“Já vi o filme quatro vezes e ainda fico impressionando com a qualidade” | Judão

Conversamos com o brasileiro Sam Hart, artista da graphic novel Atômica: A Cidade Mais Fria, lançada no Brasil pela DarkSide Books

Charlize Theron chutando bundas em Berlim em pleno novembro de 1989, quando c e r t o s m u r o s estavam caindo. Taí o pretexto para um dos filmes mais legais de 2017, Atômica, baseado na HQ The Coldest City, escrita por Antony Johnston, com arte do inglês naturalizado brasileiro Sam Hart e publicada nos EUA pela OniPress – e que, no Brasil, recebeu da DarkSide Books o título Atômica: A Cidade Mais Fria.

E não, Sam Hart não é um jogador do Blackburn Rovers, nem um músico de San Diego. Esquece o que o Google te diz. O Sam sobre o qual estamos falando é um artista com uma longa trajetória. Ele, por exemplo, foi assistente do John Higgins, colorista de nada menos que Watchmen, e teve aulas na Inglaterra com mestres como David Lloyd (de V de Vingança) e Al Davison (The Spiral Cage). Ele também já trabalhou com personagens como Robin Hood, Power Rangers e o Juiz Dredd.

Até que, um dia, veio Coldest City.

“Conheci o Antony Johnston em 2004, em uma convenção de HQ na Inglaterra. Mantivemos contato online e, em 2010, ele me fez o convite para desenhar Coldest City, que ele achou que casaria bem com meu estilo”, conta Hart em entrevista ao JUDÃO. E o processo criativo foi quase como em toda HQ independente. “O Antony já tinha criado os personagens e escrito o roteiro completo quando me chamou para desenhar – por isso ele é creditado como criador e eu sou coautor. Mandei esboços dos personagens e depois layouts das páginas, tudo por e-mail. O processo foi tranquilo, apesar de ser nossa primeira colaboração, já conhecíamos bem o trabalho um do outro”.

Assim como o filme, a graphic novel se passa naquela efervescência de Berlim durante a queda do muro. Só que tem um pequeno problema: Sam nunca esteve na capital alemã, muito menos em novembro de 1989. “Fiz bastante pesquisa online, de época. Também em livros, filmes e seriados que se passam na época”, conta o quadrinista sobre sua busca por referências. “E usei minha avó paterna, meu avô e familiares como base para os personagens principais. Como eles viveram a época pós-guerra achei que seria uma homenagem bacana”, explica Hart que conta, também, que os avós maternos são alemães.

Porém, a principal sacada do artista não foi buscar inspiração enquanto assistia aos vídeos do Pedro Bial com o Muro de Berlim caindo ao fundo, mas também o ritmo da graphic novel. São cerca de 170 páginas, mas todas elas com o ritmo praticamente cinematográfico e quadros grandes, parecendo até um storyboard. “Eu escolhi trabalhar com uma estrutura de quatro quadros por página, podendo cortar ou variar conforme a necessidade”, conta Hart.

Com esse formato, seria fácil fazer uma adaptação direta para a tela grande, mas o diretor David Leitch e o roteirista Kurt Johnstad resolveram acrescentar outros elementos. “Acho que mudaram o gênero da história, de suspense para ação, mas mantiveram a essência, que é ter o espectador tenso, se perguntando ‘o que vai acontecer agora?’”, diz um empolgado Sam Hart. “As alterações fazem parte do trabalho de adaptar uma mídia para outra – incluir música, cor, movimento, vozes, voice over, etc. Fico feliz que algo do visual preto e branco se manteve, como cenas e roupas quase monocromáticas, e a estrutura da graphic novel, contando em flashback, também”.

“Já vi o filme quatro vezes e ainda fico impressionando com a qualidade da direção, com brincadeiras narrativas e visuais, e da construção dos personagens”.

Na visão do quadrinista, a versão de cinema também conseguiu trazer mais algumas camadas de informação, que ajudam na compreensão das cenas e da história que está sendo contada. “Quando a Lorraine entra em um bar, vemos duas mulheres no balcão, conversando intimamente. Logo em seguida, a Lorraine conhece e leva uma cantada de outra espiã. As duas mulheres no balcão servem para indicar que nesse bar esse tipo de encontro é possível”, exemplifica Sam. “Já vi o filme quatro vezes e ainda fico impressionando com a qualidade da direção, com brincadeiras narrativas e visuais, e da construção dos personagens”.

Sam ressalta que não se envolveu na adaptação para os cinemas. “O Antony, sendo o criador e morando na Inglaterra, ainda conseguiu visitar o set em Budapest e acompanhou o desenvolvimento da adaptação do roteiro”. De qualquer forma, ao menos o convite para ir até as pré-estreias chegou ao Brasil. “Fui ver a pré-estreia em Austin [no SXSW] e depois em LA. Conheci a Charlize, o David [Leitch] e o James [McAvoy]. Ainda bati um papo bacana com o Eddie Marsan, que faz o Spyglass, que é bem simpático e conhece os quadrinhos do Alan Moore. Como pode imaginar, sendo um fã de filmes e de todos os atores que estão no filme, foi uma experiência incrível e surreal”.

Por estar ocupado com a arte da nova graphic novel da Grace O’Malley, uma pirata irlandesa do século XVI, Sam não conseguiu fazer a arte de The Coldest Winter, prequência de The Coldest City. Mas isso não quer dizer que Atômica não abriu portas para o brasileiro. “Por enquanto, o maior benefício profissional do filme é que me possibilitou fazer dois projetos autorais: O Projeto Mega-Ultra Super Secreto, sobre um super-herói brasileiro, e um segundo projeto que acabo de escrever e começo este mês a desenhar”.