Jason Blum: o Midas do Horror | JUDAO.com.br

Aproveitando esta Sexta-Feira 13, dia oficial de celebrar os filmes de terror, batemos um papo com o poderoso chefão da produtora responsável por atualmente moldar os rumos do gênero em Hollywood

Desde 2009, com o sucesso de um certo filme de found footage com um espírito apavorante, virou uma espécie de grife colocar no cartaz de um filme algo como “dos produtores de Atividade Paranormal”. Dá credibilidade comercial, dá garantia de bons sustos – ainda que, veja você, a qualidade da entrega possa variar um bocado. Mas tudo bem, vai.

Os tais produtores, no caso, são os caras da Blumhouse Productions, um nome que se tornou meio que um sinônimo de filmes de terror com orçamento enxuto e baseados em conceitos criativos, adorando explorar o inesperado.

Justamente por conta de toda esta importância é que a gente quis aproveitar que, nesta sexta-feira 13, o mais recente filme da franquia Sobrenatural volta aos cinemas brasileiros (com versão estendida e tudo, durante uma semana!) para retomar um papo que tivemos com um Jason, que não anda de máscara e tampouco carrega um facão pra cima e pra baixo. Um Jason que não é Vorhees mas sim Blum, Jason Blum, CEO da Blumhouse Productions, que veio ao Brasil no final do ano passado para divulgar Sobrenatural: A Última Chave.

Assim que você senta de frente pro cara, a presença é de fato bastante intimidadora – do alto de seu 1,88m, este americano charmoso de 49 anos te olha direto nos olhos e faz questão de dar um aperto de mão bastante forte e apertado. “Fodeu”, logo pensei. “Vai ser osso arrancar qualquer coisa do moço”. Mas resolvi começar, claro, perguntando a respeito da habilidade inata que a Blumhouse tem em criar franquias sólidas, com seus próprios universos interconectados. “Qual é o segredo?”, questionei. “Afinal, podemos usá-lo pra ensinar alguma coisa para uma certa liga de super-heróis que não anda acertando muito bem”. Bingo.

“Sem comentários sobre isso”, afirmou, depois de soltar uma gostosa gargalhada. Tava ganho e, a partir daí, ele não tirou o sorriso do rosto. “O segredo para nós é que nos focamos muito em incluir os criadores originais sempre na sequências”, afirma. “Se você prestar atenção, na maior parte dos filmes de terror, os diretores e mesmo os roteiristas originais estão sempre mudando de um filme para o outro. Acho que é isso que faz uma franquia não apenas durar mais, mas ser sempre melhor”.

No caso de Sobrenatural, por exemplo, estamos diante de algo que nosso especialista em produções de terror, Marcos Brolia, chamou de “a melhor franquia de terror da década”, lembrando que fazer quatro filmes de qualidade dentro do gênero é algo digno de nota. Isso significa, talvez, que Blum esteja preparado para fazer deste Sobrenatural o seu Sexta-Feira 13, uma franquia longeva com muitos e muitos filmes, aproveitando as chances de ir pra frente e também pra trás, com sequências e prequências no caminho? “Eu espero que sim!”, afirma, esbugalhando os olhos e elevando bastante a voz, empolgado. “Ainda não falamos sobre o que vem a seguir, mas eu adoraria fazer mais um filme. E se ele for bem-sucedido, definitivamente vamos fazer outro”.

Segundo Blum, o time responsável tem discutido novas ideias pra expandir a série mas, comprovando o que ele mesmo disse lá no começo, sua intenção é deixar a decisão nas mãos de Leigh Whanell, roteirista dos quatro filmes e principal ponto focal entre eles. “Se o Leigh escrever, e eu espero que escreva, nós faremos”.

Mas se diretor e/ou roteirista são assim tão cruciais, qual é o papel de um produtor tão badalado como Jason Blum na coisa toda? De que forma seu nome se encaixa, como é possível ver sua assinatura numa produção? Pra ele, o real papel do produtor acaba sendo incerto não apenas para o público final mas até para parte da imprensa especializada porque diferentes produtores fazem muitas coisas diferentes. “Eu mesmo, apesar de ser produtor nos filmes da Blumhouse, meu papel acaba sendo bastante diferente de um filme para outro”.

Ele explica, de maneira bem simples, que seu trabalho é basicamente escolher o que eles farão – então, na verdade, quem quer entender o seu gosto vai enxergar claramente uma espécie de “alinhamento” ao analisar cada um dos filmes que a produtora faz. “E eu reúno o time que vai fazer o filme. Mas eu, em particular, gosto de deixar as coisas correrem mais soltas no dia a dia da produção e mesmo criativamente. Por mais que eu gaste um baita tempo criativo no roteiro, na escolha do elenco, em preparar tudo, eu deixo o diretor fazer o trabalho dele”. De novo, olha aí, a tal da liberdade criativa.

Blum conta ainda que a ideia é sempre ter alguém de produção no set (“raramente sou eu”, ressalta), mas aí na pós-produção ele volta a se envolver criativamente e dar mais dos seus pitacos. “Mas quando me envolvo, veja bem, é para apresentar mais oportunidades para o diretor. O corte final nos nossos filmes é sempre do diretor, a palavra final é dele”. Em resumo, conforme ele bem conceitua, seu papel é o de fazer com que o cineasta tenha a maior quantidade de escolhas possíveis. “E quando eu deixo o controle com ele, sinto que ele vai levar mais as minhas ideias em consideração. Temos pouquíssimos casos de discussões sobre decisões criativas nos nossos filmes”.

Apesar de tantos filmes de terror no catálogo, a Blumhouse vez por outra experimenta outros sons – por exemplo, tipo um filme como Whiplash (que, vamos lá, há quem possa defender que também é “terror”, mas aí é outra história), ou a adaptação cinematográfica de Stoner, romance maldito do falecido autor americano John Williams (não, não aquele). Escrito em 1965, teve apenas 2 mil cópias vendidas e simplesmente sumiu – mas aí, no começo dos anos 2000, começou a ser redescoberto e se tornou um fenômeno nas listas de mais vendidos, primeiro na Europa e depois se espalhando pelo mundo.

“Eu tenho trabalhado para fazer este projeto acontecer há dez anos”, conta Blum. Na história original, William Stoner, filho único de camponeses humildes, quase por acaso descobre sua paixão pelos estudos literários e se torna professor universitário. A partir daí, desenrolam-se então as amizades tragicamente marcadas pela guerra, a difícil vida conjugal, o impossível amor clandestino por uma professora mais jovem... “Quebra todas as nossas regras, porque é muito caro, é um drama, mas tem alguns temas sombrios nele, o que de alguma forma se conecta com o DNA da Blumhouse”. Ainda sem data de lançamento prevista, sabe-se que o diretor será Joe Wright (O Destino de uma Nação), trazendo no elenco Tommy Lee Jones e aquele irmão lá do Ben Affleck.

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Pela descrição e pela história de resgate do livro no qual é inspirado, dá pra sacar que estamos, potencialmente, diante de um filme oscarizável, certo? Blum concorda/ o mesmo Blum que teve tanto com Whiplash quanto com Corra! uma boa dose de prêmios. Justamente ele, especialista em um gênero que não é lá dos mais queridos pela crítica tradicional. Inicialmente, o produtor superstar diz não fazer distinções e afirma que trabalha para ARREBANHAR sempre os dois, público e crítica. “Idealmente, é claro. É o nosso troféu dourado”. Só que... você tá sentindo um MAS nesta frase. Então...

“Mas se eu tiver que escolher um deles, vou sempre escolher os fãs”, afirma, com um sorrisão bastante do sarcástico no rosto.

Tá certo, Blumzão da massa. A gente te entende. Apesar de nem sempre concordar, claro. ;)