O Slayer continua cuspindo fogo | Judão

Sem dois integrantes MUITO difíceis de substituir, a lenda do thrash metal retorna sem medo de chutar a porta. AINDA BEM!

Furioso, violento, visceral, rápido, infernal, cru, sufocante, agressivo, incendiário. Todos estes são adjetivos que caberiam como uma luva para definir Repentless, primeiro disco da potência metálica conhecida como Slayer em seis anos. Ver todas estas palavras assim, enfileiradas, chega a criar um cenário que dá até um alívio, já que o álbum vinha envolto por uma névoa de dúvidas e questionamentos desde o seu anúncio oficial. Dá até para dizer que ele é uma espécie de renascimento do quarteto, um rito de passagem por um de seus momentos de mudanças mais drásticas. E dramáticas.

Este é um Slayer essencialmente pela metade – pelo menos, sem dois de seus membros originais. Depois de uma treta na imprensa envolvendo participação nos lucros e outras pendengas financeiras, o batera Dave Lombardo vazou (ou foi vazado?). Para substitui-lo, foi convocado um velho conhecido dos fãs, Paul Bostaph, que inclusive já tinha substituído Lombardo entre 1992 e 2001.

Embora Lombardo seja um dos bateristas mais habilidosos do planeta e sua versatilidade/sutileza, mesmo nas batidas mais extremas, faça falta, Bostaph dá conta do recado. E até arrisca trazer (moderadamente) um tanto do groove que experimentou no controverso Diabolus in Musica (1998) para uma faixa como Cast The First Stone, um verdadeiro soco bem no meio do nariz.

Mas a grande barreira a ser ultrapassada, definitivamente, foi a perda de Jeff Hanneman, o guitarrista vitimado pela estranha picada de uma aranha venenosa. O sabor amargo permeia boa parte da obra, que consegue até ser autoreferente em canções como a poderosa faixa-título – uma espécie de tributo a Hanneman, a respeito de um músico que vivia sempre em altíssima velocidade (“eu vou tocar esta guitarra até o dia em que eu morrer”), se entregando sem muito pensar mas que tinha uma relação de amor e ódio com a fama (“odeio a vida, odeio a fama, odeio a cena, um bando de egos malditos, foda-se a vaidade”). Retrato perfeito do recluso Hanneman.

O falecido músico escreveu alguns dos riffs mais memoráveis da história do metal, então quem diabos poderia substituí-lo? A resposta estaria em outro lendário guitarrista do thrash metal americano da década de 1980, Gary Holt, amigo conhecido pelo impecável trabalho no Exodus. Que Holt é um guitarrista tão bom quanto Hanneman, a gente tinha poucas dúvidas. E aqui ele apavora nas seis cordas. Mas e como compositor? Ele mostraria logo a que veio? Bom, em Repentless, pelo menos, este lado dá bem menos a cara. Quem assume a responsa é o outro guitarrista e atual líder e porta-voz do Slayer, Kerry King – à exceção de Piano Wire, uma das poucas composições inéditas que sobrou depois da morte de Jeff.

Se Hanneman tinha um lado talvez mais punk, mais duro e seco, mais político até, King é metal até o último fio de cabelo que lhe falta na careca. E o álbum transborda metaaaaaaaal com todos os As que você queira colocar aqui.

Este talvez seja o Slayer mais Slayer em muitos anos – arrisco até dizer que desde Divine Intervention, de 1994. É um disco mais ríspido, mais thrash, sem muitas concessões ou experimentalismos, sem prestar satisfações. A começar pela bela capa, concebida pelo brasileiro Marcelo Vasco, que é uma das mais polêmicas e blasfemas dos últimos anos. E passando pela produção, agora nas mãos de Terry Date – é, eles preferiram respirar ar fresco, deram um tempo na parceria com o onipresente Rick Rubin e chegaram até a mudar de gravadora, indo para o chamado templo do metal da especializada Nuclear Blast. A mudança é perceptível.

Slayer - 2015

O que parece que não muda, no entanto, é a intensidade dos vocais de Tom Araya, talvez um dos grandes destaques do disco. Tá bom, óbvio que dá pra notar que a idade começa a cobrar tributo – mas o legal é que o cantor/baixista não faz muita questão de esconder isso. Deixa este lance de reverbs para lá. Aqui os berros do cara estão limpos, ao natural. E ainda conseguem ser assustadores. Na ótima Implode, ele assume novamente o seu papel favorito de arauto grisalho da desgraça e anuncia o fim do mundo com questionamentos como “será que todos não podem ver o mundo se afogando no seu próprio sangue?”.

O mesmo pessimismo com relação à humanidade surge na cadenciada (e linda) When The Stillness Comes, uma destas legítimas herdeiras de Dead Skin Mask na qual Araya alterna momentos de fúria e outros em que sussurra como um bardo diabólico que canta sobre pânico e sangue que escorre das paredes. E, em Vices, ele convida o ouvinte a um momento de catarse coletiva ao provocar os demônios anteriores de cada um de nós com versos como “um pouco de violência é a droga definitiva / vamos ficar chapados!”. Conheço um sujeito daquele livro Laranja Mecânica que curtiria isso tanto quanto Beethoven...

Repentless é curto, direto ao ponto, preciso, sem rodeios. Pode não ser um clássico? Que não seja. Mas é um Slayer absolutamente verdadeiro e fiel à sua essência, para alegria daqueles que não os abandonaram desde Christ Illusion (2006). O disco tem inquestionavelmente sangue pulsando nas veias. Retrato de uma banda viva, que não está disposta a se render e que ainda tem dentes para morder. No caso do Slayer, bem fundo e para arrancar pedaço.

Que estes caras ainda tenham força e vitalidade para continuar espalhando a trilha sonora do apocalipse por aí por muitos e muitos anos.