de notícias, séries, filmes e esportes quando for lançar o novo serviço, provavelmente no começo de 2017.

Isso faz parte de um projeto maior do Hulu, que pretende lançar um serviço de programação de televisão em algum momento do começo de 2017. Por esse novo modelo deles, o assinante não terá apenas filmes e séries ao “esquema Netflix”, mas no modelo chamado Over The Top, ou OTT. É, basicamente, como se você assinasse TV paga sem qualquer fio, decodificador ou instalação na sua casa. Vem tudo via internet, sendo acessível de qualquer dispositivo conectado na GRANDE REDE. Ao final, tudo isso deve ser EMBRULHADO numa assinatura por volta de US$ 40, de acordo com o Wall Street Journal.

Dá pra dizer que é algo como “o melhor de dois mundos”, e é justamente isso que a DirecTV vai fazer com o DirecTV Now, que chega provavelmente agora em novembro e deverá ser turbinado pelos conteúdos da Time Warner após a união com a AT&T.

“Nós estamos construindo um serviço que oferece aos assinantes os mais procurados canais da televisão – e os canais da 21st Century Fox e The Walt Disney Company são essenciais para o mix”, disse o CEO do Hulu, Mike Hopkins, ao fazer o anúncio. “Com esses dois acordos assinados, e parceiros adicionais que virão, Hulu irá dar para fãs de todas as idades acesso ao vivo e sob demanda para seus programas favoritos em uma forma completamente nova, mais flexível e altamente personalizada”.

CEO do Hulu, Mike Hopkins

CEO do Hulu, Mike Hopkins

Ele não vai falar, mas o Hulu – e outros serviços do tipo que existem nos EUA, como o Sling TV – são uma alternativa de futuro para os canais pagos. Os serviços “on”, “play” e “go” não decolaram, principalmente por estarem atrelados basicamente às assinaturas de TV paga tradicional. E, mesmo que cada opção do tipo desse certo, o mercado seria inundado por centenas de serviços de streaming, sendo inviável para o assinante conseguir ter todos eles. É mais fácil, então, unir para conquistar, colocando no Hulu o velho sinal linear ao vivo (só que agora via web) e os programas também para serem assistidos sob demanda.

Porém, em especial, isso é importante para uma parte relevante da Disney: a ESPN. O grupo de canais esportivos vem sendo duramente atingindo pelo fenômeno de “cortar a corda”, perdendo muitos assinantes mês a mês. Só em outubro, pra você ter uma ideia, foram menos 621 mil assinantes nos EUA. Se você pensar que, em média, uma casa tem quatro pessoas, estamos falando aí de menos 2,5 milhões de telespectadores em 31 dias – número igual a população de Belo Horizonte. É muita coisa.

Isso já está se refletindo em queda de audiência pura e simples: o sagrado futebol americano de segunda, o Monday Night Football, caiu 21% em telespectadores no mês passado. Aliás, mesmo entre aqueles que ainda não cortaram a corda, a televisão linear vem se tornando cada vez menos relevante. Os adultos dos STATES, de forma geral, estão assistindo a 18 minutos menos de TV paga por dia quando comparado com dois anos atrás.

Com esse cenário preocupante em vista, o Business Insider fez um levantamento interessante: comparou o quanto o grupo ESPN gasta com direitos de eventos esportivos (que são caros, estimados em US$ 7,3 bilhões anuais em 2017) com a renda que provem dos assinantes (em média, cada um paga US$ 7 por mês indiretamente, via operadora de TV paga). Isso já considerando a média do declínio mensal desses assinantes. O resultado é ainda mais alarmante.

Se as estimativas se confirmarem, os gastos apenas com os DIREITOS de transmissão passarão a receita TOTAL com assinantes no começo de 2018. Mesmo que o valor por assinatura seja reajustado para US$ 8, a conta estoura em meados de 2021.

Se você pensar que a rede esportiva tem outros gastos, como equipamentos, salários, estúdios, viagens e etc., essa provavelmente já é uma conta negativa, com a diferença (e o lucro) bancados com o dinheiro dos anunciantes. Ok, eles podem subir os preços das cotas de patrocínio e continuar vivendo, mas uma hora essa conta para de fechar – afinal, quem vai querer continuar pagando mais para impactar cada vez menos pessoas? Ainda mais com a internet aí como uma possibilidade mais barata pra anunciar?

Do jeito que é hoje, o modelo de negócio da ESPN vai morrer.

Ao colocar seus canais esportivos no Hulu, a Disney cria uma nova forma de receita para eles. Obviamente não vai render US$ 7 por assinante – afinal, pacotes de OTT e streaming tendem a ser mais baratos que a TV a cabo tradicional – mas vai, do outro lado da conta, garantir que não caia o número de telespectadores. Assim, a ESPN consegue ganhar um dinheiro a mais dos dois lados. Ah, e eles ganham um tempo também para renegociar os acordos existentes, algo que CERTAMENTE também terá que mudar.

A ESPN poderia, obviamente, lançar um serviço próprio, cobrando, sei lá, US$ 10 de cada um. Conheço muita gente que só tem TV por assinatura por causa dos esportes e trocaria fácil os 300 canais por alguns ESPN por esse preço. Porém, a rede esportiva teria acordos com operadoras que não permitiriam isso. Ao que parece, está escrito nas linhas pequenas dos contratos que os canais não podem lançar serviços “por fora”. Simples assim.

E aí, via Hulu, a história é outra: estão vendendo o sinal para um serviço por assinatura, e não lançando o deles. Provavelmente também é isso que está guiando os outros canais pagos a acordos do tipo.

Chicago Bulls

Resta saber como dois atores importantes desse mercado vão reagir. Com canais esportivos via streaming, as operadoras de TV paga vão perder um dos grandes motivos que as pessoas possuem para assiná-los. O outro, que é bom conteúdo exclusivo, também já foi pelo ralo. A AT&T comprou a Time Warner pensando nisso. E os seus concorrentes, o que eles vão fazer? Vão continuar com a banda tocando enquanto o Titanic afunda?

Há também as ligas esportivas. Se a internet e o streaming são o futuro, e é um meio bem mais fácil de se chegar, porque eu preciso de um intermediador pra fazer algo que eu, sem mais ninguém se metendo, já posso fazer? A NBA já oferece, por exemplo, o League Pass, com o qual eu posso assistir a TODOS os jogos por US$ 13,99 mensais – ou, se for só pra ver o time do coração, US$ 7,99. Se o meu negócio é basquete, a necessidade tá resolvida aí.

E se for só de brincadeira, com US$ 4,99 você tem a chance de assistir a oito jogos por mês.

Mais uma vez entra aquela história de que assinar diversos esportes, como a ESPN oferece, pode não fechar a conta... Mas o futuro parece bem mais interessante com essa oportunidade de escolha e a guerra de preços que ela pode causar, né?