Eddie, a Alma Imortal do Iron Maiden, vai estrelar uma história em quadrinhos | Judão

O mascote do sexteto britânico, estrela das capas de todos os seus discos, enfim chega oficialmente ao mundo dos gibis — depois de já ter virado camiseta, bonequinho, jogo de videogame e uma HQ extraoficial Made in Brazil. Onde mais? :D

Parece até estranho a gente dar esta notícia assim, como se fosse novidade, embora efetivamente seja. Porque quando você olha para o Eddie, o monstrengo icônico que se tornou sinônimo de praticamente tudo relacionado aos britânicos do Iron Maiden, você tem a certeza absoluta de que o dito cujo já foi, em algum momento, personagem de gibi.

As HQs amam toda esta teatralidade do metal e não são raras as personalidades do gênero que foram bater cabelo no papel, do Kiss ao Alice Cooper, passando ainda pelo Slayer e pelo Gwar, por exemplo. Eddie tem cara de quadrinhos de horror há muito tempo. Mas não, ele NUNCA foi estrela de quadrinhos. Até agora.

QUER DIZER. Extraoficialmente ele até fez uma “participação especial”, em 2011, na revista independente brasileira Iron Maiden em Quadrinhos, da NFL Comics, editada e roteirizada por Hamilton Tadeu, com arte de Fred Macêdo. A obra, com 52 páginas, é uma adaptação da história do álbum conceitual — ou quase isso — Seventh Son of a Seventh Son (1988), uma exploração do mito do sétimo filho, “o escolhido”, aquele que nasceria com poderes especiais como clarividência e potencial a ser explorado tanto pelo bem quanto pelo mal.

Mas, depois de protagonizar o jogo Ed Hunter (1999), de virar personagem não-jogável em Tony Hawk’s Pro Skater 4 (2002) e de ganhar um RPG para chamar de seu no ano passado, Iron Maiden: Legacy of the Beast, agora o Eddie será o protagonista DE FATO do gibi que tem o mesmo nome do jogo recém-lançado e que é uma verdadeira viagem IMAGÉTICA pelo catálogo da banda.

Escrito por Llexi Leon e Ian Edginton e com arte de Kevin J. West, o título ainda não tem data de lançamento confirmada como série própria, mas vai fazer sua estreia oficial nas páginas da Heavy Metal #287, edição do próximo mês de Julho.

Heavy Metal #287

Ah, é, isso mesmo, a editora que vai publicar Iron Maiden: Legacy of the Beast é a igualmente lendária Heavy Metal — o que me parece uma escolha bastante apropriada. “Como fã de longa data do Iron Maiden, é um privilégio publicar o primeiro gibi a narrar a história de seu mascote, Eddie”, afirmou o CEO Jeff Krelitz, em comunicado oficial. “Quando discutimos o potencial de fazer este projeto acontecer, ficou claro que não tinha lar melhor para o Iron Maiden do que a Heavy Metal. Nossa história de quase meio século trabalhando ou lançando as carreiras de alguns dos mais consagrados artistas deste mercado continua aqui com o time que está trabalhando com a Donzela de Ferro nesta série”.

O que se sabe da trama até o momento é que a alma imortal do Eddie vai ser despedaçada e espalhada pelo cosmos. Então, eis que começa a jornada do sujeitinho pelo espaço e tempo para batalhar contra as hordas maníacas da Besta (QUEM MAIS?) enquanto tenta encontrar os pedaços de si mesmo. Não tem justificativa melhor do que esta para que a gente veja então o Eddie como o faraó maníaco de Powerslave (1984), o acorrentado louco lobotomizado de Piece of Mind (1983) ou ciborgue assassino de Somewhere in Time (1986).

Originalmente, o personagem era conhecido como Eddie the Head porque ele começou sendo apenas uma cabeça — no caso, uma máscara feita por um estudante de artes amigo de Dave “Lights” Beasle, o cara responsável pelos efeitos pirotécnicos tosqueira de um Iron Maiden em começo de carreira.

Na sua primeira versão, feita de papel machê, a cara horrenda cuspia sangue graças a uma bomba de aquário. O adereço foi ganhando tanta notoriedade quanto a própria banda, e aí viria uma versão mais avançada feita de fibra de vidro, equipada com olhos piscando e com o maravilhoso poder de soltar fumaça vermelha pela boca. O bicho então foi apelidado de Eddie, uma brincadeira com o som (Ead) que o sotaque londrino fazia para a palavra Head.

Assim que o grupo assinou seu contrato com a EMI, o empresário Rod Smallwood foi ligeiro ao decidir que aquela figura poderia ser aprimorada e se tornar personagem das capas de seus discos. Vendo o trabalho do ilustrador Derek Riggs nos pôsteres do compositor e tecladista Max Middleton, tava decidido que aquele cara ia ser responsável por renovar o Eddie. O que Riggs fez foi resgatar o que era inicialmente a ideia de um desenho para um disco punk — e que ele afirma categoricamente ter sido inspirada na imagem de um crânio americano preso a um tanque vietnamita durante a guerra — e meter um pouco mais de cabelo, porque afinal tamos falando de uma banda de metaleiros que batem cabeça e chacoalham a cabeleira. O nome Eddie passou então a batizar esta criação, enquanto a tal cabeçorra foi enfim aposentada.

Embora o seu rosto, ainda numa versão mais cabeluda menos parecida com o que existe hoje, tenha sido visto pela primeira vez no disco autointitulado do Iron Maiden, lançado em 1980, sua “pré-estreia” rolou na capa do single Running Free, na qual estava com a face coberta para preservar a surpresa e causar certo impacto entre os fãs. Deu certo. ;)

Capa de Iron Maiden (1980)

Rupert Perry, então diretor da EMI, veio com a ideia de fazer o Eddie se tornar uma parte mais ativa dos shows do Maiden e, pra cumprir esta missão, o próprio Smallwood metia uma máscara, uma jaqueta de couro e saía pelo palco brincando com os integrantes da banda. Mas em 1982, quando rolou a The Beast on the Road, turnê de apoio do álbum The Number of The Beast, Beasley desenvolveu o primeiro “bonecão” do Eddie, com seus bons 3 metros de altura. Isso também se tornou uma tradição nas apresentações deles, com o figurino do monstrengo sempre mudando conforme o tema da turnê e, claro, das capas dos discos também.

Riggs foi o desenhista exclusivo do Eddie até 1992, quando Melvyn “Mel” Grant o transformou numa espécie de monstro-árvore, um parente distante do Groot, na capa do disco Fear of the Dark. O Eddie mais recente, numa pegada meio civilização maia como pode ser visto no ótimo The Book of Souls (2015), é obra de Mark Wilkinson, que já tinha desenhado o monstro nos singles The Wicker Man e Out of the Silent Planet, ambos do disco Brave New World (2000).