Em disco solo, Dee Snider prova que, ainda bem, não vive de passado | Judão

Com We Are The Ones, lançado na última sexta (28), músico se afasta da sonoridade do Twisted Sister e lança um trabalho moderno, inteligente e com uma mensagem MUITO clara

Como um fã de rock mais próximo dos quarenta do que dos trinta, obviamente que tenho que aceitar o fato de que meus ídolos também estão envelhecendo. É natural. Grande parte deles já passaram dos sessenta, aliás. E alguns envelheceram BEM mal, eu diria. Não necessariamente no aspecto físico, mas principalmente no tipo de pessoa que se tornaram. Parte dos velhos rebeldes de outrora foram se tornando um bando de conservadores reacionários, que acabam abrindo a boca pra disparar uma verdadeira metralhadora de merda.

Um exemplo claríssimo é Gene Simmons, o linguarudo do Kiss que sempre gostou de uma polêmica mas que, nos últimos anos, vem se especializando em cagar regra em altos níveis de escrotidão sobre os mais variados assuntos. Como a morte do Prince, que forçou seu parceiro de banda Paul Stanley a dar-lhe um PUXÃO DE ORELHA virtual.

Isso sem sequer mencionar outros dois exemplos brasileiros bastante gritantes e igualmente frustrantes...

Mas existe o outro lado, que é um cara como Dee Snider, o frontman do Twisted Sister. Aos 61 anos, justamente quando sua banda se encaminha para a reta final de uma turnê de despedida, o cara arrisca tudo com um disco-solo totalmente fora de sua zona de conforto. Nada de heavy metal, hard rock, farofa, laquê, lenços, perucas, rímel no olho ou calça de oncinha.

Este é um Dee óculos escuros, jeans e camiseta fazendo um som espantosamente bem mais moderno e mais mainstream, PALATÁVEL, do tipo que tocaria facilmente em qualquer rádio do planeta.

Quando você escuta We Are The Ones, lançado na última sexta (28), o que vêm à cabeça é uma sonoridade mais Foo Fighters, Audioslave, um pouco Stone Temple Pilots até. Rock com aspiração pop, pra cantar junto, cheio de energia e empolgação. Tudo com a voz de Snider cantando daquele mesmo jeito mais rasgado de sempre, mas agora um pouco mais emocional, intenso, quase como que saboreando cada palavra, contando uma história.

“Estou tentando fazer rock ‘n roll contemporâneo”, afirmou Dee para a Vice. “Tenho a idade que tenho mas não sou uma pessoa que vive no passado. Não sou aquele cara apegado aos dias de glória. Os meus dias de glória são agora. Daqui dez anos, aqueles serão meus dias de glória. (...) É meio frustrante pensar que meu trabalho que vendeu melhor rolou quando eu tinha 20 e poucos anos mas, ao mesmo tempo, quero mostrar ao mundo esta nova música pela qual estou apaixonado agora”.

E deveria mesmo estar apaixonado. O álbum, produzido por Damon Ranger (o cara que disse “Dee Snider, você pode atingir uma audiência completamente nova com a música certa”), é daqueles deliciosos, que você escuta numa tacada só e, quando menos percebe, já está tocando de novo e você tá rapidamente cantando junto o refrão de uma Close To You (com o uso surpreendente de sintetizadores) ou Superhero.

A canção que dá nome ao título, assim como a poderosa Crazy for Nothing, são carregadas por uma levada de guitarra quase punk, agressiva e áspera. “O punk traz a atitude, a raiva e a frustração que eu acho que estão em falta em muitas das bandas de rock nos dias de hoje”, afirma ele. Faz sentido. Believe, por exemplo, caberia tranquilamente no repertório do novo álbum do Green Day. ;)

Mas eis que o disco ao mesmo tempo tem espaço para a linda Rule The World, um rockão de arena com coraizinhos a la Coldplay (JURO!) e que fala sobre o poder de erguer a mão para o céu e fazer a sua voz ser ouvida. O que dizer, ainda, do cover para Head Like A Hole, do Nine Inch Nails, numa levada aê quase eletrônica, industrial, fazendo jus à obra de Trent Reznor mas mantendo a personalidade do Dee? Acertou no alvo.

Numa versão desacelerada, com foco no piano e na interpretação emocionada, “We’re not gonna take it” se torna um verdadeiro hino de protesto

E tem, claro, a nova versão que ele fez para o clássico We’re Not Gonna Take It, o hit absoluto do Twisted Sister. Uma escolha óbvia, você diria? Pense de novo. Snider joga o aspecto festeiro de canto e faz você esquecer aquele clipe do moleque apavorando o pai em casa com uma verdadeira mudança de significado da letra. Numa versão desacelerada, com foco no piano e na interpretação emocionada, a canção se torna um verdadeiro hino de protesto, de quem sofreu a vida inteira e mesmo assim tem coragem de levantar e encarar tudo de frente. Simplesmente de arrepiar, puro coração.

Por sinal, este é o tema do álbum, como um todo, uma mensagem de “rebelião”, conforme o próprio Snider gosta de dizer. Um chamado para as pessoas acreditarem em si mesmas, se levantarem e lutarem pelo que acreditam. Quando este manifesto em forma de disco vem de um cara que proibiu o amigo Donald Trump de usar sua música por conta das merdas que andou falando sobre mulheres, imigrantes e a porra toda (e que admite, inclusive, estar revendo a manutenção desta amizade), quando vem de um roqueiro sessentão que fala abertamente sobre apoiar o feminismo, o aborto, a luta contra o racismo... isso faz um sentido do caralho.

“Nós vivemos com medo todos os dias / Fomos ensinados a nunca sonhar”, diz a letra da faixa-título. “Somos nós que vamos pra guerra, que morremos, que sofremos graças às decisões de alguns poucos”, explica ele. “Levante o dedo do meio e diga: PORRA, NÃO!”.

Dee Snider, senhoras e senhores. :D