Ed Greenwood: a volta do fazedor de mundos | Judão

Conhecido como criador do clássico cenário de Forgotten Realms para D&D, o canadense agora desenvolve novos universos ficcionais cujas muitas expansões contam com colaboração de diferentes tipos de mentes criativas — incluindo a SUA

Pros jogadores de RPG das antigas, o nome de Ed Greenwood é praticamente sinônimo de Dungeons & Dragons. Ao lado de Jeff Grubb, este canadense nascido no subúrbio da cidade de Toronto transformou a ambientação que vinha usando em suas próprias campanhas desde 1975, que se tornou famosa nas páginas da revista Dragon, em uma extensão oficial para o D&D, publicada então pela TSR no ano de 1987. Surgia aí o Forgotten Realms, o mundo ficcional de Abeir-Toril, parte do continente de Faerûn.

A enorme barba branca e o bom humor que lhe são característicos fizeram com que o próprio Greenwood interpretasse em convenções e jogos ao vivo ninguém menos do que o mago Elminster, ícone de Forgotten Realms e do D&D como um todo. O apelido de “Arquimago” não veio à toa e era de se esperar, portanto, que a notícia de que Greenwood faria uso da própria plataforma aberta de autopublicação da Wizards of The Coast, Dungeon Master’s Guild, para voltar a escrever aventuras (incluindo histórias do velho ladrão e aventureiro Mirt) e guias das regiões de Forgotten Realms, deixou o mundo RPGístico em POLVOROSA.

O grande lance aqui é que, por meio de sua própria empresa, criativamente batizada de The Ed Greenwood Group, o autor não vai se focar apenas em sua criação mais famosa. Tanto é que, no final do ano passado, ele já colocou na rua dois diferentes (e empolgantes) cenários inéditos, apresentados via romances assinados por Greenwood e alguns de seus colaboradores. Um destes mundos, Stormtalons, é um grande compilado de espada e magia, onde a mágica é restrita pelo Heirophar por um lado (um arquimago tirano que quer que todos os magos trabalhem para ele ou morram) e pelos sacerdotes de Rheligor pelo outro (uma teocracia bucólica e rural, tipo celeiro do mundo. Parece familiar?).

“Se você sente saudades do Conan, de Fafhrd e do Gray Mouser (criação dos gibis de Fritz Leiber) ou várias outras duplas do tipo Ênio e Beto só que de aventureiros de capa-e-espada, viajando de aventura em aventura, Stormtalons é o lugar para contar tais histórias e encontrá-las”, explica o próprio Ed Greenwood, em entrevista exclusiva ao JUDÃO. Segundo ele, este é um mundo que varia de montanhas geladas até selvas extremamente quentes, no qual “podemos contar histórias onde olhamos sobre os ombros de heróis comuns e realistas”. E ainda completa: “Grandes dragões mágicos estão adormecidos embaixo do mundo e, quando acordarem, a magia e tudo mais mudará. Então, logo agora, claro, eles começaram a se mexer...”.

Se você sente saudades do Conan, de Fafhrd e do Gray Mouser ou várias outras duplas do tipo Ênio e Beto só que de aventureiros de capa-e-espada, viajando de aventura em aventura, Stormtalons é o lugar para contar tais histórias e encontrá-las

O outro cenário, Hellmaw, se passa no nosso mundo moderno atual, onde alguns “daemons” (Araurranos) estiveram espreitando entre nós durante séculos. Mas eis que, de repente, graças a uma guerra civil em seu mundo natal (Araunt), centenas de outros de sua espécie são exilados pra cá. Alguns desejam conquistar a Terra, outros desejam ser amados por nós, outros querem aproveitar os prazeres deste novo mundo e há aqueles que apenas querem voltar pra casa. “Então, as histórias de Hellmaw podem ser sobre amantes de demônios, sagas de serial killers, chefões do crime, algo na linha ‘tentar dominar um país’, ou podem ainda ser totalmente comédias”, ensina o Ed. “Tudo quase sempre do ponto de vista de humanos que entram em contato com estas criaturas estranhas e metamorfas, que nos enxergam como um gado descartável e explorável. Por isso, é claro, as histórias de Hellmaw são realmente sobre encarar o que é SER um humano”.

Além do fato de terem saído da mesma mente criativa, Stormtalons e Hellmaw têm algo em comum: ambas são plataformas abertas, conceitos-chave com os quais qualquer um pode colaborar e que não estão, nem de longe, fechados apenas em livros de ficção ou jogos de RPG.

“Literalmente centenas de criativos entraram para o The Ed Greenwood Group, não só escritores: temos artistas, dubladores, músicos, projetistas de jogos, escultores e muitos outros tipos de artesãos, pessoas com habilidades manuais. Pode esperar por narradores em vários formatos, vindos de toda parte do globo e trabalhando em vários idiomas e culturas, contando histórias nos cenários do TEGG”.

Um exemplo vem do romance de humor negro de Hellmaw, The Incubus Tweets, de J. Robert King, que tem uma natureza totalmente transmídia: sua história não depende apenas de palavras impressas em uma página, mas precisa ser complementada com muitos tweets, tanto no próprio livro quanto em suas versões online, lá mesmo no Twitter.

“Já temos versões de áudio-livros dos romances de Hellmaw e temos áudio-dramas originais em produção. Temos a música original para acompanhar Hellmaw. Já temos joias, comidas, roupas, jogos de tabuleiro, de carta e de dados e, sim, RPGs (preste atenção no nome Quickblade) planejados para todos os nossos cenários”, conta, relembrando as parcerias com nomes como a especialista em joalheria Kristie Courtnell e a figurinista Erminia Diamantopoulos. “Aliás, temos alguns cenários de ficção científica a caminho e eu certamente quero naves em miniatura!”.

Greenwood explica que o que (e QUANDO) acontece de fato depende do que o público deseja. Demanda, né? A intenção é colocar um item como “possível” em sites como o Onder Librum ou no The EdVerse. Por exemplo, uma taça decorada inspirada em um personagem dos livros de Stormtalons. “Se apenas um fã a quiser, teremos artesãos que podem fazer a taça manualmente. Então, será caro. Mas se centenas de fãs quiserem suas próprias taças, nós as produziremos em massa e elas serão mais baratas”, conta. “Queremos que nossos cenários sempre estejam lá para vocês, fornecendo um fluxo frequente de novos conteúdos, sendo imersivos – e fazemos isso ao dar a vocês várias formas de entrar no cenário. Queremos dar o que vocês quiserem”.

Se você é um dos criativos que eles tanto procuram (vamos dizer, por exemplo, o guitarrista de uma banda que tem ótimas ideias para a trilha de Stormtalons), basta entrar em contato com o TEGG via redes sociais assim que forem feitas as convocações para colaboradores. Para Brasil e América Latina, já existe o TEGG Brazil, uma espécie de “escritório” local da empresa de Ed, parceria devidamente coordenada pela Crônicas da Magia, empresa de tradução e localização de jogos, aplicativos, livros, seriados, filmes...

A partir do momento em que você e sua ideia são aceitos e toda a papelada é preenchida, você recebe uma conta e uma senha. “Assim que ‘entrar’, espera-se que criativos escolham um cenário ou cenários e deem ideias. Para desenvolver tais ideias, eles recebem acesso ao conhecimento raiz que eu criei para cada cenário, que foi expandido e ampliado”, explica ele.

De acordo com Greenwood, pra manter os cenários consistentes, com um cânone em um desenrolar coerente, existem arcos de história universais projetados para cada cenário – e cada cenário tem um Guardião do Conhecimento que o dirige, garantindo, por exemplo, que poderes araurranos têm os mesmos limites de uma história para outra, feitiços específicos funcionam da mesma forma em cada romance de Stormtalons, e assim por diante. Cada criativo que queira contar uma história ou criar algo (jogo, roupa, trecho de música) para um cenário deve preparar e enviar uma ideia. Elas vão direto para os Guardiões do Conhecimento de cada cenário e são discutidas com todos dentro do TEGG que devam discuti-la. Por fim, tudo segue para a aprovação da editora-adjunta Marie Bilodeau e do próprio Ed.

“Queremos dar aos autores maior liberdade para contar as histórias que os inspiram, desde que eles não forcem o cenário ou prejudiquem outras histórias ao fazê-lo. Assim, um escritor em Stormtalons não pode destruir reinos ou matar um personagem principal sem aprovação, nem pode inventar ou destruir deuses”, revela. “Mas, se a história ‘encaixar’ em Stormtalons, vamos dar todo o espaço possível para deixar que ele crie a história que o deixa tão animado”.

Brasileiros, obviamente, são mais do que bem-vindos a colaborar. “Um fator importante que fez a TEGG Brazil existir é que os cenários estão no COMEÇO. Isso significa que é mais fácil para os brasileiros acompanharem seu desenrolar”, explica Leandro L.C. Rodrigues, diretor editorial da Crônicas da Magia e conhecido no mercado de RPG nacional pela tradução das edições 3, 3.5 e 4 de D&D, para a Devir, entre outros títulos.

Além das versões em português dos primeiros livros destes novos cenários da empresa de Ed (respectivamente Hellmaw: Seu Mundo Está Perdido! e Stormtalons: Palavras da Libertação), disponíveis por enquanto apenas em formato digital em lojas como a Amazon, os guias de produção de material, com todo este “pode/não pode” de cada ambientação, também estão sendo traduzidos justamente porque a TEGG Brazil terá sua própria equipe de criativos.

“Vamos dar espaço para alguns autores nacionais (e da América Latina também!) nos ajudarem a enriquecer os cenários da TEGG”, diz. “Ano passado fizemos o primeiro ‘Chamado às Armas’ na página da Crônicas da Magia no Facebook. Coletamos milhares de contatos e vamos dar o início ao processo de seleção neste início de 2017”.

Leandro esclarece ainda que a ideia é fazer a versão local de exatamente o que o público de um determinado idioma costuma querer. “Em um país eles podem decidir que vão começar a vender camisetas, nós também podemos, desde que tenhamos a certeza de que é isso que os fãs dos livros da TEGG Brazil querem”. Ele deixa claro que mencionar ‘camisetas’ foi só um exemplo aleatório.

“Ou será que não?”