#MeToo: estamos maduros para darmos segundas chances?

O CEO do FX disse estar com saudades de Louis C.K., e que a volta dele depende da aceitação e perdão do público geral. Mas será que AGORA é hora disso?

AVISO DE GATILHO Esse texto contém descrições de assédio sexual e suas consequências emocionais

Aqui no JUDAO.com.br nós falamos muito, mas muuuuito sobre o #MeToo e a grande onda de denúncias contra figurões de Hollywood motivadas pelas acusações a Harvey Weinstein publicadas pelo New York Times em outubro do ano passado. Refletimos muito sobre os significados das queixas, o comportamento tóxico da indústria, as reações do público e as consequências psicológicas e sociais para todas as mulheres, envolvidas ali ou não. Só não conversamos sobre uma coisa até agora: uma segunda chance.

O assunto surgiu a partir de uma entrevista que John Landgraf, CEO do FX, concedeu à Variety. Lá, ele falou sobre o futuro de algumas séries do canal e, em um certo ponto, foi questionado sobre uma possível volta da série Louie, criada e protagonizada por Louis C.K.

Louis anda fora da mídia desde que admitiu culpa sobre as denúncias de assédio sexual feitas por cinco mulheres comediantes. Elas contaram sobre como, repetidas vezes, C.K. se masturbou na frente delas sem consentimento. Em sua declaração oficial, ele disse que, na época, não sentia que fazia algo de errado. “Eu nunca mostrei meu pênis para mulheres sem pedir sua permissão, é verdade. Mas eu aprendi mais tarde na vida, tarde demais, que quando você tem poder sobre outra pessoa, pedir pra elas olharem seu pau não é uma pergunta. É uma intimidação.” Ao final, anuncia uma pausa: “Durante toda a minha longa e sortuda carreira, falei tudo o que quis. Agora, vou me afastar e tirar um bom tempo para apenas ouvir.”

Bem, esse hiato tá rolando desde Novembro de 2017 e John Landgraf disse que está com saudades. “Eu espero, como um fã, que não tenhamos perdido Louie”, afirmou. E ainda disse que sente que há uma diferença entre o caso dele e o de outros atores (“Louie admitiu que a reportagem do New York Times era verdadeira”) e afirmou que acredita na retratação do amigo, embora saiba que muitas pessoas tenham achado aquilo tudo inadequado: “[...] Eu o conheço e acho que ele quis pedir desculpas sinceras”.

No final, John faz uma reflexão BEM legal: “acho que as pessoas que estão se expondo e contando suas histórias foram oprimidas por muito tempo. Elas têm muito o que dizer sobre o que vai acontecer.” Ele, então, diz que a volta de Louis não está nas mãos DELE exatamente, mas sim nas do comediante e do próprio público. “Tem a ver com os caminhos que tomaremos como sociedade e quando, ou se, estaremos prontos para dar segundas chances, perdoar e decidir QUEM merece isso. Não é minha decisão.”

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É importante ressaltar que há algum tempo a mídia, estúdios e gravadoras decidem por conta própria quando ~certas pessoas merecem absolvição sem grandes cerimônias. Pra dar alguns dos VÁRIOS exemplos: Johnny Depp, mesmo após sua ex-esposa Amber Heard ter feito muitos relatos de abuso e um vídeo que prova seu comportamento, tem um dos principais papéis na nova série de filmes do universo Harry Potter. Em 2010, Mel Gibson foi gravado enquanto dizia, entre outras barbaridades, que sua esposa seria a única culpada caso fosse estuprada por usar “roupas provocantes demais”. Ele, no entanto, teve seu filme Até o Último Homem indicado a seis Oscars, faturando dois. Casey Affleck, mesmo após ter sido processado por assédio sexual também em 2010, ganhou um Oscar de melhor ator em 2017 e só não participou da premiação esse ano por decisão própria.

Curioso como homens famosos, brancos e rentáveis sempre parecem merecer um chancezinha nova, não? ¯\_(ツ)_/¯

John Landgraf fala de maneira interessante sobre perdão. Porque esse conceito é algo visto como superior, lindo e necessário. Algo que te liberta do passado, traz leveza e isso é TÃO martelado nas nossas cabeças que talvez a gente fale pouco sobre o TEMPO que se leva para superar e perdoar traumas.

O assédio sexual não tem a ver com sexo, mas com dominância. Com a ideia de que o corpo alheio é POSSE, objeto, algo a ser controlado. E por mais que existam, talvez, graus maiores e menores de gravidade dessas acusações, todos esses atos vêm de uma cultura do estupro que faz parte da nossa estrutura social. Nós ACABAMOS de começar a falar disso. Acabamos de introduzir esse assunto nas rodas de conversa, nos jornais, nas revistas, nos vídeos de YouTube. Acabamos de tentar começar a educar a sociedade sobre todas as nuances que essa violência tem e todas as suas formas.

Talvez algumas pessoas mereçam DE VERDADE um novo começo, mas nós ainda não estamos nem PERTO de estarmos maduros pra fazer isso de forma responsável. Ainda temos MUITO o que aprender, ensinar e conversar.