Do DIY ao tal do indie mainstream | Judão

O rock independente, do tipo faça você mesmo, ganhou corpo junto com a postura anárquica e anticomercial do punk – mas, nos dias de hoje, virou até um gênero musical abraçado pelas gravadoras

Mobilização e contestação. Estes foram, desde sempre, os pilares da chamada contracultura – um movimento social e cultural (ah vá) que tem picos constantes historicamente, mas que, de alguma forma, se mantém na ativa mesmo em certos períodos de baixa. É a cultura underground, alternativa, marginal, inconformada, que surge como resposta à cultura vigente.

Embora a Geração Beat de escritores e poetas nômades americanos, aqueles boêmios e hedonistas, seja considerada por alguns historiadores como o primeiro traço da tal contracultura lá na década de 50, foi só nos anos 60 que ela começou a ganhar mais corpo.

Aí surgiriam aqueles grupos de jovens que tinham uma postura questionadora com relação à cultura – como foi o caso dos hippies, cuja mobilização pacifista contra a postura bélica dos EUA e de alguns países da Europa gerou algo até hoje tão poderoso e icônico como o Festival de Woodstock, um verdadeiro marco da nossa cultura pop. Os ventos da mudança sopravam.

Só que, na segunda metade dos anos 70, algo chegou pra causar um terremoto. Uma reação justamente ao sonho de paz e amor da década anterior. Na terrinha do Tio Sam, tinha Ramones, Blondie e Television tocando num bar escuro e sujo chamado CBGB. Nos domínios da Rainha, um bando de baderneiros de roupas rasgadas e cabelos estranhos querendo cuspir na cara da sociedade e questionar o status quo. “Mude a si mesmo e você poderá mudar o mundo. Em certos aspectos, o punk ainda era bastante parecido com os anos 1960”, diz Jon Savage, autor do icônico livro England’s Dreaming (1991), em entrevista para a revista Cult.

Segundo ele, se o punk mudou tudo, essa era JUSTAMENTE a intenção. “Em 1976, existia uma geração sem privilégios, jovem demais para ser hippie, velha o bastante para querer seu próprio tumulto. Como em toda polêmica, ela amava o que alegava odiar e, assim, tornou-se a cultura jovem da geração seguinte – e, no final dos anos 1970, já era uma instituição tanto quanto os refugos hippie que os punks tanto desprezavam”, explica.

Os punks, em sua maioria adotando um discurso de raiva e frustração contra o tal do sistema, eram adeptos do anarquismo, uma ideologia política que se coloca contra toda e qualquer hierarquia e dominação de cima pra baixo. Portanto, era de se esperar que as bandas punks estivessem pouco satisfeitas em entrar no esquema de gravação e lançamento tradicional, com as grandes e endinheiradas gravadoras conduzindo tudo. Além disso, o som simples, direto e raivoso desta galera em nada combinava com o rock progressivo que as empresas de música, rádios incluídas, amavam dos anos anteriores, com canções longas, solos imensos e uma série de firulas sonoras milionárias com orquestras e a caralha toda.

Qual seria a saída aí, portanto? Faça você mesmo. ;)

Originalmente, a expressão Do It Yourself (que também atende pela sigla DIY) pode ser identificada desde 1910, associada à atividade de manutenção e ampliação doméstica. Desde os anos 50, no entanto, os americanos começaram a usar o termo pra descrever atividades RECREATIVAS conduzidas por conta própria, pra se divertir de um jeito mais barato. Ao invés de ir comprar o jogo da moda na loja de brinquedos pra curtir com a criançada, por que não fazer o seu próprio em casa?

Foi justamente este espírito que os punks adotaram, para manter controle pleno e absoluto de cada passo necessário para o lançamento de seus discos: faziam as gravações em suas próprias garagens utilizando tecnologias RUDIMENTARES de registro sonoro que começavam a ser barateadas; criavam as capas utilizando métodos de colagem similares aos que eram vistos nos fanzines; faziam poucas cópias em fitas cassete baratas; e cuidavam eles mesmos da venda de discos e demais materiais de merchandising como camisetas, pôsteres e adesivos.

Pôster de algum show dos Ramones

Autora especializada no tema, Amy Spencer defende em seu livro DIY: The Rise of Lo-Fi Culture que o ‘faça você mesmo’ é uma forma que cada um de nós tem de moldar a sua própria identidade cultural, desenvolvendo nossas versões únicas e particulares do que achamos que está faltando na cultura de massa. “Você produz sua própria revista, grava seu próprio disco, publica seu próprio livro. O segredo aqui é que qualquer um pode ser um artista ou produtor. O ponto é que é preciso se envolver”.

Com a ajuda do amigo fotógrafo Robert Mapplethorpe, por exemplo, Patti Smith financiou um disco de 45 rotações com duas músicas, Hey Joe / Piss Factory. Foram só 2 mil exemplares, com direito até a um pequeno encarte no jornal The Village Voice que indicava onde o álbum podia ser comprado. Os punks não apenas faziam o seu trabalho, mas também negociavam onde ele seria vendido, essencialmente naquelas pequenas lojinhas locais de discos e livros, bem distantes das grandes corporações e gigantescas lojas de departamentos.

Todo este esquema de brodagem, obviamente, fazia com que as coisas fossem muito mais baratas. Vejamos o primeiro 33 rotações dos Ramones, autointitulado e lançado em 1976, aquele que tem o hit absoluto Blitzkrieg Bop. Custou meros US$ 6,3 mil pra galera do selo independente Sire Records. Já do outro lado, vamos lembrar de Rumours, discaço do Fleetwood Mac que foi sucesso de vendas em 1977, justamente o ano dourado do punk. O custo para a Warner Music? Quase US$ 1 milhão.

Como o punk era um gênero musical que ia além da música e se tornava uma verdadeira manifestação social, o DYI refletia muito da agenda política de seus integrantes. Movimentos como o Rock Against Racism e as bandas feministas se apoiavam um bocado em seus próprios fanzines, criando uma rede de mídia underground que informava e inflamava a galera pra participar de ações e protestos coordenados. Temos nossas próprias revistas, nossas próprias rádios piratas, nossas lojas... Sério, mainstream: não precisamos de você. ;)

Logo depois, o do it yourself seria abraçado por uma série de outros movimentos culturais, incluindo a galera do skate, por volta dos anos 80 – que, além de fazer os próprios equipamentos, consertando rodinhas e modelando shapes, mergulhava na marcenaria para criar rampas em lugares que não existiam. Mas parte da turma da música, não necessariamente apenas a punk, ainda continuaria se apoiando totalmente neste modo de vida, gerando o que se convencionou chamar de rock independente. Ou, como seria mais fácil dizer, o tal do indie rock. Mas calma, sem confusão aqui. Talvez este não seja o INDIE que você está pensando.

“O indie rock era algo não tão palatável para uma grande gravadora, era o som que os vovôs sentados nas poltronas de presidente das majors não entendiam e diziam que não era música”, explica Marcelo Costa, editor do site Scream & Yell, em entrevista ao JUDÃO. “Daí, com o advento das college radios nos EUA e dos selos independentes na Inglaterra, essas bandas começaram a ter mais espaço e criou-se um mercado independente paralelo ao mainstream”.

Então tínhamos lá o U2 vendendo milhões de The Joshua Tree pela Island, que era um subselo da poderosa Universal, ao mesmo tempo em que o R.E.M. estava lançando o Document pela I.R.S. Records e o Smiths lançando o Strangeways, Here We Come pela Rough Trade. “Ou seja, U2 era mainstream, R.E.M. e Smiths eram indies, de independentes mesmo”, conta. “Com a explosão do Nirvana no começo dos 90, muita gente que era rock alternativo, indie, foi parar no mainstream, e daí tudo se confundiu, pois a sonoridade indie virou mainstream”.

Ou seja: a palavra INDIE virou um gênero em si.

Marcelo lembra que hoje temos bandas como Wilco (que é “alternative country”, uma espécie de indie de chapéu de palha), Arcade Fire (que ainda lança discos pela minúscula Merge Records) e Decemberists (que, apesar de lançar pela Capitol, é essencialmente indie), por exemplo, que mantém esse espírito de independência artística que “contamina” a música e a faz soar... indie. Mas, pelo outro lado, ele ressalta ainda que acontece de falarem sobre uma determinada banda, que está no mainstream, com grande gravadora, mas tem uma sonoridade indie. “Ou seja, Smells Like Indie Spirit”, brinca. “Temos nomes como Two Door Cinema Club, que pretendem soar indies, mas são muito mais um produto de major tentando um ‘street cred’ num filão que não é o dele (e muita gente cai na ladainha)”.

O jornalista defende que é difícil unir os “indies” enquanto gênero musical e/ou subgênero do rock. “Talvez bandas como The 1975 sejam mais indies que Sonic Youth, por exemplo, que terminou a carreira em major sem deixar de soar... alternativa”, opina. Aliás, apesar de vivermos um boom de artistas e selos indies no Brasil, por exemplo, Marcelo acredita que eles possam ficar “magoados” se forem chamados de indies. “Talvez ‘indie’ tenha virado um palavrão do quilate de ‘pop’. Nesse ponto, a galera vai TERGIVERSAR e se dizer alternativa”.

Mas, se pensarmos apenas na questão ‘independente’ como sendo ‘artista que não está numa grande gravadora’, então podemos encontrar artistas independentes em diversos gêneros, do rap ao pop, do rock ao eletrônico e até no jazz. “Hoje em dia, ser independente é quase como uma questão de sobrevivência para o artista que quer tomar conta de sua própria carreira”.

Se está difícil para a Marisa Monte, para o Arnaldo Antunes e para o Carlinhos Brown a ponto deles terem que se reunir como Tribalistas, imagina pra quem é independente

Nos dias de hoje, com os avanços tecnológicos e as plataformas/aplicações digitais, ficou muito mais fácil pra esses músicos independentes – que, com um único computador, conseguem gravar, mixar, copiar, divulgar e ainda vender e analisar os resultados de seus discos. A tecnologia transformou o DIY numa espécie de movimento, muito mais fácil e simples de abraçar. Tá mais sussa, portanto? “Sussa nunca vai ser, mas caminhamos bastante e já dá para fazer um nome, garantir uns shows, gravar uns discos, vender umas camisetas. A grande questão, sempre, é o aluguel, a conta de luz, de água, de telefone e de internet no fim do mês. Como transformar o que você grava no seu quarto em algo rentável? Qualquer sexta dessas o Globo Repórter ensina”.

Com ou sem DIY, com ou sem os valiosos conselhos de Kiko Loureiro, o ponto negativo é que, ainda, é difícil sobreviver de música independente no Brasil. “O cara rala pacas, vende o almoço para pagar o jantar e muita gente não tá nem ai”, afirma. “Se está difícil para a Marisa Monte, para o Arnaldo Antunes e para o Carlinhos Brown a ponto deles terem que se reunir como Tribalistas, imagina pra quem é independente...”.