Diss Tracks: treta em forma de música | JUDAO.com.br

As canções de resposta são um verdadeiro clássico no mundo do rap — mas tão longe de ser exclusividade de um único gênero musical, na real

Tudo começou lá em 2012, quando o rapper Machine Gun Kelly, uma daquelas EPÍTOMES do rap branco, achou por bem ir ao Twitter falar sobre a filha do Eminem. “Ok, então eu vi uma foto dela... e tenho que dizer que ela é gostosa pra caralho, do jeito mais respeitoso possível já que Em é o rei”. Detalhe importante é que MGK tinha 22 anos na época... enquanto Hailie Mathers tinha apenas 16.

Pouco depois, Kelly afirmou que seu trampo foi banido da Shade 45, uma estação de rádio da qual Eminem é dono, em retaliação a seus comentários. A tensão entre ambos ficou no ar durante um bom tempo, ainda que silenciosa, até que, em Agosto, Marshall Mathers lançou de surpresa seu novo disco de inéditas, Kamikaze. Trazendo um Eminem afiadíssimo, o álbum é repleto de provocações a uma série de artistas, de Ja Rule a Iggy Azalea, passando por Die Antwoord e Lupe Fiasco — e chegando, claro, no Machine Gun Kelly.

Em Not Alike, ele não deixa barato: “Now you wanna come and fuck with me, huh?/ This little cock-sucker, he must be feeling himself/ He wants to keep up his tough demeanor, so he does a feature”. E caso o novato não tivesse entendido, o veterano resolve deixar BEM claro: “But next time you don’t gotta use Tech N9ne [Nota do Editor: rapper com quem MGK colaborou em canções que, em tese, teriam mensagens para Eminem nas entrelinhas] if you wanna come at me with a sub-machine gun/ And I’m talking to you but you already know who the fuck you are, Kelly/ I don’t use sublims and sure as fuck don’t sneak-diss”.

Mas ao invés de fazer como boa parte da galera mencionada por Em e postar uma resposta nas redes sociais, MGK foi além de transformou sua resposta em música, lançando com certa rapidez, no comecinho de Setembro, Rap Devil, cujo título é uma sátira com Rap God, do Eminem. “Man, you sound like a bitch, bitch / Man up and handle your shit (ugh) / Mad about somethin’ I said in 2012 / Took you six years and a surprise album just to come with a diss”, diz ele na letra. Mas você acha que parou aí? Porra nenhuma, porque duas semanas depois, lá estava o Eminem com uma NOVA música em mãos, Killshot, que obviamente é uma resposta à resposta do Machine Gun. “Wait, you just dissed me? I’m perplexed / Insult me in a line, compliment me on the next / Damn, I’m really sorry you want me to have a heart attack”, versa o cantor, pra depois complementar: “Listen, man, Dad isn’t mad / But how you gonna name yourself after a damn gun / And have a man-bun?”.

E ainda sobrou pro P. Diddy, aka Sean Combs, já que Eminem manda uma acusação bem da séria, dizendo que MGK só vai ter um hit de verdade no dia em que Diddy admitir que foi responsável pela morte de 2Pac. OUCH.

Esta treta entre os dois não é novidade no mundo da música e principalmente dentro do rap, onde as rivalidades entre os músicos são escancaradas. E isso tem até um nome: diss track, faixas com letras claramente produzidas para atacar outras pessoas.

Embora tretas públicas sejam comuns desde a música clássica (ou você acha que um mundo em que Beethoven dizia que Rossini seria um bom compositor se seu professor tivesse batido mais na bunda dele era tão repleto de calmaria quanto parece?), um dos primeiros registros abertos de uma diss foi You Keep Her, lançada em 1962 por Joe Tex, cantor do sul dos EUA famoso por aquele soul clássico dos anos 60/70. A canção é uma “homenagem” a ninguém menos do que James Brown, por quem a esposa de Tex o trocou. Mas aí o casal brigou e Brown teve a cara de pau de escrever pro colega cantor dizendo que “podia recebê-la de volta”.

Também nos anos 60, o icônico DJ e produtor jamaicano Lee “Scratch” Perry já fazia as suas faixas sacaneando os coleguinhas — a primeira delas, Run for Cover, lançada em 1967, é uma tiração de sarro com a “coragem” de seu antigo produtor, Coxsone Dodd (grande nome no meio do ska e que, anos mais tarde, seria “atacado” novamente, desta vez por Bob Marley, em Small Axe), com quem tinha encerrado as atividades. É o mesmo caso de People Funny Boy, de 1968, na qual ataca seu antigo chefe, o produtor especializado em reggae Joe Gibbs, colocando inclusive o som de um bebê chorão na faixa pra enfatizar o que estava querendo dizer. Mas Gibbs não se fez de rogado e respondeu com People Grudgeful, lançada no mesmo ano.

Naquela mesma época, os Beach Boys, estes bons moços, vejam só, já tinham feito a sua dose de provocação em Surfers Rule, do disco Surfer Girl (1963). Ao final da faixa, eles fazem uma clara provocação aos seus rivais da época, o grupo americano The Four Seasons, do cantor Frankie Valli, a outra única banda local a conseguir resistir, nas paradas de sucesso, à chamada “invasão britânica” de Beatles, Stones e cia. “Four Seasons, you better believe it”, dizia a letra enquanto Brian Wilson mandava um falsetto sacaneando com a melodia de Walk Like a Man (o maior sucesso dos Four Seasons e que, muito provavelmente, você conhece e nem imaginava que era deles).

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Em se falando na invasão britânica, aliás, nem os besouros de Liverpool escaparam deste tipo de provocação registrada em disco. Em seu álbum solo Ram (1970), Paul McCartney lançou Too Many People, uma canção que John Lennon entendeu claramente que era sobre ele e Yoko. “That was your first mistake / You took your lucky break and broke it in two / Now what can be done for you? / You broke it in two”, dizia a letra — e, anos mais tarde, Macca admitiu, numa entrevista pra versão impressa da Playboy, que sim, era sobre o antigo amigo. Pistola até dizer chega, Lennon então mandou How Do You Sleep?, faixa que está no disco Imagine, de 1971, e na qual provoca, também sem dar nomes aos bois, seu parceiro, fazendo crer que ele não é tão bom compositor quanto imagina. “The only thing you done was yesterday / And since you’ve gone you’re just another day”, afirma a faixa, fazendo a gente lembrar imediatamente de Yesterday, dos Beatles, e de Another Day, da carreira solo de McCartney.

Ainda no mundo roqueiro, impossível esquecer do barraco familiar de Tattooed Millionaire, primeiro single do álbum solo inaugural de Bruce Dickinson, frontman do Iron Maiden. A canção era nitidamente uma sacanagem com as bandas de rock americanas, seus excessos e suas traições. Mas, de acordo com o baixista do Mötley Crüe, Nikki Sixx, a tal coisa da “traição” pode ser interpretada literalmente. “Alguém disse que Tattooed Millionaire era sobre mim, mas eu não sei”, afirmou o americano, em entrevista ao Blender. “Acho que tem algo a ver com o fato de que transei com a esposa dele e o cara ficou puto. Não foi minha culpa, quero deixar claro. Eu nem sabia que ela era esposa dele”. Em sua recém-lançada biografia, What Does This Button Do?, no entanto, Bruce nega a inspiração.

Quem acompanha as agruras do mundinho pop sabe bem, por exemplo, dos EMBATES declarados entre Katy Perry e Taylor Swift, supostamente iniciados porque uma teria roubado dançarinos de turnê da outra (há quem diga que Perry começar a namorar John Mayer, ex de Taylor, possa ter ajudado a complicar as coisas). Bad Blood seria dedicada a Katy? Swish Swish, cujo título replicaria o ruído da cauda de uma serpente, animal que os fãs associavam à figura de Taylor, era um recado direto para o seu desafeto? Será que aquele visual no clipe de Look What You Made Me Do é MESMO um recado direto para a Katy? O fato é que depois que Katy Perry enviou literalmente um ramo de oliveira como pedido de paz pra Taylor Swift, tudo indica que a treta está morta... ao menos por enquanto.

É no rap, no entanto, que as diss tracks “brilham” de verdade, neste caso sem medo algum de citar os nomes dos atacados verbalmente. Basta lembrar, por exemplo, de Hit ‘Em Up, de Tupac Shakur, na qual são desfilados diversos insultos + menções cheias de pólvora contra os rappers da Costa Leste, seus inimigos jurados, incluindo e principalmente The Notorious B.I.G., inflamando ainda mais uma rivalidade que acabou numa terrível tragédia.

Também clássico é o pouco sutil recado de Jay-Z para Nas e Prodigy (Mobb Deep) em Takeover, que usa samples de Five to One (The Doors), Fame (David Bowie) e Sound of da Police (KRS-One) enquanto ridiculariza o estilo de flow que Nas usa em seus próprios raps: “Nigga switch up your flow, your shit is garbage / What you trying to kick knowledge? (Get the fuck outta here)”. E que tal relembrar a igualmente histórica No Vaseline (1991), na qual Ice Cube metralha seus antigos companheiros de N.W.A., Eazy-E, Dr. Dre, MC Ren e DJ Yella, além do empresário Jerry Heller, por questões relativas a direitos autorais. O episódio é claramente tratado, aliás, no filmaço Straight Outta Compton — que, sério, você devia ver.

E o Eminem, bom, já fez diss pra Deus e todo mundo mas, o mais curioso de tudo é que ele recebeu um de volta de uma fonte bastante inesperada: Mariah Carey. Lá por volta de 2001, depois do fracasso comercial que foi seu filme Glitter, a cantora não apenas encarou uma série de conflitos pessoais e acabou hospitalizada como teve que ouvir o rapper dizendo que a namorou durante seis meses. Não foram poucas as vezes em que ele a sacaneou em suas canções e ela revidou, primeiro com Clown, do disco Charmbracelet (2002) e depois com Obsessed (2009), que CLARAMENTE era um recado pro músico platinado. No melhor estilo rap, menos de 15 dias depois da segunda canção ser lançada, lá estava ele com The Warning, a sua própria resposta: “Only reason I dissed you in the first place is because you denied seeing me. Now I’m pissed off”.

Mas cê acha que isso é coisa apenas de gringo? Claro que não. Desde Que Irmão é Você?, recadinho do Câmbio Negro pro GOG, passando por Fênix do Dexter pro Afro-X, por Falso Profeta do MV Bill pro Pregador Luo e chegando até às muitas diretas e retas de Nocivo Shomon (Retaliação, A Rua é Quem?) e do C4bal (Malleus Maleficarum, 128 Barras, Invictus) pro Emicida, o que não falta é material em português pra quem curte a fina arte da treta.

Todavia, contudo, o próprio Emicida tem um recado bastante importante sobre isso em seu recém-lançado petardo, a canção Inácio da Catingueira. Na letra, ele deixa claro que “nóiz contra nóiz num é nada mais que adiantar o trabalho dos ganso”, reforçando que colocar rapper disputando com rapper, ainda mais se forem negros e de origem periférica, é o que aqueles homens brancos que tão lá em cima acenando com a grana mais querem. “Por que eu num respondi os otários? Digo agora, bom, tá / Num país onde os politico diz o que diz / Essas porra de diss pra mim é igual Bee Gees / Fofinho, querendo confete / No fim das conta é a mema merda / Só o sistema brincando de marionete”.

Vale muito a pena ouvir (até porque a música é BEM foda). E refletir.