Em Matriz, só o rock não basta pra Pitty. AINDA BEM. | JUDAO.com.br

Cinco anos depois, chega o novo disco de estúdio da cantora baiana, que mete um foda-se maravilhoso e deixa claro que não precisa de guitarras dissonantes pra servir de muleta quando se tem um peito rasgado e um discurso cheio de coisas a dizer

Vou confessar aqui, logo de cara, que eu tinha uma birra da Pitty. Assim, eu sempre gostei da sonoridade das músicas dela, sempre achei a banda de apoio bem da boa mesmo. Mas tinha algo com a voz da moça cantando, coisa de moleque metaleiro pentelho, talvez quisesse que ela fosse operística como a vocalista do Nightwish ou então tivesse o urro poderoso da mina do Arch Enemy? Talvez. Nem lembro bem.

Mas depois que tive a chance de bater um papo com a cantora pela primeira vez, bingo, deu um clique. Foi pelo telefone, mas foi incrível. Alguma coisa mudou na relação que eu tinha com as canções dela. Da mesma forma que eu simplesmente não consigo mais ouvir as músicas daquela banda daquele cara que diz ter um QI acima da média, que outrora estiveram entre as minhas favoritas da vida, o posicionamento, a atitude da cantora baiana me fizeram escutar o som dela com outros ouvidos.

As opiniões dela foram me cativando, a cada entrevista que eu via ela me parecia mais interessante, passei a enxergar um outro sabor a cada sílaba que a cantora pronunciava. Magicamente, aquelas faixas criaram uma conexão comigo. E acho que JUSTAMENTE por isso eu passei a acreditar que tinha uma outra Pitty que não tava aparecendo por trás da roupa preta, dos coturnos, de Teto de Vidro ou Equalize. Tinha um tempero ali que não tava ardendo, queimando, temperando de verdade. Algo que tava preso nas margens quadradas e limitadoras do ROQUE.

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Não me entendam mal, eu sou um cara do ROQUE, camiseta de banda, bate cabeça, tiozinho do metal. Isso vocês sabem. Mas a música, sempre ela, é um treco tão maior do que isso ou, bom, do que APENAS isso, sabe? Pra mim tava claro que a Pitty sabia disso mas não tava chegando lá.

E aí que, cinco anos depois de SETEVIDAS, a baiana Priscilla Novaes Leone manda um foda-se lindo e cheio de luz e cor pra qualquer cilada, qualquer roubada musical, qualquer caixinha na qual queiram colocá-la. Chegou um novo disco de estúdio que pode surpreender muita gente. Porque não é rock. E nem sequer depende dele. É apenas e tão somente música. E boa pra caralho.

Matriz é um disco cheio de coelhos na cartola, muitas cartas na manga, surpresas numa viagem da Pitty de volta pra casa, que leva a gente na bagagem e que dá vontade de ouvir de novo e de novo.

Duas canções definem bem o novo álbum, assim, de imediato, para o desavisado que resolver clicar no play. Em Roda, temos o ÚNICO momento em que a cantora resolve pesar a mão de verdade na guitarra. Mas o que rola nesta parceria acertadíssima com o BaianaSystem é diferente, é especial, é único. É uma gira rock n’ roll, um groove tipicamente nordestino. “Eu preciso falar dessa nossa verdade que vem do Nordeste”, diz a letra. E a gente tá ali, disposto a ouvir.

Logo na sequência, a faixa engata em Bahia Blues, daquelas totalmente autobiográficas, que é tipo alguém voltando pra terra natal depois de muitos anos e enxergando tudo com outros olhos, uma visão menos turva, mais madura. “Nunca é tarde demais pra voltar pro azul que só tem lá”, canta Pitty neste blues encorpado, modernoso, com um combo daquela guitarrinha suingada e de um baixão vibrante. E se ela passa grande parte da canção dizendo “eu vim de lá mas não posso mais voltar”, nada mais natural que, ao rever momentos da infância e da adolescência, ela encontre um quinhão de paz em si mesma pra poder soltar “eu vim de lá e agora eu posso voltar”.

Se estas duas canções são um bom resumo de Matriz, não haveria melhor introdução do que Bicho Solto, que consegue ser sombria mas sem nunca pesar a mão. E a loba em pele de dama, corpo e mente insana, afirma que se domesticou pra fazer parte do jogo, mas não se engane maluco: ela continua bicho solto. Agora aplica isso numa sonoridade que é quase um ponto de candomblé, numa batida tribal que é um supersônico de volta pra Bahia, agora sem medo de ser feliz, de ser quem é e como bem entender.

O disco tem, no entanto, espaço pra bem mais que isso. Tem Noite Inteira, sobre a rua, sobre gente que se junta pra fazer revolução ou pra falar besteira, que clama “respeite a existência ou espere resistência”, num recado que é claríssimo e que se você não entendeu, melhor ler de novo enquanto ouve uma faixa com gosto de bebida e cigarro, canção de boate, pra dançar, pra bater cabelo. Do outro lado, extremo oposto mesmo, Te Conecta é um reggae gostoso, praiano, ensolarado, com um naipe de metais que é um convite pra dançar enquanto você presta atenção só no som do mar. Muitas Pittys numa só? E isso não é bom demais?

A cantora também sabe rasgar o coração aqui, mas de três jeitos bastante distintos. Quando começa Ninguém é de Ninguém, ela tá toda dona de si, num ode sobre relacionamento mas também sobre liberdade, uma faixa que sabe ser sexy, que sabe queimar, mas que mistura rock com um temperinho eletrônico bem delícia. Só que ali mais pra frente temos Para o Grande Amor, que é uma passagem bem fofa, doce e apaixonada, pop até, declaração de amor toda colorida, beeeeeeem bubblegum, com jeitinho teen. E isso não é NENHUM demérito, é bom que se diga.

Corta então pra Motor, uma balada linda, sobre saudades um pouco sem motivo, sobre um cara que sugou as energias de uma mulher e a deixou cansada, que se esconde em palavras de querer bem. É uma Baladona com B em caixa alta, meio bêbada até, uma dorzinha de cotovelo, que mete um violino ali meio sem razão, que não tem medo de soar meio brega. E funciona. Eu cantaria amarradão num karaokê.

Tá lendo tudo isso e sentindo saudades do rock? Pois vai sentir MAIS assim que começar Submersa, aquele momento bem pra cima, cheio de palminhas. Parece uma faixa indie que subitamente foi transformada em uma canção de musical de Hollywood, bem naquele momento em que a pessoa se encontra e se conecta consigo mesma, sempre cercada de um monte de gente que resolve sair dançando junto.

Deixa a Pitty fazer o que ela quiser. Porque pode sair isso. Ou aquilo, sei lá. O próximo disco dela pode ser de thrash metal? Claro que pode. Assim como o que vai vir depois pode ser de forró? Ô se pode. Ela pode tudo. É só querer. E agora que as amarras tão cortadas e ela se abraçou baiana de um jeito que tá longe do estereótipo babaca, tanto de um lado quanto do outro, bebendo na fonte, tomando banho nela e jogando a água da fonte na cara de todo mundo que tava ouvindo, tem Pitty aí pra mais de metro. Pra todo mundo. Mas, principalmente, PRA ELA. Que, no fim, é o que mais importa.

AINDA BEM.