Em novo disco de Ryan Adams, o risco é grande, mas não maior que a jornada | Judão

Workaholic do folk acerta em clima biográfico no novo trabalho, Prisioner — que aqui ganha uma resenha de outro artista folk, este um dos favoritos do JUDÃO ;)

Um profundo fã de Black Metal que se dividiu nos últimos três anos entre um lançamento autoral e a sua própria versão do blockbuster 1989, de Taylor Swift. Atípico? Corajoso? Maluco? Ryan Adams é um conjunto de tudo isso e parece confortável ao fluir entre os absurdos de sua musicalidade.

Justamente por isso, aliás, o outrora “menino prodígio do folk” não tem medo de se mostrar vulnerável e ansioso em Prisoner, o 16o disco de estúdio do cantor/compositor americano e que ganha o mundo na próxima sexta, 17 de Fevereiro.

Durante a composição dessas canções, Adams refletiu em diferentes estados do desejo e sobre como é ser prisioneiro disso. Sendo uma condição humana, o disco conversa com quem ouve e por muitas vezes toma o papel de voz interior, lançando perguntas e obtendo respostas sinceras e desconcertantes.

A protagonista por trás das faixas é a mudança, sensação que ele experimentou de maneira mais intensa após a descoberta de uma condição rara chamada Síndrome de Méniere (que ocasiona perda de audição e problemas de equilíbrio) e o divórcio da também cantora e atriz Mandy Moore. Mas depois do cara ter gravado Taylor Swift, parece fácil soltar o comentário de que ele herdou dela também esta coisa de “gravar álbuns para falar sobre separação”. Esqueça esta comparação antes que sequer passe pela sua cabeça.

Letras como as de Haunted House e Doomsday (se liga no trecho can you stand up and face your fear, my love?) pegam fundo MESMO e são um punhado de dúvidas e hesitações sobre o que está por vir. Como todo momento catártico, isso se transforma ao longo do disco – o pedido para recuperar tudo que tinha se converte numa vontade de fazer de novo e diferente, se despedir e reinventar.

Em termos sonoros, Prisoner usa dos acertos do disco anterior (Ryan Adams, de 2014) ao misturar elementos de Tom Petty And The Heartbreakers, Bruce Springsteen (em seus primeiros trabalhos) e aquela guitarra do Johnny Marr descarada em quase tudo. Tá lindo e nostálgico, como as letras pedem.

O violão é usado quando o tom confessional aumenta e pede atenção maior ao que é dito, um elemento de narrativa que acolhe em poucos segundos.

Apesar do álbum soar enérgico em quase todas as faixas, ele é o retrato da vulnerabilidade cotidiana, é o remar pelos problemas e se encontrar frágil, mas renovado em terra firme.

Tênue entre os sentimentos, Ryan Adams acerta em dizer que o risco é grande, mas não maior que a jornada.

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Pedro Oliveira, mais conhecido pela alcunha de PEDRO (é, só assim mesmo, PEDRO), é o mais célebre filho da cidade de Mafra, lá em Santa Catarina. Futuro papai da Laura e nerdão caipira, ele lançou ano passado o ótimo EP Zam — que veio apresentar pra gente lá no ASTERISCO. Venha ouvir aqui como foi o resultado de uma das mais sensacionais edições do programa, com direito à participação especial de seu fiel escudeiro, o violão.