Escapar e desconectar: uma grande mensagem de Jumanji | Judão

Ninguém está falando que você deve se desligar completamente do que tá acontecendo no mundo ao seu redor. Mas é bom, de vez em quando, dar a si mesmo um tempo pra respirar – e a cultura pop também tá aí pra isso

Dez dias depois do Trump ser eleito, não teve como este não ser o principal assunto de um encontro que a atriz Connie Britton (de Nashville) realizou com integrantes da Smithsonian Associates, um grande programa de educação por meio da cultura, no National Museum of Natural History, em Washington. E quando Sarah Leavitt tomou o microfone pra fazer sua pergunta, ela tava preocupadaça mesmo. “Não consigo entender como dá pra falar sobre cultura pop e ser uma cidadã ao mesmo tempo, neste mundo em que estamos. Como a gente calibra o nosso tempo, como equilibrar as coisas?”.

É uma preocupação genuína. A gente já falou UM MONTE de vezes aqui sobre como a cultura pop caminha lado a lado com a política e, de fato, é muito difícil separar as coisas. Mas isso não quer necessariamente dizer que uma pessoa deveria ser julgada por desligar um pouco a TV (ou, sei lá, o feed do Twitter) para ir se afundar numa montanha de gibis, aqueles do tipo mais ESCAPISTA possível. Porque a cultura pop também tem este OUTRO lado: ser um portão para uma outra realidade, que pode ser menos dura do que esta que vemos hoje nas manchetes dos jornais e que flooda a nossa timeline das mais singulares desgraças.

Isso significa FUGIR?

O novo Jumanji trata, de alguma forma, um pouco disso aí. Porque, diferente do filme original, ninguém sai do jogo e vem pra vida real — os personagens, todos envolvidos numa situação de merda, vão pra DENTRO de um jogo, “fugindo” da vida real. Como diz o slogan do próprio joguinho: “um jogo para aqueles que procuram uma forma de deixar seu mundo pra trás”. Mas com uma vida real como essa que a gente tem tão escancarada hoje, com racismo, machismo, LGBT+fobias e demais escrotismos que o filme, como bem lembra a nossa resenha, acaba falhando na maneira de lidar, talvez este fosse o melhor caminho?

Foi isso que a gente perguntou pro Nick Jonas, astro do filme e que, por sinal, interpreta um personagem que já está preso dentro de Jumanji tem um baita tempo — maaaais ou menos como um tal de Allan Parish.

“Eu gosto da ideia de que os personagens deste filme são forçados a se desconectar de seus celulares e da tecnologia como um todo”, diz o irmão Jonas. Fato: quando Bethany, uma adolescente fanática por criar o clique perfeito no Instagram e receber a maior quantidade de likes em retorno, se vê não apenas no corpo de um avatar que é a cara do Jack Black mas também total e completamente afastada de seu smartphone no meio da floresta, ela simplesmente pira. Como ficar sem ver o que todo mundo tá postando? “É uma chance de conectar com as outras pessoas ao redor dela”.

Em entrevista ao Washington Post, Paul Levinson, escritor e professor de comunicação/estudos da mídia na Fordham University, afirma que este tipo de DUALIDADE vem desde os tempos de Platão, filósofo que era muito crítico de formas de arte como música e poesia, porque dizia que elas distraiam a sociedade de “coisas mais importantes”. Levinson discorda e diz que, para que sejamos completos como seres humanos, o entretenimento é fundamental porque, caso contrário, não conseguimos fazer nada além de apenas “ruminar” sobre os problemas do mundo e não tentar resolvê-los, embarcando em uma espiral descendente.

“Quando as pessoas dizem ‘por que você vai se perder neste mundo de fantasia quando tem crises reais acontecendo lá fora?’, não, não existe um conflito entre estas duas coisas”, explica. Chefe de psicologia do Northwestern Memorial Hospital, Mark Reinecke concorda e diz que é importante que sua mente ganhe uma pausa de vez em quando. Ele, aliás, recomenda que não apenas se procure um pouco de diversão que traga alegria, mas também coisa que dão uma sensação de completar algo. Do tipo, “yeah, consegui finalizar a 1a temporada desta série”. Uma pausa jamais deveria significar, portanto, que você não está prestando atenção no que está ao seu redor, que você é um alienado. Ela pode ser apenas isso mesmo: uma PAUSA.

No papo com Connie Britton que a gente mencionou lá em cima, a moderadora Linda Holmes, apresentadora do podcast Pop Culture Happy Hour, apresentou uma metáfora interessante. “Cês viram Perdido em Marte, com o Matt Damon? Ele tem um problemão pra resolver, ele tá preso em Marte e tem que voltar pra Terra. E aí ele passa um tempão do filme focado em resolver como plantar batatas em Marte. Não são as batatas que vão fazê-lo voltar pra Terra. Ele não tá resolvendo o problema ali. Mas se ele não tiver as batatas, ele não vai conseguir resolver o problema e voltar pra Terra”.

E aí então ela completou: “Pra mim, a esperança está nas músicas, os livros, as séries que você ama. As conversas que você tem com pessoas que são importantes pra você te ajudam. Pra você colocar tudo em ordem pra então poder voltar pro mundo real”.

Então... que batatas você plantou hoje? ;)