...e é por isso que eu fiquei tão feliz com os Oscars de A Forma da Água | Judão

Obrigado, mais uma vez, Guillermo Del Toro.

Eu tenho escrito muito mais textos pessoais do que eu acho que deveria, aqui no JUDAO.com.br. Ao mesmo tempo, por conta da depressão, ansiedade e os tratamentos pelos quais tenho passado, tenho me conectado muito mais comigo — provavelmente muito mais do que eu gostaria, mas o assunto não é esse, por enquanto.

Ainda que meus sentimentos sejam completamente opostos a isso e, em momentos de crise, nada sequer faça sentido, eu sei o quanto lidar com si mesmo é importante. Pesado, complicado, muitas vezes tenho vontade de desistir, mas importante.

Nos últimos meses, tem sido muito difícil pra mim conseguir trabalhar normalmente e/ou conseguir manter minha atenção fixa em alguma coisa por um período de tempo que ENGLOBE, por exemplo, um filme. Tenho precisado fazer pausas de horas, ou dias, pra conseguir terminar de assistir a alguma coisa em casa; no cinema, não são poucos os momentos em que meus pensamentos fogem completamente do que tou vendo na tela, sendo necessário voltar em algum momento pra assistir de novo, dessa vez com um estado físico e mental um pouco diferente (sobre isso, aliás, até escrevi aqui depois de assistir a Star Wars: Os Últimos Jedis* pela segunda vez).

Faz tempo que não consigo me conectar com outras coisas, especialmente arte, como fazia há algum tempo e que eu acredito que seja tão importante quanto se conectar consigo. Ouvir Paramore todos os dias, quase os dias inteiros, tem me ajudado bastante. Mas em relação a filmes e séries, bom, praticamente nada tem colocado nos trilhos.

Até que eu assisti à Forma da Água, que nesse último domingo (04) ganhou o Oscar de Melhor Filme e rendeu a Guillermo Del Toro o de Melhor Diretor. Escrevi sobre ele aqui.

Guillermo Del Toro, Sally Hawkins e Doug Jones no set de A Forma da Água

Fazia tempo que eu não conseguia me conectar com um filme como o fiz com A Forma da Água, a ponto de ter a capacidade, veja só você, de analisá-lo sob diferentes pontos de vista e ângulos. Você se ligou que o Monstro do filme é o Strickland, certo? Que o verde representa o mal, né? E que o peixão parou de fugir quando encontrou uma sala de cinema?

A Forma da Água é um filme que depende de muita empatia e, por que não?, de um certo conhecimento sobre quem é Guillermo Del Toro. Praticamente TODOS os filmes são assim, essa é a verdade, e não é à toa que diretores e produtores gostam tanto de falar sobre seus projetos — no caso de Del Toro, nunca entrevistei ninguém que fale tanto, com tanta paixão, sobre o que faz, além de sentir tanto quando NÃO pode fazer.

Eu só não tinha entendido como, e por quais motivos, razões ou circunstâncias, esse filme mexeu tanto comigo. Por que eu tava ficando realmente puto com quem fazia comparações com outros filmes e o acusava de plágio? Por que, pela primeira vez em milhões de anos, eu não conseguia dizer qual filme EU gostaria que ganhasse e qual filme eu achava que a Academia premiaria? Por que eu fiquei tão feliz quanto quando meu time faz um gol no momento em que o Del Toro subiu ao palco as duas vezes pra receber o prêmio? Tão feliz como se fosse uma pessoa realmente próxima de mim que tivesse levado pra casa as estatuetas do Careca Pelado.

Porque, no fim das contas, Guillermo Del Toro é de fato uma pessoa próxima. Não digo isso por conta do dia que ele me chamou de “my friend” e me deu um puta tapão nas costas quando edi pra tirar uma foto com ele. É que ele se expôs mais do que nunca em A Forma da Água. Mostrou o tanto que se sente sozinho, incompreendido, diferente, triste; o quanto os monstros, agora sim criaturas, significaram e continuam a significar pra ele; o quanto esse negócio de cinema o ajuda a seguir em frente.

Eu não sei contar histórias, muito menos tenho qualquer capacidade de fazer um filme. Não tenho como me expressar dessa maneira. Mas eu tenho um site, que eu criei há quase dezoito anos e que eu não sei por mais quanto tempo vai continuar no ar... Deve ser por isso que tenho usado tanto esse espaço pra me expor.

Não porque eu quero que alguém se conecte comigo. Mas pra colocar pra fora os meus próprios monstros... Algo que eu aprendi com esse mexicano.

Obrigado, mais uma vez, por essa aula, Guillermo Del Toro.