Elton John e James Taylor em São Paulo: uma puta noite que não merecia aquela puta chuva | Judão

Chuva que despencou em São Paulo na noite da última quinta (06) lavou um pouco mais do que a alma de uma boa parte do público. Sorte de quem ficou na arquibancada…

Contexto é tudo, pra tudo. Tem coisas que ficam absolutamente desconexas, sem sentido, quando retiradas do contexto devido.

Um show de James Taylor num estádio até parece fora de contexto inicialmente, mas bastava olhar em volta pra entender que o local onde rola a apresentação acontece é o de menos: poucos jovens (e pouco jovens) e muitos, mas MUITOS casais que, do começo ao fim, ficaram abraçados, muitas vezes quietos, só curtindo o que tavam ouvindo.

De aparência serena e uma voz deliciosa, Taylor nem parece carregar todo o peso de uma história de abusos — quer dizer, ele fisicamente mostra isso bem claramente, mas bastou um único sorriso pra se tornar o avô perfeito de todos nós, independente das nossas idades.

Logo depois da primeira canção, Up on the Roof, rolou a primeira de muitas interações com o público, que rolava como se todos nós nos conhecemos e fomos amigos. Primeiro, ele explicou — em português — que, por conta de um dedo quebrado, não tocaria violão naquela noite. “Merda”, disse, lendo as palavras todas de um caderninho e mandando benzaço no sotaque. <3

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

Depois, respondeu a alguém na plateia que gritou pedindo por You’ve Got a Friend, que ele tocaria sim aquela música e, pra provar, pegou o setlist gigantesco do chão pra mostrar que demoraria um pouco, mas ela seria tocada — e, de fato, quando foi fez a galera não SAIR DO CHÃO, mas se mexer um pouco mais e cantar mais alto, entre os abraços e beijos e cheiros.

O grande momento da apresentação, porém, além do solo de Arnold McCuller, um dos backing vocals que trabalha com James Taylor desde 1977, foi com Only a Dream in Rio, música que ele escreveu depois de tudo o que viveu aqui no Brasil em 1985, quando veio para o primeiro Rock in Rio. A parte da plateia que estava lá mais (ou só) pelo Elton John ficou boquiaberta lendo a letra traduzida no telão e quando todos, Taylor e apoio, começaram a cantar o trecho em português — provavelmente o momento mais próximo de catártico daquele show.

Com exatas 1h35 de apresentação, Taylor se despediu avisando que podíamos nos acalmar, Elton John viria em seguida. E ele viria mesmo... Só não viria sozinho.

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

Exatamente às 22h, dez minutos ANTES do informado pela organização do show, Elton John entrou no palco e, com seu SOBRETUDO brilhoso, sentou-se ao piano pra avisar a quem quisesse ouvir que The Bitch is Back, seguido de Bennie and the Jets.

Foi rápido, mas deu pra perceber: Elton John estava se curtindo, acima de tudo. Esticava, entregava, devolvia e absorvia cada uma das canções, transformando aqueles em momentos únicos DE FATO. Tava tão na dele que, na hora do seu solo de piano, pouco se preocupou com a PUTA CHUVA DO CARALHO que começou a cair em São Paulo naquele momento — e, veja, talvez “puta chuva do caralho” não expresse o quão forte e volumosa foi aquela água que caiu, como você provavelmente viu nas notícias.

Incomodou bastante, verdade seja dita. Sou desses que não compra capa de chuva pois realmente acredito que esse tipo de coisa só serve pra montar toda a experiência, a criar histórias que serão contadas ali pra frente. Mas lembra aquele lance de contexto? Um show de Elton John é infinitamente menos “casalzinho” que James Taylor, mas não tem as porradas que te fazem sair do chão e se esquentar debaixo d’água.

O solo pareceu eterno e foi complicado sentir toda a carga emocional de Rocket Man, a próxima canção do setlist, assim como se imaginar dentro de um ônibus nos anos 70 enquanto canta, empolgado, Tiny Dancer pra sua Penny Lane platônica — e sim, as duas vêm seguidas, no setlist escolhido.

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

A partir dali, aliás, foi hit atrás de hit. Goodbye Yellow Brick Road, Don’t Let the Sun Go Down on Me, com direito a George Michael no telão, Saturday Night’s Alright for Fighting, Candle in the Wind, todos acompanhados por cada vez menos gente. Alguns se escondiam nas partes cobertas onde, no máximo, podiam OUVIR o show, outros tantos — tipo, MUITOS — resolveram tentar voltar pra casa da maneira mais segura possível, com o tanto de notícias sobre alagamentos que começaram a aparecer nos celulares da galera.

É uma pena enorme que a chuva não tenha sido aquela de 10mins, ou só uma garoa chata que, por mais que deixasse os óculos dos míopes inúteis, permitiria que o show pudesse ser curtido da maneira que ele merece. Porque não é sempre que um artista como Elton John se preocupa mais em se divertir com o que faz de melhor, ao invés de só fazer e ir pra casa como um tal Axl Rose ultimamente.

Que Elton John volte mais e mais vezes pra que nós, e ele, podemos ter o show que merecemos — num lugar fechado ou na arquibancada, pra aproveitar do jeito certo. ;)