Douglas Adams e uma toalha que não dá pra esquecer | Judão

Conversamos com Jem Roberts, autor de A Espetacular e Incrível Vida de Douglas Adams e do Guia do Mochileiro das Galáxias, biografia do escritor inglês que acabou de ser lançada no Brasil. :)

O tal do Dia do Orgulho Nerd, que vem sendo celebrado com pompa e circunstância nos últimos anos pela imprensa e, claro, pelo comércio, na verdade não existe e acaba sendo uma mistura de duas coisas: sim, tem o fato de que o primeiro Star Wars estreou no agora longínquo dia 25 de Maio de 1977. Mas é também o chamado Towel Day, o “Dia da Toalha”, em homenagem ao escritor britânico Douglas Adams. A primeira celebração ao autor de O Guia do Mochileiro das Galáxias aconteceu no dia 25 de maio de 2001, duas semanas depois do seu falecimento.

A grande questão que fica é a seguinte: no meio desta coisa toda de “orgulho nerd” (que é um tanto questionável, pois basta ver a área de comentários de qualquer site especializado, quando o assunto está minimamente relacionado a questionamentos de diversidade de gênero/sexual/étnica, para entender o que quero dizer) e, principalmente, ao colocar um blockbuster como Star Wars no meio do balaio de gato (levando em conta ainda que o último dia 4 de Maio já foi o #StarWarsDay, afinal), o tributo à obra de Adams não pode acabar sendo ofuscado?

“Olha, eu nunca vi nenhum fã de Star Wars querendo tirar a importância de se relembrar Douglas Adams”, diz em entrevista ao JUDÃO o escritor e comediante Jem Roberts, responsável pela biografia A Espetacular e Incrível Vida de Douglas Adams e do Guia do Mochileiro das Galáxias, que acaba de ser lançada no Brasil, via Editora Aleph. “Mas é bom que eles lembrem que já têm o seu próprio dia. Então, a não ser que eles queiram celebrar com a gente no espírito do Guia, talvez eles devessem dar um rolê numa galáxia muito, muito distante”, brinca.

A figura da toalha existe na chamada “trilogia de cinco livros” de Adams como um elemento fundamental para constar na mochila de qualquer viajante das galáxias. Como diz o primeiro livro, aliás: “Você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você -estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa”.

Traduzido para mais de 30 línguas desde a primeira publicação do livro original, em 1979, a adaptação do programa cômico que Adams escrevia para a BBC Radio 4 cerca de um ano antes, O Guia do Mochileiro das Galáxias é uma saga que virou peça de teatro, quadrinhos, jogo de computador e até uma superprodução hollywoodiana, em 2005. Mas, mesmo assim, Roberts acredita que ainda estamos falando de uma ficção científica de nicho, bem diferente de um Star Wars ou Star Trek da vida. “Aliás, acho até que o trabalho do Adams é ainda mais nichado hoje do que era há 30 anos, quando o Guia explodiu como uma espécie de Harry Potter. E talvez seja isso que aconteça com o próprio Harry Potter, aliás, daqui mais uns vinte anos”, afirma. “Mas creio que grande parte dos críticos, por exemplo, têm um profundo respeito por sua obra como um dos grandes da literatura inglesa. Ou, pelo menos, os críticos que valem a pena ser ouvidos”, provoca.

Com fãs famosos como Neil Gaiman, Douglas Adams foi um escritor com uma afiadíssima veia cômica, que inclusive chegou a escrever (e atuar) no programa dos caras do Monty Python e também foi responsável por alguns episódios de Doctor Who. Guitarrista amador e fã de rock progressivo, ateu radical, ativista pela defesa do meio ambiente, fanático por tecnologia, tudo isso era um pouco de Adams. Sua maior obra, o Guia do Mochileiro das Galáxias, fala sobre as desventuras do último humano sobrevivente da Terra, Arthur Dent, depois que o nosso planeta é ameaçado de demolição por uma construtora Vogon, com o objetivo de dar passagem para uma ponte hiperespacial. Daí a descobrirmos que o número 42 é o sentido da vida, na verdade, acaba sendo um pulo.

A Espetacular e Incrível Vida de Douglas Adams e do Guia do Mochileiro das Galáxias

Escrito com autorização da família de Adams, incluindo sua filha Polly e sua irmã Susan, A Espetacular e Incrível Vida de Douglas Adams traz alguns extras, como trechos inéditos, relatos e novas piadas. Mas, assim como uma busca detalhada nos muitos Macs que Douglas usava acabou revelando o livro póstumo O Salmão da Dúvida, de 2002, o acesso irrestrito que Roberts ganhou aos arquivos do autor revelou muito conteúdo não publicado e que, apesar de não finalizado, pode ver a luz do dia em algum momento. E detalhe: estavam em caixas e mais caixas de papeladas na St John’s College, uma das 31 instituições universitárias da Universidade de Cambridge, onde Adams estudou. “O incrível material perdido que encontrei com certeza vai abrir caminho para um livro escrito pelo próprio Douglas, o que é um tributo que realmente vale a pena conferir”, explica.

Em 2009, o escritor da série de livros Artemis Fowl, Eoin Colfer, recebeu a missão de escrever, com o apoio dos detentores dos direitos da obra de Adams, um sexto livro continuando as aventuras de Arthur Dent, Ford Prefect e Trillian, a galera do Guia do Mochileiro. Batizado de E tem outra coisa..., ele não foi exatamente um sucesso de público e crítica. “Foi um passo bastante ousado para o Colfer, claro, mas o resultado torna questionável que outra tentativa com um autor diferente vá acontecer num futuro próximo”, aposta Roberts.

E enquanto o detetive particular Dirk Gently, outra criação de Adams, continua vivo na série de quadrinhos da IDW e numa nova série em oito episódios encomendada pela BBC America e com roteiro de Max Landis, muito tem se falado a respeito de outras versões do Guia em diferentes mídias, incluindo uma nova série de TV. Mas um tipo de adaptação não deve dar as caras tão cedo: o cinema.

Roberts acredita que um novo filme não deve ser considerado tão cedo. “Acho que este navio já partiu do porto”, brinca. “Olha só, talvez você tenha que ter lido o livro para entrar a fundo na discussão sobre os lados positivos e negativos do filme, mas é preciso pensar que a produção da Buena Vista/Disney tinha o objetivo de atrair novos fãs para a franquia, e conseguiu. Muita gente no mundo todo viu e adorou”, relembra ele, que ainda sugere que os fãs revejam a produção com amor no coração. “Afinal, este foi aquele filme de Hollywood que o Douglas tanto queria”.

Quando questionado sobre qual é a sua obra favorita de Douglas Adams, como fã, Jem Roberts hesita um pouco. “Cara, esta é difícil de responder”. Pois é, imaginei que seria. “Embora eu ame os livros de Dirk Gently, talvez a grande criação de Douglas tenham sido mesmo os programas de rádio do Guia do Mochileiro das Galáxias. Nada bate aquilo”.

Tá querendo conferir e saber se ele está realmente certo? Aqui você baixa todos os 12 programas originais em MP3. ;)