Edu Falaschi Paz & Amor ✌️

Ao anunciar uma segunda e extensa parte de sua turnê cantando clássicos de seus dias à frente do Angra, o vocalista nem de longe lembra o mesmo cara que estrelou, seis anos atrás, um vídeo PUTAÇO sobre o metal nacional

Novembro de 2011. Após a sua apresentação com o Almah na primeira edição do chamado Metal Brasil, festival cujo objetivo era criar um certo Dia do Metal Nacional, o vocalista Edu Falaschi concedeu uma entrevista hoje histórica para o Rock Express. O vídeo nem existe mais nos canais oficiais da publicação mas, bom, cês sabem, a internet, ela não perdoa e não esquece. ;)

PISTOLAÇO pela baixa frequência no show (que teve 300 pagantes em pleno Carioca Club, no qual cabem cerca de 2000 pessoas), ele VOCIFEROU uma série de palavrões ao longo de 9 minutos. Inspirado pelo clima de “união do metal nacional” que vinha sendo bradado pelo camarada Thiago Bianchi (Noturnall), afirmou que aquele era o último prego no caixão da cena brasileira, que os fãs eram um bando de paga-pau e chupa-rola (é, com estas palavras) de bandas gringas, gastando uma baita grana pros mesmos caras de sempre que vêm tocar no Brasil enquanto se recusavam a desembolsar menos da metade do valor para ver grupos nacionais que ralavam pra caralho pra fazer acontecer.

“Não adianta ficar na internet elogiando. Foda-se isso. Você tem que comprar o CD e ir no show”, disparou.

O vídeo gerou uma polêmica gigantesca no mundinho do metsaaaahl, com muita gente apoiando de um lado mas também muita gente, eu incluído, sentando a porrada no cara do outro. Porque se a situação fosse assim tão fácil de definir, tão preto no branco, em qualquer que seja o espectro da cultura pop, eu até entenderia. Mas este não é mais, por exemplo, um mundo em que as pessoas compram CDs. Viva com isso. O mundo mudou, os hábitos de consumo de cultura mudaram.

Só que a discussão aqui não é essa. O ponto é que conversar com o mesmo Edu Falaschi, seis anos depois, dá a nítida impressão de que estamos falando com um cara completamente diferente.

Nessa entrevista ao JUDAO.com.br, ele faz questão de se mostrar, como ele mesmo fala, apenas e tão somente feliz, agradecido e realizado. “Vivo um momento de plenitude em muitos sentidos! Tive altos e baixos, erros e acertos, aprendi muitas coisas com esses mais de 25 anos [de carreira] e hoje procuro viver em harmonia com aquilo que plantei nesse quarto de século”, diz. Sobre o vídeo, ele tenta dar uma desconversada, quando questionado o que teria mudado de lá pra cá. “Tudo e nada! Apenas me divirto fazendo o que eu amo e colhendo os frutos que plantei na industria fonográfica”.

O fato é que os últimos três anos foram quase como uma verdadeira celebração da carreira de Falaschi, mais em forma do que nunca – quem escuta os discos mais recentes do Almah, em comparação com seus últimos dias à frente do Angra, percebe um cantor amadurecido, sem precisar carregar nos agudos, explorando outras vertentes de sua própria voz.

Teve a mais do que bem-sucedida turnê Cavaleiros do Zodíaco In Concert, na qual realizou o sonho dos fãs ao cantar as versões em português de canções do anime que gravou originalmente, incluindo a blockbuster Pegasus Fantasy. Teve o lindo disco acústico com orquestra Moonlight, só com novas reinterpretações de clássicos de diversas fases (e bandas) de sua carreira. Teve até um álbum-tributo em sua homenagem, A New Lease of Life, com participação de nomes como Soulspell, Nando Fernandes, Mario Pastore e Mr. Ego.

E teve, claro, a série de shows batizada de Rebirth of Shadows Tour, na qual interpreta as faixas de maior sucesso que cantou em sua fase de mais de uma década no Angra, com uma banda que traz curiosamente outros dois ex-Angra: Aquiles Priester (bateria) e Fabio Laguna (teclados). Como em praticamente tudo que envolve a seminal banda brasileira e seus ex-integrantes, aliás, teve lá uma dose de drama, com direito a advogados pra fazer o nome The Angra Years ser mudado, vídeos abertos com pequenas trocas de farpas por parte do Edu e do Rafael Bittencourt, guitarrista e atual líder do Angra...

“A música é maior do que qualquer problema pessoal! Tudo fica pequeno perante a isso”, afirma ele, ao explicar que tá tudo resolvido – tanto é que, depois dos posts passivo-agressivos no Facebook, Falaschi estava cantando como convidado do Angra & Friends (aka “o Angra fazendo shows quando o italiano Fabio Lione não está no Brasil”) em um festival lá em Extrema, Minas Gerais. “Irônico mesmo seria se eu não cantasse mais músicas que eu compus, arranjei ou cantei por mais de uma década e que fizeram história em tantos países e que foram importantes nas vidas de tantas pessoas”.

O fato é que a Rebirth of Shadows Tour teve uma ótima acolhida e agora geraram uma nova perna da turnê no Brasil, com 23 shows em 40 dias, entre 8 de Dezembro e 21 de Janeiro, tudo com uma prometida superestrutura de som e luz – graças à utilização do tour bus, que não é lá muito comum por aqui a não ser que você seja um sertanejo de sucesso – e até mesmo surpresas no setlist, com faixas jamais executadas mesmo na época do Angra. Ele, obviamente, não conta de quais se tratam. “São músicas complexas e de alta performance! Aos meus 45 anos de idade, depois de tantos problemas de saúde, cantar notas tão agudas tem suas dificuldades, mas a experiência ajuda bastante e a primeira parte da tour foi animal!”, diz.

O cantor afirma ainda que a ideia para esta turnê já existe tem algum tempo e que foi, basicamente, uma questão de demanda. “Alguns produtores me procuraram pedindo esse show e eu esperei o momento certo para lançá-lo”. Mas pra alguns seguidores fiéis de sua carreira, talvez este não tenha sido o melhor momento de todos, já que o Almah lançou seu quinto disco de estúdio, E.V.O., no final de 2016. Portanto, em tese este ano deveria ser em grande parte dedicado a uma turnê de divulgação, mas foram pequenos e esporádicos shows por aqui, focados basicamente em São Paulo e Rio de Janeiro. A chiadeira dizia que ele estava dando pouca importância pra banda autoral ao focar tanto no Edu solo. Ele discorda: “O Almah é minha banda do coração! Dou muita importância sim”.

Mesmo assim, enquanto a Rebirth of Shadows Tour é um sucesso inegável, com foco no saudosismo e aquela coisa toda, o Almah tentou uma parada ousada para fazer o financiamento, via Kickante, de uma turnê de dez shows, com campanhas diferentes para cada cidade. Tudo a partir de R$ 50, sem precisar depender de contratantes. E, bom, na falta de uma palavra melhor, foi um fracasso completo. Enquanto em cidades como Cuiabá eles chegaram a vender TRÊS cotas, arrecadando R$ 170 de uma meta de R$ 30.000, em Manaus venderam um total de ZERO reais.

Não é o caso, como eu disse lá em cima, de discutir AQUI (embora seja, sim, o caso de discutir em algum outro momento, porque sempre é) qual o motivo desta situação ter rolado. Mas isso, portanto, seria motivo para o Edu voltar ao modo putaço daquele vídeo de 2011? Porra nenhuma. “Como eu disse, me divirto, curto a vida”, diz. “Me programei também para ficar mais em casa com a família e viajar menos. Farei turnês mais em blocos, em períodos específicos, e alguns shows e festas esporadicamente”.

É isso. Sai de cena o Edu da treta e entra o Edu paz e amor. “Nada disso me importa mais, o que eu quero é fazer música”, diz ele. Menos mal. Que este espírito, de alguma forma, contagie os atuais e ex-integrantes não apenas do Angra, mas também do Sepultura, que são especialistas na nobre arte de ficar trocando farpas pela imprensa especializada.

E segue o jogo.